Análise e valuation · Curso 6/12Intermediário 58 min de leitura Pomodoro

Indicadores fundamentais dos FIIs

Dividend yield (DY), P/VP, vacância, cap rate, liquidez, alavancagem e custo — o que cada um mede, o que a metodologia muda no número e o que eles realmente anteciparam, testado em 771 observações fundo-ano.

1.Onde este curso entra na trilha

Os quatro cursos anteriores desmontaram as famílias de fundo imobiliário uma a uma: o que existe dentro de um FII de tijolo, de um FII de papel, de um FoF, de um híbrido e de um fundo de desenvolvimento. Em cada um deles, a análise consistiu em abrir a carteira e ver o que gera o caixa.

Este curso faz o movimento inverso. Ele pega os números que resumem todos esses fundos — DY, P/VP, vacância, cap rate, liquidez, taxa — e pergunta o que cada um está realmente medindo. Indicadores existem para permitir comparação e triagem em escala: são 516 FIIs listados, e ninguém abre 516 carteiras. O preço dessa economia é que cada indicador é uma compressão, e toda compressão perde alguma coisa.

A pergunta que organiza o curso inteiro não é "qual é o DY deste fundo". É: o que exatamente essa conta mede, o que ela deixa de fora, e o que ela antecipou historicamente? A terceira parte é a que quase nunca é feita — e é a que este curso mede.

A regra do curso

Indicadores são ferramentas de análise, não conclusões isoladas. Cada número deve ser interpretado considerando sua metodologia, período de referência, recorrência e o tipo de FII analisado — inclusive o que ele historicamente antecipou, se é que antecipou alguma coisa.

2.As quatro perguntas antes de qualquer número

Antes de comparar dois fundos por qualquer indicador, quatro perguntas evitam a maior parte dos erros de análise. Elas parecem burocráticas até a primeira vez em que você descobre que dois sites exibem números diferentes para o mesmo fundo — e que os dois estão certos, porque estão calculando coisas diferentes.

  1. O que exatamente está sendo medido? "Vacância" pode ser área vaga, receita não realizada ou unidades desocupadas. "Taxa" pode ser sobre patrimônio, sobre valor de mercado ou sobre a receita.
  2. Qual período o número cobre? DY de 12 meses, DY do mês anualizado e DY do mês são três indicadores diferentes com o mesmo nome.
  3. Qual é o denominador? Preço de hoje, preço médio, patrimônio líquido, valor do imóvel, receita potencial. Trocar o denominador troca o número — e, como este curso mede, troca também o ranking.
  4. A metodologia é comparável entre os fundos que estou colocando lado a lado? Se cada fundo divulga a sua vacância com uma base diferente, o ranking de vacância não ordena vacância: ordena metodologia.

O erro que essas perguntas evitam

Quando dois números divergem, o reflexo é procurar qual está errado. Na maior parte dos casos nenhum está: eles medem coisas diferentes com o mesmo rótulo. Confira a definição antes de concluir que a fonte falhou — e antes de comparar.

3.O que foi medido neste curso

Todos os números deste curso foram calculados sobre fonte primária, em agosto de 2026. Não há indicador reproduzido de portal nenhum: cada um foi recomputado a partir do dado bruto, o que é justamente o que permite comparar metodologias.

FonteO que ela entregaCobertura medida
Séries de preço e proventosfechamento diário de 5 anos e todo o histórico de proventos com data-com, taxa e rótulo468 FIIs listados; 276 com 12 meses completos de preço e provento
CVM — informe mensalVP/cota, patrimônio líquido, cotas emitidas, cotistas, taxa de administração, obrigações e a data de entrega do formulário43 competências (jan/2023 → jul/2026), ~45 mil linhas, 1.325 fundos na última
CVM — informe trimestralvacância e participação na receita por imóvel, taxa de administração e de desempenho em reais, rendimentos declarados e resultado do semestre1.304 informes em 30/06/2026; 400 com ticker no portal
B3 — fita de negóciostodo negócio do pregão: preço, quantidade, horário e as duas pontas10 pregões de agosto de 2026; 319 dos 516 FIIs listados negociaram

Por que isso importa para a leitura

Sempre que este curso disser "medido", há um número atrás com o tamanho da amostra ao lado. Quando o dado público não permite calcular alguma coisa — e isso acontece três vezes ao longo do curso —, o texto diz o que falta em vez de estimar.

4.Preço de mercado, patrimônio e valor patrimonial por cota

O preço de mercado é o valor pelo qual a cota está sendo negociada agora na bolsa. O patrimônio líquido é uma medida contábil: tudo o que a classe de cotas tem, menos tudo o que ela deve, na data do balancete. O valor patrimonial por cota divide um pelo outro.

VP por cota = Patrimônio Líquido ÷ Número de Cotas

Exemplo: patrimônio líquido de R$ 1,00 bilhão e 10,0 milhões de cotas resultam em VP por cota de R$ 100,00.

O significado econômico desse número muda com a estratégia do fundo, e essa é a primeira armadilha da comparação. Num FII de tijolo, o patrimônio reflete laudos de avaliação dos imóveis — a opinião de um avaliador sobre quanto o imóvel valeria numa venda ordenada. Num FII de papel, reflete a marcação dos títulos de crédito. Num FoF, o valor das cotas dos fundos investidos, que por sua vez já embutem os laudos dos imóveis deles.

Valor patrimonial não é preço de venda

É uma referência contábil e econômica, produzida por metodologias que variam por classe de ativo, e que precisa ser lida junto da qualidade e da liquidez do que está lá dentro. Um patrimônio de R$ 100 por cota em galpões logísticos alugados e um patrimônio de R$ 100 por cota em cotas de SPE de incorporação não são a mesma coisa — e o mercado sabe disso, o que já explica parte dos descontos.

5.P/VP: preço contra patrimônio

P/VP = Preço da Cota ÷ Valor Patrimonial por Cota

1,00 significa que o preço coincide com o valor patrimonial. Abaixo de 1,00 há desconto; acima, prêmio.

Preço da cotaVP por cotaP/VPLeitura literal
R$ 90,00R$ 100,000,90o mercado paga 90% do patrimônio contábil
R$ 100,00R$ 100,001,00preço e patrimônio coincidem
R$ 115,00R$ 100,001,15o mercado paga 15% acima do patrimônio contábil

O curso 1 desta trilha mediu a distribuição: entre os 416 fundos com preço e patrimônio comparáveis, 333 (80,0%) negociavam abaixo do valor patrimonial, com mediana de 0,85. Descontar é a regra no mercado brasileiro de FIIs, não a exceção — o que por si só já derruba a ideia de que "abaixo de 1" seja um sinal raro de oportunidade.

Antes de discutir se o desconto é oportunidade, porém, vale examinar de que é feito o denominador. Ele tem duas propriedades que quase nunca são ditas: ele é declaratório e chega atrasado, e ele quase não se mexe.

6.O denominador chega com 15 dias de atraso — e 9,9% dele é reescrito depois

O valor patrimonial não é observado pelo mercado: ele é declarado pelo fundo no informe mensal entregue à CVM. Esse formulário tem uma coluna que quase ninguém usa — Data_Entrega — e ela permite medir exatamente quando o número fica disponível.

Medida sobre 20.640 informes de fundos listadosResultado
Defasagem mediana entre o fim da competência e a entrega15 dias
Entregues em até 15 dias74,9%
Entregues em até 30 dias95,7%
Informes com versão maior que 1 (retificados depois)9,9%

A consequência prática é aritmética. No dia 10 de qualquer mês, o informe do mês anterior ainda não foi entregue: o valor patrimonial mais recente disponível é o do penúltimo fechamento, com 40 dias ou mais de idade. No dia 20, ele passa a ter uns 20 dias. O numerador do P/VP — o preço — muda a cada negócio; o denominador muda uma vez por mês, com defasagem que varia ao longo do próprio mês.

E um décimo dele é reescrito

Quase 10% dos informes recebem uma versão posterior. Isso significa que o P/VP que você viu numa terça-feira pode ter sido calculado sobre um patrimônio que o próprio fundo corrigiu depois. Não é fraude nem descuido sistemático — é a natureza de um dado declaratório —, mas é motivo suficiente para não tratar a terceira casa decimal do P/VP como informação.

7.No tijolo, o valor patrimonial é uma escada

A segunda propriedade é mais consequente. Medindo a variação mensal do VP por cota de todos os fundos listados, ao longo de 43 competências, a rigidez do denominador aparece — e ela depende inteiramente do tipo de ativo.

SegmentoMeses medidosVariação mensal mediana do VPMeses sem variação (< 0,05%)
Tijolo9.1000,164%25,9%
Híbrido2.6860,367%15,2%
Papel3.6960,500%7,2%
FoF3.0650,897%5,7%

Um fundo de papel marca a carteira de CRI a mercado todo mês: o patrimônio se move todo mês. Um fundo de tijolo só muda o valor de um imóvel quando o laudo de avaliação é refeito — e isso acontece uma vez por ano. Entre um laudo e outro, o patrimônio anda apenas pelo caixa retido e pela amortização de obrigações.

O valor patrimonial por cota, mês a mês (base 100 = jan/2023)informe mensal da CVM — 43 competências1001021041062023202420252026GTWR11tijoloKNCR11papeldez/23dez/24nov/25Neste fundo, 83% dos meses ficam parados; no tijolo em geral, 25,9% — e o maior salto do ano concentra 59,2% da variação
Valor patrimonial por cota em base 100, de janeiro de 2023 a julho de 2026. O fundo de tijolo (GTWR11) fica meses parado e salta quando o laudo é refeito; o fundo de papel (KNCR11) sobe continuamente, porque marca a carteira todo mês.

O tamanho do degrau é o que assusta. Em 495 observações ano-fundo de tijolo, o maior salto do ano concentra 59,2% de toda a variação anual do patrimônio (mediana). Em fundos de papel, esse mesmo maior salto concentra 24,7% — praticamente o que se esperaria se a variação fosse espalhada pelos meses.

Mês em que ocorre o maior salto anual do VP (fundos de tijolo)Ano-fundo
Dezembro239 de 495 (48,3%)
Junho86 (17,4%)
Maio30
Novembro29
Demais meses111

O que isso faz com o P/VP

Num fundo de tijolo, o P/VP compara um preço que se forma todo segundo com uma avaliação refeita uma vez por ano. Entre dois laudos, TODA a variação do P/VP é variação de preço — o indicador não está "reagindo ao patrimônio", porque o patrimônio está parado. E quando o laudo sai, o P/VP dá um salto que não tem nada a ver com o que aconteceu naquele dia no mercado.

Isso não invalida o indicador: torna explícito o que ele é. O P/VP de um fundo de tijolo é a razão entre a opinião contínua do mercado e a opinião anual de um avaliador. Comparar essa razão entre dois fundos de tijolo cujos laudos foram refeitos em meses diferentes — um em dezembro, outro em junho — é comparar retratos tirados em momentos distintos do ciclo imobiliário.

8.O teste: comprar barato pelo P/VP entregou mais retorno?

"Abaixo de 1 é barato" é a regra mais repetida do mercado de FIIs. É também uma afirmação testável, e o dado necessário para testá-la existe: preço, patrimônio declarado e proventos, por fundo, por ano.

O desenho do teste é o mesmo usado no curso 4 para o spread dos CRIs. Em quatro datas — agosto de 2022, 2023, 2024 e 2025 —, calcula-se o P/VP de cada fundo com o patrimônio declarado disponível naquele momento. Os fundos são divididos em cinco grupos, do mais descontado ao mais caro. Depois se observa o que aconteceu nos 12 meses seguintes: retorno total, medido pelo preço ajustado por proventos. São 755 observações fundo-ano.

Comprar barato pelo P/VP entregou mais retorno?retorno total mediano dos 12 meses seguintes — 755 fundo-anos, 4 janelasSpearman = +0,04 (t = 1,0): nulo0%5%10%+5,9%Q1P/VP 0,56+5,1%Q2P/VP 0,76+8,7%Q3P/VP 0,88+8,0%Q4P/VP 0,95+8,6%Q5P/VP 1,02Q1 = quinto mais descontado · Q5 = quinto mais caro
Retorno total mediano dos 12 meses seguintes, por quintil de P/VP inicial. O quintil mais descontado não entregou mais retorno — entregou o segundo menor.
Quintil de P/VPP/VP medianoRetorno total (12m seguintes)Variação do preço
Q1 — mais descontado0,555+5,90%−5,57%
Q20,763+5,11%−5,53%
Q30,884+8,68%−3,44%
Q40,952+7,97%−4,73%
Q5 — mais caro1,022+8,63%−3,22%

A correlação de posto entre P/VP inicial e retorno total seguinte é +0,037, com t = 1,01 — estatisticamente indistinguível de zero. E o sinal, quando aparece, aponta para o lado errado da crença: na janela de agosto de 2023 a agosto de 2024 a correlação foi +0,253 (t = 3,5), ou seja, os fundos mais CAROS renderam mais.

O que isso significa (e o que não significa)

Não significa que o P/VP seja inútil. Significa que ele não é, sozinho, um sinal de retorno futuro: o mercado desconta por motivos, e na média esses motivos se confirmam o bastante para anular a vantagem do preço baixo. Comprar o quinto mais descontado do mercado, sistematicamente, teria entregue menos do que comprar o quinto mais caro.

9.A pergunta certa sobre o desconto

Se o P/VP não ordena retorno, para que ele serve? Para o mesmo que serve um preço em qualquer mercado: como ponto de partida de uma pergunta, não como resposta. A pergunta útil não é "está abaixo de 1?", e sim: por que existe esse desconto e o que precisaria acontecer para ele fechar?

  • O patrimônio está superavaliado? Laudo anual de imóvel com vacância alta costuma demorar a incorporar a perda de renda — o curso 3 mostrou o mecanismo.
  • A renda vai cair? Contrato vencendo, inquilino concentrado, crédito em atraso na carteira de CRI.
  • O ativo é vendável pelo valor do laudo? Um galpão logístico bem localizado e uma laje corporativa vaga têm liquidez muito diferentes pelo mesmo valor contábil.
  • A gestão destrói valor? Emissões abaixo do patrimônio, giro alto com custo, taxa desproporcional.
  • O patrimônio é opaco? O curso 5 mostrou fundos em que a maior parte do ativo está em cotas de SPE, que não publicam carteira: ali o desconto é sobre algo que ninguém consegue verificar.

A regra prática

Um desconto só é oportunidade quando você consegue nomear o motivo dele e discordar do motivo com evidência. Se você não sabe dizer por que o fundo está descontado, o desconto não é a sua vantagem — é a sua ignorância sobre o que o mercado já sabe.

10.DY: a fórmula e o que precisa estar explícito

O DY é a renda distribuída em relação ao preço da cota. É o indicador mais citado do mercado de FIIs, e o mais fácil de calcular errado — não porque a conta seja difícil, mas porque ela tem três escolhas embutidas que quase nunca são declaradas.

DY = Rendimentos distribuídos no período ÷ Preço da cota × 100

Três escolhas escondidas: quais rendimentos entram, qual é o período e qual preço vai no denominador.

  • Quais rendimentos entram. Rendimento e amortização de cota aparecem no mesmo extrato e no mesmo campo de muitas bases. Um é renda; o outro é devolução do seu próprio capital.
  • Qual é o período. Doze meses corridos, o último mês anualizado, o ano-calendário, o mês típico anualizado. São indicadores diferentes com o mesmo nome.
  • Qual preço. O de hoje, o médio do período, o de cada data-com. Num fundo cujo preço caiu 30% no ano, essa escolha muda o resultado mais do que a renda muda.

A régua deste site é a mesma dos cursos anteriores: soma exata dos rendimentos com data-com nos últimos 365 dias, dividida pelo preço atual, com amortização excluída. É uma escolha entre várias defensáveis — e a próxima seção mede exatamente quanto essa escolha importa.

11.Cinco contas de DY, cinco rankings

Sobre os 276 FIIs com 12 meses completos de preço e provento, o mesmo conjunto de pagamentos foi passado por cinco metodologias. Todas são usadas no mercado; nenhuma é errada. Elas simplesmente não são a mesma coisa.

MetodologiaMediana do universop25p75
12 meses ÷ preço de hoje12,88%9,68%15,91%
12 meses ÷ preço médio do período12,06%9,20%14,45%
Σ (cada rendimento ÷ preço da sua data-com)11,85%9,11%14,31%
Último mês × 1212,98%9,96%16,14%
Mês mediano × 1213,05%10,12%16,04%

As medianas são parecidas — e é exatamente por isso que a divergência passa despercebida. O que muda não é o nível do mercado: é a posição de cada fundo dentro dele.

O mesmo fundo, quatro contas de Dividend Yield% ao ano — proventos com data-com nos 12 meses até 19/08/202612m ÷ preço de hoje12m ÷ preço médioúltimo mês × 12mês mediano × 120%5%10%15%15,112,514,314,3TRXF11Tijolo11,311,312,79,5KNIP11Papel17,212,614,416,8VGHF11FoF7,96,87,48,3PVBI11Tijolo13,412,814,714,7CPTS11FoF12,812,914,712,7KNSC11PapelNo universo medido, trocar a janela troca 14 dos 20 primeiros colocados do ranking de DY
Quatro das cinco contas aplicadas a seis fundos reais. Em fundos cujo preço caiu no período, a conta sobre o preço de hoje se descola das demais; em fundos com rendimento irregular, é a conta de janela que se descola.
Trocando "12 meses ÷ preço de hoje" por…Correlação de postoQuantos dos 20 maiores DY permanecem
12 meses ÷ preço médio0,94913 de 20
Yield realizado (preço de cada data-com)0,94812 de 20
Mês mediano × 120,77012 de 20
Último mês × 120,6116 de 20

Quatorze dos vinte primeiros mudam

Trocar a janela de 12 meses pelo último mês anualizado — que é como boa parte das telas de "DY anualizado" é construída — troca 14 dos 20 nomes no topo do ranking. A divergência mediana entre as duas contas é de 1,13 ponto percentual, mas o p90 é de 10,06 p.p. Se você compara fundos usando fontes diferentes, pode estar comparando metodologias, não fundos.

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O mesmo fundo, cinco Dividend Yields

Interativo

Escolha um FII e veja as cinco contas de DY que circulam no mercado, todas calculadas sobre os proventos reais dos 12 meses encerrados em 19/08/2026. A amortização de cota está fora de todas elas.

TGAR11TG Ativo RealHíbrido
Preço hoje: R$ 45,30Preço médio 12m: R$ 73,94Renda 12m/cota: R$ 10,03Meses com pagamento: 12
12 meses ÷ preço de hoje22,14%

a régua deste site — soma dos proventos com data-com nos últimos 365 dias

12 meses ÷ preço médio13,57%

mesma renda, dividida pela média dos fechamentos do período

yield realizado13,59%

cada provento dividido pelo preço do dia da sua data-com, somados

último mês × 1219,07%

o pagamento mais recente projetado para um ano

mês mediano × 1219,07%

o pagamento típico do período projetado para um ano

Amplitude entre a maior e a menor conta8,57 p.p.(13,57% a 22,14%)

A maior divergência da seleção: 22,14% contra 13,57%. A diferença não é de metodologia de renda — é do preço. A cota caiu de uma média de R$ 73,94 para R$ 45,30 no período, e dividir a mesma renda pelo preço de hoje produz um yield que nenhum cotista daquele ano recebeu.

No universo completo (276 FIIs com 12 meses de preço e provento), a divergência mediana entre a conta de 12 meses e a do último mês anualizado é de 1,13 ponto percentual, com p90 de 10,06 p.p. — e trocar uma pela outra troca 14 dos 20 primeiros colocados do ranking de DY.

12.Amortização não é rendimento

Um FII pode devolver capital ao cotista de duas formas economicamente opostas. Pode distribuir o resultado que gerou — aluguel recebido, juros de CRI, ganho de capital. Ou pode amortizar cotas: vender um ativo e devolver ao cotista parte do principal que ele investiu, reduzindo o patrimônio do fundo.

Nos 12 meses medidos, os proventos dos FIIs listados vieram com três rótulos: 3.367 eventos de RENDIMENTO, 139 de AMORTIZAÇÃO (em 57 fundos diferentes) e 1 de dividendo. O rótulo está na fonte. Somar os dois produz números que não descrevem renda nenhuma.

FundoDY de 12 meses (só rendimento)Se a amortização entrasse na conta
GLOG116,41%110,54%
PNCR115,11%106,56%
FMOF1127,26%111,10%
HYPI1162,72%120,44%
Mediana da inflação, nos fundos com amortização+17,24 pontos percentuais

O sintoma diagnóstico

Yield de dois ou três dígitos em um fundo imobiliário quase nunca é renda: é fundo em liquidação devolvendo capital, ou fundo que vendeu um ativo relevante. O curso 1 desta trilha já registrou o caso extremo de um DY exibido em 2.669%. A regra é simples: antes de acreditar num yield alto, confira o RÓTULO dos pagamentos, não o tamanho deles.

Vale a inversão também: um fundo que amortiza cotas não está pagando mal. Ele está devolvendo dinheiro que era seu, e o patrimônio por cota cai na mesma proporção. O erro não é o fundo amortizar; é a conta somar amortização com renda e chamar o resultado de yield.

13.Recorrente e extraordinário: como separar

Excluída a amortização, sobra um segundo problema: nem todo rendimento se repete. Um FII pode vender um imóvel com ganho, receber multa por rescisão contratual, realizar lucro na venda de cotas, usar reserva acumulada de semestres anteriores. Tudo isso vira rendimento distribuído — e nada disso descreve a capacidade de pagar no ano que vem.

Não existe campo "extraordinário" no dado público, mas existe uma pista aritmética: comparar o maior pagamento mensal com o pagamento típico do período.

Concentração da distribuição em um único mês (257 fundos)Resultado
Maior mês, em % do total de 12 meses — mediana9,9% (uniforme seria 8,3%)
Fundos com o maior mês acima de 15% do total44 (17%)
Fundos com o maior mês acima de 25% do total20 (8%)
Fundos com o maior mês ≥ 3× o mês mediano23 (9%)
Caso extremo (RBOP11)um mês = 70,6% do total do ano

A leitura prática: em nove de cada dez fundos, a distribuição é razoavelmente regular e o DY de 12 meses descreve bem a renda corrente. No décimo, ele descreve um evento. E a maneira mais barata de descobrir em qual grupo o fundo está é justamente calcular as duas contas do widget anterior — 12 meses e mês mediano × 12. Quando elas divergem muito, há um evento no meio.

A conta perigosa

Anualizar o mês em que caiu o extraordinário ("pagou R$ 2,00 este mês, então são R$ 24,00 por ano") produz um yield que nunca existiu e nunca existirá. É por isso que a conta "último mês × 12" é a que mais desordena o ranking: ela é a mais sensível justamente ao que menos se repete.

14.O DY alto é renda ou é desconto?

Há uma explicação muito repetida para o yield alto: o fundo não paga mais — a cota é que está mais barata. É uma afirmação plausível, e ela tem uma forma algébrica exata. O DY pode ser reescrito como a renda que o fundo gera sobre o próprio patrimônio, dividida pelo desconto a que a cota negocia:

DY = (renda 12m ÷ VP por cota) ÷ (P/VP)

A identidade é exata: renda ÷ preço = (renda ÷ VP) × (VP ÷ preço). O primeiro termo é operacional; o segundo, de mercado.

Escrito assim, o yield alto pode vir de dois lugares completamente diferentes: de um fundo que gera mais renda por real de patrimônio, ou de um fundo cuja cota está mais descontada. Decompondo a variância entre os 236 fundos que pagam com regularidade, dá para medir de qual dos dois vem a diferença de yield no mercado brasileiro.

Origem da dispersão do DY entre fundosParticipação
Renda gerada sobre o patrimônio83,3%
Desconto da cota (P/VP)16,7%

O resultado contraria a explicação corrente: o yield alto do mercado brasileiro é, em sua maior parte, renda de verdade, não miragem de preço. Fundos com DY alto realmente distribuem mais por real de patrimônio. Olhando quartil a quartil, porém, aparece o detalhe que muda tudo:

O DY alto é renda ou é desconto?DY = (renda ÷ valor patrimonial) ÷ (P/VP) — medianas por quartil, 236 fundosrenda ÷ patrimônio (% a.a.)P/VP (faixa superior, escala à direita)0%5%10%15%20%0,700,800,901,006,3%Q1DY 8,9%9,4%Q2DY 11,9%12,1%Q3DY 14,4%12,8%Q4DY 18,2%0,810,810,850,6883,3% da dispersão do DY vem da renda sobre o patrimônio; 16,7% vem do desconto
Por quartil de DY: a renda sobre o patrimônio (barras) e o P/VP mediano (linha). Do primeiro ao terceiro quartil, o yield sobe porque a renda sobe — o desconto até diminui. Só no quarto quartil o desconto aparece.
Quartil de DYDY medianoRenda ÷ patrimônioP/VP mediano
Q18,86%6,32%0,806
Q211,88%9,37%0,813
Q314,36%12,14%0,851
Q418,16%12,79%0,676

Do Q1 ao Q3, a renda sobre o patrimônio quase dobra (6,32% → 12,14%) e o desconto diminui: o mercado paga mais caro por quem rende mais. No Q4, a renda praticamente para de subir (12,14% → 12,79%) e o P/VP desaba para 0,676. O yield extra do último quartil não vem de mais renda: vem de o mercado ter cortado o preço de fundos que rendem quase o mesmo que os do quartil anterior.

A pergunta que isso levanta

Se o mercado desconta justamente os fundos que mais rendem sobre o patrimônio, o que ele está precificando não é a renda de hoje — é a permanência dela. Se estiver certo, essa renda cai; se estiver errado, o comprador leva yield alto e valorização. Essa é uma hipótese testável, e é o que o próximo capítulo faz.

Sobre as medianas da tabela

Cada coluna traz a mediana do seu quartil, e mediana de razão não é razão de medianas: dividir 12,79% por 0,676 dá 18,92%, não os 18,16% da primeira coluna. As três colunas descrevem o mesmo grupo, mas cada uma foi medida separadamente — a identidade vale fundo a fundo, não entre medianas.

15.Rendimento por cota não é resultado por cota

Duas linhas parecidas aparecem em todo relatório gerencial, e elas medem coisas diferentes. Rendimento por cota é o que foi efetivamente distribuído. Resultado por cota é o que o fundo gerou no período, segundo a metodologia que o próprio gestor apresenta.

Rendimento por cota = Valor distribuído ÷ Número de cotas

O fluxo que efetivamente saiu do fundo e entrou na conta do cotista.

Resultado por cota = Resultado do período ÷ Número de cotas

O que o fundo apurou no período. A diferença entre os dois tem nome: reserva, ganho anterior ou retenção.

A relação entre os dois — o payout — está no informe trimestral, e pode ser medida no mercado inteiro. No 2º trimestre de 2026, entre os 340 fundos listados com resultado positivo no semestre:

Payout do semestre (rendimentos declarados ÷ resultado)Fundos
Mediana do universo98,2%
Acima de 100%73 (21%)
Acima de 120%18
Abaixo de 80%25
Distribuindo com resultado negativo no semestre2

A concentração em torno de 98% não é coincidência: a Lei 8.668 obriga a distribuir ao menos 95% do lucro apurado pelo regime de caixa, a cada semestre. O que interessa na análise são as pontas. Quem distribui bem acima de 100% está entregando renda que a operação corrente não gerou — pode ser reserva, pode ser ganho de capital, e em ambos os casos há um limite de quanto tempo isso dura. Quem distribui bem abaixo está retendo, e vale saber para quê.

Uma observação isolada não conclui nada

Fundos retêm num semestre para distribuir no seguinte, e a regra dos 95% é semestral, não mensal. O que informa é a SÉRIE: um payout acima de 100% por vários semestres seguidos, com reservas encolhendo, é uma distribuição com prazo. O curso 7 desta trilha abre exatamente essa conta.

16.Retorno total: a renda é só metade

O cotista não ganha apenas rendimento. O retorno econômico de uma posição é a renda recebida mais a variação do preço da cota. Analisar só o DY esconde metade do resultado — e, no mercado brasileiro de FIIs, historicamente a metade negativa.

Retorno total ≈ Rendimentos recebidos + Variação do preço da cota

Aproximação didática: o cálculo rigoroso considera a data de cada pagamento e o reinvestimento.

O curso 1 desta trilha mediu a decomposição em 157 fundos líquidos ao longo de 12 meses: os proventos somaram +12,18 pontos percentuais, o preço caiu 4,52% — com queda em 80,3% dos fundos — e o retorno total ficou em +6,49%, negativo em 29,9% dos casos. A renda entregou o dobro do que o resultado final mostrou, porque o preço comeu a diferença.

Por que isso é a ponte para o próximo capítulo

Se o DY descreve só uma parte do retorno, a pergunta natural é: a parte que ele descreve compensa a parte que ele esconde? Ou seja — fundos com DY alto entregaram, no fim, mais retorno total? É exatamente essa a pergunta que o capítulo seguinte responde com dado, e a resposta é o achado central deste curso.

17.O DY antecipou alguma coisa? O desenho do teste

Todo material sobre FIIs adverte contra a yield trap: o yield alto que parece oportunidade e é aviso. A advertência é correta e quase nunca vem com número. Ela é testável — e o dado necessário existe: preço diário, provento com data-com e patrimônio declarado, por fundo, ao longo de anos.

O desenho é o mesmo do curso 4, aplicado ao yield em vez do spread. Quatro janelas anuais independentes, com formação em agosto de 2022, 2023, 2024 e 2025. Em cada uma:

  1. Calcula-se o DY dos 12 meses anteriores à data de formação, com amortização excluída, usando o preço daquela data.
  2. Exige-se que o fundo tenha pagado em ao menos 10 dos 12 meses — para separar renda corrente de evento isolado.
  3. Os fundos são ordenados por DY e divididos em cinco grupos dentro da própria janela, para que a comparação não misture níveis de juros diferentes.
  4. Observa-se o que aconteceu nos 12 meses seguintes: retorno total pelo preço ajustado por proventos, renda efetivamente distribuída e variação dessa renda contra os 12 meses anteriores.

São 771 observações fundo-ano. Um mesmo fundo aparece em mais de uma janela — o que é próprio deste desenho: a unidade de observação não é o fundo, é o par fundo-ano.

O que está sendo testado, exatamente

Não é se um fundo específico vai cortar o rendimento. É se o NÍVEL de yield, sozinho, separou grupos com desfechos diferentes — o que é uma taxa-base histórica, não uma previsão. Taxa-base é o que permite calibrar a desconfiança: saber que 68% de um grupo cortou não diz nada sobre o fundo à sua frente, mas diz muito sobre o tamanho da pergunta que ele exige.

18.O resultado: o topo do ranking entregou o pior retorno

O que aconteceu nos 12 meses seguintes, por quintil de DY771 fundo-anos — janelas de agosto, 2022→2023, 2023→2024, 2024→2025 e 2025→2026retorno total medianovariação da renda distribuída% que cortou mais de 10%+10%0%-10%-20%+5,1+4,7Q1 · DY 7,7%cortou: 20,0%+8,6+3,5Q2 · DY 9,7%cortou: 14,2%+10,2+1,4Q3 · DY 11,6%cortou: 19,5%+7,65,3Q4 · DY 13,6%cortou: 34,2%+4,119,1Q5 · DY 17,1%cortou: 68,4%Spearman (DY, retorno total) = −0,08 · Spearman (DY, variação da renda) = −0,45 com t = −13,96
Por quintil de DY inicial: retorno total e variação da renda distribuída nos 12 meses seguintes, e a fração de fundos que cortou mais de 10% da distribuição. 771 observações fundo-ano em quatro janelas.
Quintil de DYDY inicialRetorno totalVariação do preçoRenda recebidaVariação da rendaCortou > 10%
Q17,67%+5,11%−2,59%8,16%+4,7%20,0%
Q29,66%+8,63%−1,67%9,98%+3,5%14,2%
Q311,57%+10,23%−2,38%11,47%+1,4%19,5%
Q413,59%+7,63%−5,32%12,64%−5,3%34,2%
Q517,11%+4,08%−9,76%14,21%−19,1%68,4%

Três leituras saem daí, e as três contrariam o uso corrente do indicador.

Primeira: a relação não é crescente — é uma curva com topo no meio. O melhor retorno total não ficou nos fundos de maior yield nem nos de menor: ficou no terceiro quintil (+10,23%), com DY de 11,57%. Os extremos entregaram menos: +5,11% embaixo e +4,08% em cima.

Segunda: o yield alto não se cumpriu. O quintil de maior DY prometia 17,11% e entregou 14,21% de renda nos 12 meses seguintes. O de menor yield prometia 7,67% e entregou 8,16% — mais do que prometia. A promessa se cumpre embaixo e falha em cima.

Terceira: o corte é a regra no topo, não a exceção. No quintil de maior yield, a renda caiu 19,1% na mediana e 68,4% dos fundos cortaram mais de 10% da distribuição. No segundo quintil, apenas 14,2% cortaram.

Correlação de posto (771 fundo-anos)Coeficientet
DY inicial × retorno total seguinte−0,082−2,28
DY inicial × variação da renda−0,45−13,96

O que o DY realmente prevê

O DY é um péssimo previsor de retorno (−0,08) e um excelente previsor de CORTE (−0,45, com t = −13,96). E o sinal se repete nas quatro janelas medidas isoladamente: −0,545, −0,606, −0,378 e −0,299. Não é um efeito de um ano estranho: é o comportamento estrutural do indicador no período.

🪤

Esse yield se sustentou? O que a história diz

Interativo

Digite um Dividend Yield de 12 meses. O widget encontra o quintil em que ele cai e mostra o que aconteceu nos 12 meses SEGUINTES com os fundos que exibiam esse nível de yield — em 771 observações fundo-ano, distribuídas por quatro janelas anuais.

até 8,3%

8,3–9,6%

9,6–12,0%

12,0–13,8%

13,8%+

Quintil 5 — yield mais alto152 observações · DY mediano da faixa 17,11%

Retorno total

+4,08%

12 meses seguintes

Variação do preço

−9,76%

sem os proventos

Renda recebida

14,21%

prometia 17,11%

Variação da renda

−19,1%

contra os 12m anteriores

cortaram mais de 10% da distribuição68,4%
terminaram os 12 meses com retorno total negativo42,8%

Prometeu 17,11% e entregou 14,21%. A renda caiu 19,1% na mediana, 68,4% dos fundos cortaram mais de 10% da distribuição e o preço recuou 9,76%. O retorno total foi o pior dos cinco quintis — e 42,8% das observações terminaram negativas.

Isto é uma taxa-base histórica de um grupo, não uma previsão sobre um fundo. A correlação de posto entre DY inicial e variação da renda é de −0,45 (t = −13,96), com o mesmo sinal nas quatro janelas; entre DY inicial e retorno total é de apenas −0,08. O yield alto informa muito sobre o corte que vem, e quase nada sobre o retorno.

19.Por que o topo corta

O resultado não é um mistério estatístico. Ele tem mecanismos, e todos já foram medidos nos cursos anteriores desta trilha. O yield alto de hoje costuma vir de uma destas quatro origens — e cada uma tem um motivo próprio para não durar.

Origem do yield altoPor que ele cai depoisOnde isso foi medido
Rendimento extraordinário (venda de ativo, multa, ganho de capital)não se repete no ano seguinte, por definição9% dos fundos têm o maior mês ≥ 3× o mês típico
Crédito em atraso na carteira de CRIo preço da cota cai mais rápido que a distribuição, inflando o yield antes de ele quebrarcurso 4: fundos com atraso ≥ 10% exibiam DY de 20,5% contra 13,9% dos sem atraso, e retorno total de −27,2%
Contrato vencendo ou inquilino saindoa receita cai quando o contrato termina; o indicador só enxerga depoiscurso 3: 73,9% dos espaços vagos seguem vagos 12 meses depois
Distribuição acima do resultado geradoreserva acaba; ganho de capital não se repete21% dos listados com payout acima de 100% no semestre

Repare que em três dos quatro casos o preço já reagiu antes de a distribuição cair. É isso que produz o yield alto: o denominador encolhe primeiro. Quem compra pelo yield está, na prática, comprando um numerador que ainda não foi atualizado.

O mercado não é infalível — mas é rápido

O teste não diz que o mercado sempre acerta. Diz que, no agregado, ele acerta o suficiente para anular a vantagem aparente do yield alto: a renda extra que o quintil 5 entregou (14,21% contra 8,16% do quintil 1) foi mais do que consumida pela queda de preço (−9,76% contra −2,59%). Existem exceções — mas achá-las exige exatamente o trabalho que o indicador prometia dispensar.

20.Como usar o DY depois disso

A conclusão prática não é abandonar o indicador. É trocar a pergunta que se faz com ele.

  • Use o DY como filtro de atenção, não de compra. Yield muito acima da mediana do segmento é um pedido de investigação sobre a origem da renda, não um sinal de barganha.
  • Compare o DY de 12 meses com o do mês típico anualizado. Divergência grande denuncia evento no meio da janela.
  • Confira o rótulo dos pagamentos. Amortização não entra; se entrou, o número que você está vendo não é yield.
  • Olhe o payout do semestre. Yield sustentado por distribuição acima do resultado tem prazo.
  • Prefira a série à fotografia. Doze pagamentos alinhados dizem mais sobre a capacidade de pagar do que qualquer taxa anualizada.
  • Lembre-se de que a mediana do mercado já é alta. Com DY mediano de 12,88% no universo medido, "yield de dois dígitos" não distingue nada — é a mediana.

O que o teste efetivamente autoriza a dizer

Que o quintil de maior yield historicamente entregou menos retorno total, mais queda de preço e corte de distribuição em dois terços dos casos. Um fundo específico do quintil 5 pode ser uma excelente decisão — mas quem o compra assume o ônus de explicar por que ele é a exceção, e essa explicação precisa vir dos ativos, não do próprio yield.

21.Vacância física: a conta e a ponderação

Vacância física mede a parcela do espaço locável que está desocupada. É o indicador operacional central de um FII de tijolo — e o mais dependente de metodologia de todos os que este curso trata.

Vacância física = ABL vaga ÷ ABL considerada × 100

ABL = área bruta locável. Se 10 mil m² de uma base de 100 mil m² estão vagos, a vacância física é 10%.

O problema mora em "ABL considerada" e em como os imóveis são somados. O curso 3 desta trilha mediu o efeito sobre a MESMA base de 1.752 imóveis: a vacância do mercado dava 0,27% somando toda a área, 8,51% excluindo os 27 imóveis com mais de 1 milhão de m² (fazendas de fundos do agro), 9,59% pela média simples dos imóveis e 2,55% pela mediana por fundo. Quatro números, quatro décadas de distância entre eles, mesma fonte.

E o curso 3 também mediu por que isso acontece: a vacância é binária. Dos 1.752 imóveis, 76,4% estavam com vacância zero e 6,6% com 100% — só 17,0% tinham vacância parcial. Quando a variável é quase sempre 0 ou 1, o que decide o número agregado é inteiramente o peso de cada imóvel.

A regra de leitura

Vacância só se compara contra a série do próprio fundo, ou entre fundos cuja base você conhece. Um ranking de vacância montado a partir de números divulgados por gestores diferentes ordena, sobretudo, critérios de divulgação.

22.Vacância financeira: o que o dado público não permite calcular

A vacância financeira tenta responder a uma pergunta melhor: quanto de receita potencial deixa de entrar por causa da desocupação. Ela é mais informativa que a física sempre que os espaços têm valores de aluguel muito diferentes — uma laje premium vaga pesa mais que um galpão barato vago.

Vacância financeira ≈ Receita potencial não realizada ÷ Receita potencial total

O numerador e o denominador dependem de quanto o espaço vago RENDERIA se estivesse alugado — uma estimativa, não um dado observado.

É aqui que a fonte pública para. O informe trimestral traz, por imóvel, a vacância e a participação na receita do fundo — mas essa participação é da receita realizada. Usá-la como peso parece a aproximação natural da vacância financeira. Ela não é: é aritmeticamente cega justamente ao caso que mais importa.

A mesma carteira, três contas de vacância% — informe trimestral da CVM, 30/06/2026área vaga ÷ ABLmédia simples dos imóveisponderada pela receita realizada0%20%40%60%80%VVRI113 imóveis74,0%33,3%0,0%RBOP112 imóveis69,5%36,4%41,0%TELM113 imóveis39,6%66,7%0,0%EDFO118 imóveis36,2%62,5%0,0%BVAR1135 imóveis33,4%22,9%0,0%MAXR116 imóveis25,5%16,7%0,0%Imóvel 100% vago não gera receita — e com peso zero some da conta ponderada por receita realizada
A mesma carteira sob três contas de vacância. Ponderar pela receita realizada faz o imóvel totalmente vago desaparecer da conta — ele não gera receita, logo entra com peso zero.
FundoÁrea vaga ÷ ABLMédia simples dos imóveisPonderada pela receita realizada
VVRI1173,97%33,33%0,00%
RBOP1169,55%36,44%41,05%
TELM1139,63%66,67%0,00%
EDFO1136,16%62,50%0,00%
BVAR1133,39%22,86%0,00%
MAXR1125,53%16,67%0,00%

Por que dá exatamente zero

Dos 109 imóveis 100% vagos no informe de junho de 2026, 69 (63%) declaram participação ZERO na receita do fundo — porque um imóvel vazio não gera receita. Ponderar vacância por receita realizada atribui peso zero a quem está 100% vago: quanto pior o problema, menos ele pesa. Nos 122 fundos multiativos medidos, essa conta ficou MENOR que a por área em 53 dos 69 casos com vacância (77%), com diferença mediana de 1,02 p.p. e p90 de 24,19 p.p.

A conclusão é uma régua de leitura, não um defeito do conceito: vacância financeira é um bom indicador e não é reproduzível a partir do dado público. Quando um relatório gerencial a publica, é o gestor quem estimou a receita potencial do espaço vago — e por isso a definição precisa ser lida antes de comparar dois fundos. A conta que qualquer um pode refazer é a da área.

23.NOI e margem NOI: o que é e por que o informe não entrega

NOI (Net Operating Income) é a renda operacional líquida do imóvel: receitas operacionais menos despesas operacionais do ativo, antes de itens financeiros, tributários e da estrutura do veículo. É a métrica que separa o desempenho do IMÓVEL do desempenho do FUNDO.

NOI ≈ Receitas operacionais do imóvel − Despesas operacionais do imóvel

A composição exata varia entre gestores e segmentos. Confirme sempre quais receitas e quais despesas entraram.

Margem NOI = NOI ÷ Receita operacional considerada × 100

Quanto da receita sobra depois dos custos operacionais incluídos no cálculo. Comparar margens entre segmentos diferentes tem pouca utilidade.

No dado público brasileiro, o NOI não sai pronto — e a tentativa de reconstruí-lo produz um número que não mede o que promete. O curso 3 mediu: a despesa de manutenção declarada no informe trimestral equivale a 1,71% da receita de aluguel, o que produziria uma "margem NOI" mediana de 98,1%, e 84 de 198 fundos declaram manutenção zero. Nenhuma operação imobiliária tem margem operacional de 98%: o que falta ali são condomínio, IPTU de área vaga, capex de manutenção e custos de recomercialização, que o formulário não pede desagregados.

Como usar o NOI, então

Como métrica de RELATÓRIO GERENCIAL, comparada com a série do próprio fundo, lendo a composição que o gestor declara. Nunca como número comparável entre gestores — e nunca reconstruído a partir do informe da CVM, que não tem as despesas necessárias.

24.Cap rate: a taxa que o imóvel rende — e o que ela esconde

Cap rate relaciona a renda operacional anual do imóvel ao valor do imóvel. É a régua de preço do mercado imobiliário e, bem usada, o indicador mais informativo de um FII de tijolo.

Cap rate = NOI anual ÷ Valor do imóvel × 100

NOI anual de R$ 8 milhões sobre um imóvel avaliado em R$ 100 milhões implica cap rate de 8%.

As duas pontas são escolhas. O denominador pode ser preço de aquisição, avaliação atual ou valor implícito no preço da cota. O numerador pode ser a renda corrente, a renda estabilizada (o que o imóvel renderia cheio) ou uma projeção. Dois cap rates só se comparam quando as duas bases coincidem — e essa é a origem da maior parte das comparações inválidas que circulam.

O curso 3 mediu a régua agregada do mercado, sobre 171 fundos e 26,4 milhões de m²: cap rate de 8,40%, aluguel de R$ 30,75/m²/mês e valor de R$ 4.394/m². Por segmento, logística 9,23%, escritórios 6,85%, hospital 8,96%, residencial 5,25%. E mediu também o efeito que quase ninguém antecipa:

Cap rate corrente alto vem com MENOS vacância — porque é aritmética, não qualidade

No corte por quartil de cap rate contábil, o quartil mais baixo (4,85%) tinha vacância mediana de 17,34% e o mais alto (12,28%) tinha 0,00% — Spearman −0,358. O mecanismo: um imóvel vago zera o numerador (não há aluguel) e continua no denominador pelo valor de avaliação. O cap rate CORRENTE mede ocupação ao contrário. A régua de preço é o cap rate ESTABILIZADO.

É por isso que o cap rate corrente e a vacância nunca devem ser lidos como duas evidências independentes: eles são, em boa medida, a mesma informação com sinais trocados.

25.Aluguel por m² e as métricas por área

Métricas por metro quadrado acompanham a produtividade econômica dos ativos e permitem comparar imóveis parecidos. O aluguel por m² é a mais usada, e a mais dependente de convenção.

Aluguel por m² = Receita de aluguel considerada ÷ Área considerada

Antes de comparar: é mensal ou anual? A área é a ABL total ou só a ocupada? Que receitas entram?

A diferença entre dividir pela área total e pela área ocupada não é sutil num fundo com vacância: são os mesmos R$ de aluguel sobre bases diferentes. Um fundo com 20% de vacância exibe aluguel por m² 25% maior se dividir só pela área ocupada — e isso frequentemente é apresentado como "aluguel médio da carteira".

Aluguel por m² alto pode significar localização premium — ou contrato acima do mercado, o que é um risco de revisão, não uma qualidade. O comparável relevante é o mercado local do mesmo tipo de imóvel, e a tendência da própria série. A régua agregada por segmento medida no curso 3 serve como primeira referência.

26.Os indicadores que só existem em papel e em desenvolvimento

Vacância, cap rate e aluguel por m² não se aplicam a um fundo sem imóvel. Cada família tem o seu conjunto próprio, medido nos cursos anteriores — e vale o registro de qual indicador substitui qual.

FamíliaIndicadores própriosO achado que o curso correspondente mediu
Papeltaxa média da carteira, indexador, prazo, concentração por devedor, inadimplência, LTVo spread só ordena o risco no extremo barato (6,1× de diferença na taxa de atraso), e o LTV vem vazio em 100% das operações no dado público
FoFP/VP do veículo × P/VP da carteira, taxa consolidada, sobreposição, giroo cotista paga 1,83× a taxa declarada, e o desconto do FoF não se correlaciona com o da carteira (−0,181)
DesenvolvimentoVGV, % vendido, velocidade de vendas, avanço físico, custo incorrido, TIRo cronograma existe e não mede nada: 96,8% das obras se declaram exatamente em dia e 47,4% trazem realizado idêntico ao previsto
Híbridocomposição por bloco econômico (o rótulo não diz a proporção)49 dos 61 rotulados híbridos têm participação societária como bloco dominante — não tijolo com papel

A consequência para rankings

Misturar as quatro famílias num único ranking de DY ou P/VP compara motores de resultado diferentes com a mesma régua. Um fundo de desenvolvimento com DY de 30% e um FII de papel com DY de 13% não estão na mesma escala de nada — o primeiro está devolvendo capital de um projeto vendido, o segundo está distribuindo juros de crédito.

27.Liquidez é restrição de tamanho, não selo de qualidade

Liquidez mede a facilidade de comprar e vender cotas sem mover o preço. Ela não diz nada sobre a qualidade dos imóveis, do crédito ou da gestão: é uma propriedade do mercado secundário, não do ativo. Um FII muito líquido pode ser um péssimo investimento; um FII pouco líquido pode ter ativos excelentes.

O que ela determina é o tamanho de posição que você pode assumir. E isso é mensurável com precisão, porque a B3 publica todo negócio de todo pregão — preço, quantidade, horário e as duas pontas.

Medido na fita de 10 pregões (agosto de 2026)Resultado
FIIs listados que negociaram ao menos uma vez319 de 516
Negociaram nos 10 pregões243
Volume mediano por pregãoR$ 117.178
Tamanho mediano de um negócioR$ 118
Número de negócios por pregão (mediana)151
Participantes distintos por pregão (mediana)10
Fundos com mais de 50% do volume de 10 pregões num único dia75

Duas coisas saltam. A primeira é que 197 dos 516 fundos listados não tiveram um único negócio em dez pregões — neles não se formou preço no período, e um P/VP ou um DY calculado sobre a última cotação disponível pode estar comparando o patrimônio de hoje com um preço de semanas atrás. A segunda é o tamanho do negócio típico: R$ 118. O mercado de FIIs é feito de ordens pequenas, o que significa que uma ordem grande atravessa muitos níveis de preço.

28.Quantos pregões para desmontar a sua posição

A pergunta que a liquidez responde não é "esse fundo é líquido?", e sim "quanto tempo eu levo para sair do tamanho que pretendo ter?". Adotando uma regra conservadora e comum — consumir no máximo 20% do volume diário do fundo, para não ser você mesmo a mover o preço —, o cálculo é direto.

Quantos pregões para desmontar a posiçãomediana dos 319 FIIs que negociaram, consumindo até 20% do volume do dia01020304050R$ 10 mil0,4 pregõessai em 1 pregão em 58,3% dos fundos · em até 5 em 74,9%R$ 50 mil2,1 pregõessai em 1 pregão em 39,8% dos fundos · em até 5 em 58,3%R$ 200 mil8,5 pregõessai em 1 pregão em 21,9% dos fundos · em até 5 em 43,0%R$ 1 milhão42,7 pregõessai em 1 pregão em 4,7% dos fundos · em até 5 em 21,9%Outros 197 dos 516 FIIs listados não tiveram um único negócio nos 10 pregões
Número mediano de pregões para desmontar uma posição, consumindo até 20% do volume diário. Medido nos 319 FIIs que negociaram.
Tamanho da posiçãoPregões (mediana)Sai em 1 pregão emSai em até 5 pregões em
R$ 10 mil0,458,3% dos fundos74,9%
R$ 50 mil2,139,8%58,3%
R$ 200 mil8,521,9%43,0%
R$ 1 milhão42,74,7%21,9%

Como isso muda a decisão

Liquidez não é um filtro binário — é uma função do SEU tamanho. Uma posição de R$ 10 mil cabe em mais da metade do mercado. Uma de R$ 200 mil cabe confortavelmente em cerca de um quinto dele. É por isso que a mesma lista de fundos é adequada para um investidor e inadequada para outro, sem que nada tenha mudado nos fundos.

29.O spread que ninguém publica — e quanto ele custa

Entre a melhor oferta de compra e a melhor de venda existe uma distância: o spread. Ele é um custo real de ida e volta, e não aparece em corretagem nenhuma. O livro de ofertas não é público historicamente, mas o spread pode ser estimado a partir dos negócios: quando o preço fica alternando entre a ponta de compra e a de venda, os retornos consecutivos ficam negativamente correlacionados, e o tamanho dessa correlação revela o spread. É o estimador clássico de Roll, aplicado negócio a negócio sobre o pregão contínuo.

Spread implícito medido na fita (217 FIIs com estimativa)Resultado
Mediana10 bps (0,10%)
p25 · p755 bps · 20 bps
p9047 bps
Os mais negociados (TRXF11, HGLG11, XPML11, BTLG11)1 a 2 bps
Custo de um giro completo, em meses de rendimento (mediana)0,08 mês

Para os fundos grandes, o custo é irrelevante: 2 bps equivalem a menos de um dia de rendimento. Na cauda, ele começa a pesar — 47 bps são cerca de meio mês de distribuição, pagos toda vez que se entra e se sai.

O indicador que falta é o dos fundos que mais precisariam dele

O spread só é estimável onde houve negócio suficiente: dos 319 que negociaram, 217 têm estimativa. Os 197 que não negociaram nada não têm spread, não têm preço e não têm liquidez mensurável. O silêncio na fita é a informação — e é o oposto de "spread zero".

30.Concentração: o risco que a média esconde

Diversificação não é contar quantos ativos existem. Um fundo pode ter dezenas de posições e depender de pouquíssimos riscos econômicos — e a trilha inteira já mediu isso, dimensão por dimensão.

DimensãoO que medirMedido nesta trilha
Imóvelparticipação do maior imóvel na receita21,8% dos fundos têm ≥ 90% num só imóvel; 36,5% têm ≥ 50% (curso 3)
Locatárioparticipação do maior inquilino12,0% dependem de um inquilino para ≥ 90% da receita (curso 3)
Devedor / operaçãoconcentração da carteira de CRIem 91,4% das operações com devedor declarado há um único devedor (curso 4)
Originadorquem estruturou o crédito🔴 uma securitizadora concentrava 92,7% da carteira de um fundo que quebrou (curso 4)
Gestor / fundo investidoconcentração de um FoF23,4% dos FoFs carregam UM único FII; nº efetivo mediano de 6,1 (curso 5)
IndexadorIPCA × CDI × prefixadoIPCA 58,8% e CDI 33,0% do valor das carteiras de CRI (curso 4)

A ferramenta que resume qualquer uma dessas dimensões num número é o número efetivo de posições (o inverso do índice de Herfindahl). Ele responde: se todas as posições tivessem o mesmo tamanho, quantas seriam equivalentes a essa carteira? Um fundo com 40 posições declaradas e nº efetivo de 19,4 tem metade da diversificação que anuncia — foi a mediana medida nos FoFs.

A leitura econômica continua indispensável

Vinte imóveis em vinte cidades diferentes, todos alugados para varejistas do mesmo segmento, são uma posição concentrada em varejo com aparência de diversificação geográfica. Nenhum índice de concentração calculado sobre a lista de ativos enxerga isso.

31.Alavancagem: quantos têm e quanto

"Alavancagem" em FII raramente é dívida bancária clássica. Costuma ser obrigação por aquisição de imóvel a prazo ou securitização de recebíveis — o fundo comprou um ativo e emitiu um CRI lastreado no aluguel dele. O informe mensal da CVM traz as duas linhas separadas no passivo, o que permite medir o mercado inteiro.

Alavancagem ≈ (Obrigações por aquisição + Obrigações por securitização) ÷ Patrimônio Líquido

Não existe razão universal: cada relatório usa a sua. Esta é a que o dado público permite reproduzir de forma comparável.

Alavancagem nos 390 FIIs listados (competência 07/2026)Resultado
Fundos com alguma obrigação declarada70 (18%)
Mediana entre os que têm15,3% do patrimônio
p75 · p9028,8% · 61,9%
Acima de 30% do patrimônio17 fundos
Acima de 50%10 fundos

O percentual isolado, porém, é o menos informativo. O que decide o risco é o custo da obrigação, o indexador, o cronograma de vencimento e a capacidade de geração de caixa que a serve. Uma obrigação de 15% do patrimônio a IPCA + 6% com vencimento em oito anos e uma de 15% a CDI + 4% vencendo no ano que vem são situações inteiramente diferentes.

Risco de refinanciamento

Uma obrigação pequena hoje se torna grande se vencer num momento de crédito caro ou se o fundo depender de nova emissão para pagá-la — e emitir cotas com a cota descontada destrói valor para quem já é cotista. É a combinação alavancagem + vencimento próximo + P/VP baixo que merece atenção, não cada um deles isolado.

32.Custo: a taxa que aparece e a taxa que você paga

A taxa de administração é o único indicador desta lista que é certo: ela sai do seu bolso todo mês, independentemente de o fundo ir bem ou mal. E é também o único cuja base de cálculo a norma permite escolher.

A Resolução CVM 175, no Anexo Normativo III, art. 33, §1º, determina que a taxa de administração de uma classe destinada ao público em geral e negociada em mercado organizado corresponda a:

  1. um percentual sobre o valor de mercado da classe — calculado pela média diária da cotação de fechamento no mês anterior — caso as cotas tenham integrado índice de mercado nesse período; ou
  2. um percentual sobre o valor contábil do patrimônio líquido, sobre o rendimento distribuído, sobre a receita total da classe, ou o percentual do inciso I, nos demais casos.

"Taxa de 1% ao ano" não diz sobre o quê

São quatro bases legais possíveis, e o mesmo 1% significa dinheiro diferente em cada uma. Num fundo cuja cota negocia a 0,80 do patrimônio, 1% sobre o valor de mercado e 1% sobre o patrimônio líquido diferem em 25%. O §3º ainda permite um piso em reais, e o §4º permite que a assembleia opte pela base contábil mesmo quando o fundo integra o índice.

Diante disso, o único número comparável é a taxa efetivamente paga: o valor em reais que saiu do fundo, dividido pelo patrimônio. O informe trimestral traz esse valor em reais — e é assim que a tabela abaixo foi construída, sobre os quatro trimestres encerrados em junho de 2026.

Taxa efetiva anual (R$ pagos ÷ PL médio) — 384 FIIs listadosResultado
Mediana de administração0,85% ao ano
p25 · p75 · p900,54% · 1,14% · 1,70%
Acima de 1,5% ao ano50 fundos (13%)
Fundos que cobraram taxa de desempenho no período59 (15%) — mediana de 0,40% do PL entre eles
Por segmentotijolo 0,63% · FoF 0,82% · papel 0,96% · híbrido 1,12%
Ganho de escalaPL acima de R$ 1 bi: 0,77% · abaixo de R$ 200 mi: 1,02%
Custo total em % do rendimento distribuído6,7% na mediana; 9,5% no p75; 14,1% no p90

Duas leituras. A primeira: o custo consome, na mediana, 6,7% de tudo o que é distribuído — em um fundo no p90, um sétimo. A segunda: o ganho de escala existe, mas é pequeno (0,25 ponto percentual entre os maiores e os menores), o que significa que o tamanho do fundo não é substituto para conferir a taxa.

Gotcha da fonte: o percentual declarado não é confiável

O informe MENSAL tem um campo de percentual de despesa com taxa de administração — e ele vem em unidades diferentes por fundo. Confrontado com o valor em reais do informe trimestral: BLUE11 declara 41,4% ao ano contra 0,17% reais (237×), PATL11 erra por 113×, SAIC11 por 25×; e há erros no sentido oposto. A mediana das razões em 1.159 pares é 1,002 — a base É o patrimônio líquido —, mas a cauda inviabiliza usar o campo direto. Por isso todos os números acima vêm do valor em REAIS.

E há uma camada a mais, medida no curso anterior: num FoF, a taxa própria é só a primeira. Somando a dos fundos investidos, o cotista paga 1,83 vez a taxa declarada — mediana de 1,73% ao ano contra 0,86% anunciada.

33.Um indicador confirma o outro?

Há uma sensação confortável quando dois indicadores apontam na mesma direção: DY alto e P/VP baixo parece confirmação dupla. Vale medir se é isso mesmo — se os indicadores usados no mercado de FIIs se confirmam, se contradizem ou simplesmente medem coisas diferentes.

Um indicador confirma o outro?correlação de Spearman entre os indicadores — 269 FIIs listadosDYP/VPTaxaAlav.LiquidezVacânciaDY−0,18+0,07−0,10+0,20−0,21P/VP−0,18+0,14+0,05−0,02−0,07Taxa+0,07+0,14−0,07+0,14+0,15Alav.−0,10+0,05−0,07+0,30−0,02Liquidez+0,20−0,02+0,14+0,30−0,03Vacância−0,21−0,07+0,15−0,02−0,03Nenhum par passa de |0,30| — e o top-30 por DY tem só 8 nomes em comum com o top-30 por menor P/VP
Correlação de posto entre os seis indicadores do curso, em 269 FIIs listados. Fora da diagonal, nenhum par passa de |0,30|.

O resultado é que eles são quase ortogonais. O par mais forte entre indicadores de natureza diferente é alavancagem × liquidez (+0,30), e mesmo assim por um motivo estrutural: fundos maiores têm mais das duas coisas. DY e P/VP correlacionam −0,18; taxa e alavancagem, −0,07; vacância e P/VP, −0,07.

Par de indicadoresSpearmanLeitura
DY × P/VP−0,18yield alto vem com desconto, mas fracamente — 83% da dispersão do yield é renda, não preço
DY × vacância−0,21no sentido esperado, e fraco: vacância alta já derrubou a distribuição em poucos casos
Taxa × P/VP+0,14o mercado não desconta sistematicamente o fundo caro de manter
Liquidez × nº de cotistas+0,85a correlação mais forte que medimos (fora da figura, que traz só os seis indicadores) — e é a mesma dimensão medida duas vezes
Liquidez × spread implícito−0,65idem: mais volume, menos spread

Os dois indicadores mais usados selecionam listas quase disjuntas

O top-30 por DY e o top-30 por menor P/VP têm apenas 8 fundos em comum. Se você triar por yield ou por desconto, encontrará dois conjuntos diferentes de fundos — e nenhum dos dois é "o conjunto dos baratos".

Isso é uma boa notícia, e é a razão de ser de um painel: se os indicadores fossem redundantes, bastaria um. Como são independentes, cada um acrescenta informação — e as contradições entre eles são o sinal mais rico que a triagem produz. Um fundo com vacância alta e payout intacto está com um problema que a distribuição ainda não mostrou. Um fundo com desconto profundo e liquidez mínima tem um desconto que você talvez não consiga realizar.

34.Qual indicador serve para qual família

Nem todo indicador se aplica a todo fundo, e a maior melhoria que um investidor pode fazer na própria triagem é parar de montar rankings universais.

IndicadorTijoloPapelFoFDesenvolvimento
P/VPútil, com o degrau anual do laudo em menteútil: a carteira é marcada todo mêsmuito relevante — mas há duas camadas de descontolimitado: o patrimônio é projeto, não renda
DYútilútilútilenganoso: distribuição irregular e devolução de capital
Vacânciaessencialnão se aplicaindireta, via fundos investidosdepende da fase do ativo
Cap ratemuito útil, se estabilizadonão se aplicaindiretoprojetado, não realizado
Taxa efetivasempresempresempre — e em duas camadassempre
Liquidezsempresempresempresempre
Indexador e prazoreajuste dos contratosessencialindiretofinanciamento da obra
VGV e % vendidonão se usanão se usaindiretoessencial

As duas linhas em que a coluna inteira está em negrito são as únicas universais: custo e liquidez se aplicam a qualquer FII, porque não dependem do que há dentro dele. São também as duas que o investidor mais frequentemente ignora, por não serem "análise".

35.O painel de oito indicadores

Um painel bom não tem dezenas de métricas. Tem os poucos números que respondem às perguntas relevantes para aquele tipo de fundo — e que, juntos, permitem ver contradição.

BlocoIndicadorA pergunta que ele responde
Preço e patrimôniopreço, VP/cota, P/VPquanto o mercado paga pelo patrimônio declarado — e há quanto tempo esse patrimônio foi medido
RendaDY 12m, DY recorrente, renda por cotaquanta renda entrou, e quanto dela se repete
Sustentaçãopayout do semestrea distribuição cabe no resultado gerado
Custotaxa efetiva de administração e de desempenhoquanto do rendimento fica pelo caminho
Estruturaalavancagem e cronograma das obrigaçõesexiste compromisso que precise de refinanciamento
Operaçãovacância (tijolo), inadimplência, indexadoro motor de caixa está funcionando
Execuçãovolume diário, spread implícitoo tamanho que pretendo ter cabe neste fundo
Concentraçãomaior imóvel, maior inquilino, maior devedorde quantos riscos econômicos distintos essa renda depende
🧭

O painel de oito indicadores

Interativo

Os oito blocos deste curso aplicados a doze FIIs reais, com os números medidos nas fontes primárias. Nenhum bloco responde sozinho — o painel existe para que as contradições entre eles apareçam.

GGRC11Zagros Renda ImobiliáriaTijoloPL R$ 2,38 bi · 395.823 cotistas

Preço e patrimônio

0,822

R$ 9,12 de cota contra R$ 11,10 de valor patrimonial

Renda (12 meses)

13,16%

R$ 1,20 por cota — recorrente: 13,16%

Payout do semestre

183%

rendimentos declarados ÷ resultado do semestre

Custo

0,76%

taxa de administração efetiva ao ano

Alavancagem

14,9%

obrigações por aquisição e securitização ÷ PL

Vacância física

0,00%

área vaga ÷ ABL, no informe trimestral

Liquidez

R$ 21,6 mi

por pregão — uma posição de até R$ 4,3 mi sai em um dia

Custo de giro

7 bps

spread implícito ≈ 0,06 mês de rendimento

A leitura

🔴 Payout de 183%: no semestre, o fundo declarou quase o dobro do resultado que gerou. Não é irregularidade — pode ser reserva acumulada ou ganho de capital — mas é a diferença entre um yield de 13,16% sustentado pela operação e um sustentado por algo que acaba.

Destaque em vermelho não significa "fundo ruim": significa número que exige uma pergunta — P/VP abaixo de 0,70, yield de 12 meses distante do recorrente, payout acima de 110%, taxa acima de 1,5% ao ano, alavancagem acima de 30% do patrimônio, vacância acima de 10%, volume abaixo de R$ 1 milhão por pregão ou spread acima de 20 bps.

Menos pode ser mais

Oito indicadores bem compreendidos são mais úteis que quarenta números que o investidor não consegue ligar a uma tese. O critério para incluir um indicador no painel não é ele existir: é você saber dizer o que faria se ele mudasse.

36.Os dez erros mais comuns — agora com número

ErroO que o dado mostra
1. Comprar porque o P/VP está abaixo de 180,0% do mercado está abaixo de 1; o quintil mais descontado entregou +5,90% contra +8,63% do mais caro
2. Escolher o maior DY de uma listao quintil de maior yield teve o pior retorno total e 68,4% de corte na distribuição
3. Anualizar o rendimento de um mês9% dos fundos têm um mês ≥ 3× o típico; a conta troca 14 dos 20 primeiros do ranking
4. Somar amortização ao yieldinfla 17,24 p.p. na mediana; GLOG11 sairia de 6,41% para 110,54%
5. Comparar vacância sem verificar a basea mesma carteira dá 73,97%, 33,33% ou 0,00% conforme a ponderação
6. Comparar cap rates de bases diferentescap corrente alto vem com vacância BAIXA por aritmética (−0,358), não por qualidade
7. Ignorar concentração porque há muitos ativosFoFs com 40 posições declaradas têm 19,4 efetivas; 23,4% carregam um único FII
8. Tratar liquidez como qualidade197 dos 516 listados não negociaram nada em 10 pregões — e alguns têm bons ativos
9. Olhar alavancagem sem cronograma18% dos listados têm obrigações; 10 deles acima de 50% do patrimônio
10. Ignorar o custo6,7% do rendimento distribuído, na mediana; 14,1% no p90; 1,83× num FoF

37.Checklist de análise por indicadores

  • P/VP: sei por que existe o prêmio ou o desconto — e sei de quando é o laudo que está no denominador?
  • DY: separei rendimento de amortização, e comparei a conta de 12 meses com a do mês típico?
  • Payout: a distribuição cabe no resultado do semestre, ou vem de reserva e ganho de capital?
  • Vacância: confirmei a base da conta e olhei a série, não a fotografia?
  • Cap rate: o numerador é corrente ou estabilizado, e o denominador é aquisição ou avaliação?
  • Liquidez: o tamanho que pretendo ter cabe no volume deste fundo?
  • Custo: sei a taxa efetiva paga em reais, e se há taxa de desempenho?
  • Concentração: sei de quantos riscos econômicos distintos essa renda depende?
  • Família: estou usando os indicadores adequados a este tipo de fundo?
  • Fonte: o número que decide a minha tese veio do documento do fundo ou de uma tela agregadora?

Onde voltar quando o número decide

Plataformas de dados — esta incluída — são excelentes para triagem e comparação. Quando um indicador específico passa a decidir a tese, a fonte primária é o relatório gerencial, o informe entregue à CVM, as demonstrações financeiras, os fatos relevantes e o regulamento. É lá que está a definição que a tela comprimiu.

38.Resumo do curso

  • Indicador é compressão. Antes de comparar: o que mede, qual período, qual denominador, se é comparável.
  • O denominador do P/VP é declaratório, chega com 15 dias de atraso e 9,9% dele é retificado. No tijolo, ele se move em degraus: o maior salto do ano concentra 59,2% da variação.
  • O P/VP não ordenou retorno em 755 fundo-anos (Spearman +0,04, t = 1,01). O desconto pode ser inteiramente racional.
  • Cinco contas de DY produzem cinco rankings. Trocar 12 meses pelo último mês anualizado muda 14 dos 20 primeiros colocados.
  • Amortização não é rendimento — somá-la infla o yield em 17,24 p.p. na mediana.
  • O DY alto é renda, não desconto: 83,3% da dispersão vem da renda sobre o patrimônio. O desconto só aparece no quartil mais alto — e é ali que a renda cai depois.
  • 🔴 O DY não prevê retorno; prevê o corte. No quintil mais alto, a renda caiu 19,1% e 68,4% dos fundos cortaram mais de 10%. Correlação de −0,45 com t = −13,96, com o mesmo sinal em quatro janelas.
  • Vacância financeira não é reproduzível no dado público — ponderar por receita realizada dá zero justamente onde o imóvel está 100% vago.
  • Liquidez é restrição de tamanho: uma posição de R$ 200 mil sai em um pregão em apenas 21,9% dos fundos.
  • Custo é o único indicador certo: 0,85% ao ano na mediana, 6,7% de tudo o que é distribuído.
  • Os indicadores não se confirmam entre si — e é por isso que o painel precisa de todos eles.

39.Teste o que você aprendeu

🧪

Teste de compreensão

Interativo

Dez perguntas sobre os indicadores dos FIIs — sete delas cobram as medições feitas neste curso sobre os informes da CVM, a fita da B3 e as séries de preço e provento do mercado.

Pergunta 1 de 100 acertos

O valor patrimonial por cota que entra no denominador do P/VP vem de onde?

Fontes de referência

  • CVM — Informe Mensal de FII (dados abertos): VP por cota, patrimônio, cotas emitidas, cotistas, taxa de administração, obrigações e data de entrega. 43 competências, janeiro de 2023 a julho de 2026.
  • CVM — Informe Trimestral de FII (dados abertos): vacância e participação na receita por imóvel, taxa de administração e de desempenho em reais, rendimentos declarados e resultado do semestre. Referência 30/06/2026.
  • CVM — Resolução 175, Anexo Normativo III, art. 33 (redação da Resolução CVM 187/2023): bases legais da taxa de administração de classe listada.
  • Lei 8.668/1993, art. 10, parágrafo único: distribuição de ao menos 95% do lucro apurado pelo regime de caixa, semestralmente.
  • B3 — arquivo de negócios do pregão: volume, número de negócios, ticket, participantes e spread implícito. 10 pregões, 3 a 14 de agosto de 2026.
  • Séries de preço diário (5 anos) e histórico de proventos com data-com, taxa e rótulo dos 468 FIIs listados com cotação.

Próximo curso — Rendimentos dos FIIs: origem e sustentabilidade

Este curso mediu que o yield alto antecipa o corte. O próximo abre a caixa: de onde vem cada real distribuído, o que é resultado de caixa, o que é reserva, o que é ganho de capital e o que é devolução de capital — e por quanto tempo uma distribuição acima do resultado consegue durar.

Conteúdo exclusivamente educacional — não constitui recomendação de investimento.