1.Não existe "a taxa de juros" — existe uma curva
Os dois cursos anteriores mediram quanto um título reage a uma mudança de taxa: Fundamentos dos ETFs de Renda Fixa mostrou que renda fixa tem preço variável, e Duration e Convexidade transformou essa oscilação em número. Os dois trabalharam com uma simplificação que agora precisa cair: a de que existe uma taxa que sobe ou desce.
A Selic é a taxa básica e serve de referência para o curtíssimo prazo. Mas um título que vence em seis meses não precisa — e normalmente não vai — oferecer a mesma taxa de um que vence em dez anos. Cada prazo tem a sua própria taxa, negociada separadamente, e o conjunto delas forma a curva de juros, também chamada de estrutura a termo das taxas de juros.
| Elemento | O que é | Onde aparece no gráfico |
|---|---|---|
| Prazo | O horizonte de cada fluxo de caixa. | Eixo horizontal |
| Taxa | O que o mercado exige para aquele horizonte. | Eixo vertical |
| Curva | A relação entre os dois, ponto a ponto. | A linha que os conecta |
Por que os pontos são diferentes entre si
- Expectativa para a trajetória dos juros de curto prazo ao longo do tempo.
- Prêmio de prazo: a remuneração adicional exigida por carregar risco de taxa por mais tempo.
- Incerteza sobre inflação, política monetária e atividade econômica.
- Oferta, demanda e liquidez dos instrumentos usados para estimar a curva — a curva é feita de preços negociados, não de opinião.
A simplificação que mais engana
Uma taxa longa NÃO é uma previsão pura da Selic futura. Ela é a soma de uma expectativa com prêmios de risco e de prazo que ninguém consegue separar olhando só o número. Ler "a curva projeta Selic de 14,7% em 2033" é uma frase que soa técnica e está errada.
Regra editorial deste curso
Todo dado de mercado aqui foi extraído da fonte oficial com data, e a curva do dia foi reproduzida a partir dos parâmetros que a própria ANBIMA publica. Os cálculos derivados estão identificados como nossos. Onde o resultado é estimativa, o texto diz que é.
2.Vértices: cada ponto da curva é um prazo
No jargão do mercado, vértice é um prazo específico da curva. A ANBIMA publica a estrutura a termo em base de 252 dias úteis, com vértices a cada 126 dias úteis — 126, 252, 378, 504 e assim por diante. Falar em "vértice de 1.260 dias úteis" é falar do ponto de cinco anos.
| Região da curva | O que manda nela | Reage principalmente a |
|---|---|---|
| Ponta curta | Política monetária corrente. | Decisões do Copom e expectativa para as próximas reuniões. |
| Miolo | Trajetória esperada dos juros somada ao prêmio de prazo. | Mudança de cenário para os próximos anos. |
| Ponta longa | Prêmio de risco de horizonte longo. | Inflação esperada, risco fiscal e condições financeiras. |
Vencimento do título × vértice da curva
Um título tem fluxos em datas específicas. Para precificá-lo, o mercado precisa de uma taxa de desconto coerente com o prazo de cada fluxo — e é a curva que fornece essa estrutura. Uma NTN-B que vence em 2035 e paga cupom semestral não é descontada por uma taxa só: cada cupom vai ao seu próprio vértice.
A ligação com o curso anterior
Duration responde "quanto risco de taxa esta carteira tem?". A curva acrescenta a pergunta que faltava: "em QUAL PRAZO está esse risco?". Duas carteiras com a mesma duration podem ter os fluxos concentrados em vértices completamente diferentes — e a última seção deste curso mede exatamente isso, em ETFs reais.
3.Spot, forward e par: três lentes para a mesma estrutura
A mesma curva pode ser expressa de três formas. Elas não são curvas concorrentes: são leituras diferentes da mesma informação de desconto.
| Lente | O que representa | Cuidado na leitura |
|---|---|---|
| Taxa spot (zero-cupom) | A taxa de desconto de um pagamento único naquele prazo. É a forma como a ANBIMA publica a ETTJ. | É a lente natural para precificar fluxo a fluxo. |
| Taxa forward | A taxa implícita hoje para um intervalo FUTURO, extraída das taxas spot. | Não é previsão: embute prêmio de risco junto com expectativa. |
| Par yield | A taxa de cupom que faria um título hipotético valer exatamente o valor de face naquele vencimento. | Resume a mesma estrutura em um número comparável a cupons de mercado. |
O que realmente importa para marcar a mercado
O elemento fundamental é a função de desconto: o preço sai de trazer cada fluxo futuro a valor presente pela taxa correspondente ao seu prazo. Spot, forward e par são maneiras de descrever essa mesma função — escolher a lente errada não muda o preço, mas atrapalha a comparação.
4.Como a curva é estimada — e o que isso custa em precisão
A curva não é observada pronta no mercado: ela é estimada. O problema é que os títulos soberanos têm cupons e vencimentos irregulares, e quase nunca existe um zero-cupom negociado exatamente no prazo que você quer. A saída é ajustar uma curva suave que seja o mais consistente possível com os preços observados.
Preço = Σ (fluxo futuro ÷ fator de desconto do prazo daquele fluxo)
A premissa da metodologia: o preço de um título é a soma dos fluxos prometidos, trazidos a valor presente pela função de desconto.
A ANBIMA usa uma forma funcional baseada no modelo de Svensson, que descreve a curva inteira com seis parâmetros — quatro betas, ligados a nível, inclinação e duas curvaturas, e dois lambdas, que controlam a velocidade com que cada efeito decai ao longo do prazo. O objetivo não é adivinhar a taxa: é resumir a estrutura observada de forma suave e comparável.
Os parâmetros do dia — e a armadilha de convenção
A ANBIMA publica os parâmetros junto com a curva. Em 12/08/2026, a curva prefixada era descrita por: β₁ = 0,137139 · β₂ = 0,000818 · β₃ = −0,013966 · β₄ = 0,037037 · λ₁ = 2,576195 · λ₂ = 0,250154.
🔴 O Lambda é decaimento, não prazo — e errar isso dá curva plausível e errada
A metodologia não deixa explícito se o "Lambda" publicado é o τ da fórmula ou a taxa de decaimento λ = 1/τ. Testamos as duas: usando τ = 1/λ, a curva reconstruída bate com os vértices publicados com erro máximo de 0,000087 ponto percentual. Tratando o Lambda como o próprio τ, o erro médio vai a cerca de 1,0 ponto percentual, chegando a 1,26 no pior vértice — e o resultado ainda PARECE uma curva de juros brasileira normal. É por isso que convenção se verifica, nunca se supõe.
A curva é uma representação, não o ativo
O mesmo arquivo traz uma seção que quase ninguém abre: o erro título a título do ajuste, ou seja, quanto a curva estimada erra o preço de cada papel real usado na estimativa. Em 12/08/2026 o modelo foi ajustado sobre 33 títulos (12 LTNs, 6 NTN-Fs e 15 NTN-Bs), com o seguinte desempenho:
| Medida do erro de ajuste | Valor em 12/08/2026 |
|---|---|
| Erro absoluto médio | 0,0411 ponto percentual de taxa |
| Erro absoluto mediano | 0,0287 ponto percentual |
| Maior erro do dia | 0,2266 p.p. — a NTN-B com vencimento em 15/08/2028 |
Leia esse número como uma virtude, não como um defeito
Um erro mediano de 0,03 ponto percentual mostra que a curva descreve muito bem o mercado. Mas o erro existe, é publicado e é maior em alguns papéis — o que significa que a taxa que você lê no vértice é a da CURVA, não necessariamente a do título específico que você quer comprar. Para decidir preço de uma operação, o que vale é o papel; a curva serve para comparar prazos.
5.Os formatos da curva e o que cada um sugere
| Formato | Como se apresenta | Leitura possível |
|---|---|---|
| Ascendente | Taxas longas acima das curtas. | Expectativa de juros futuros maiores, prêmio de prazo positivo, ou os dois somados. |
| Plana | Taxas próximas entre os prazos. | Fase de transição, em que forças da ponta curta e da longa se compensam. |
| Invertida | Taxas curtas acima das longas. | Costuma aparecer com juros correntes altos e expectativa de queda futura — mas depende do contexto e do prêmio de prazo. |
| Com corcova | O miolo acima (ou abaixo) das duas pontas. | Lembrete de que a curva não se move como uma régua, e nem sempre é monotônica. |
Formato não é regra de investimento
A curva é um preço de mercado agregado em um instante. Ela carrega informação, mas não garante o caminho futuro das taxas nem dos retornos. Transformar formato em sinal operacional ("inverteu, então vou fazer X") ignora que o próprio formato já é a soma das expectativas de todos os participantes.
6.A curva brasileira em 12/08/2026, vértice a vértice
Sai a teoria, entra o retrato. Na data de referência, a Selic estava em 14,00% ao ano, definida pelo Copom na sua 280ª reunião, de 05/08/2026, com vigência a partir do dia seguinte. E a curva prefixada da ANBIMA começava abaixo da Selic e subia com o prazo.
| Vértice | ETTJ prefixada | ETTJ IPCA (juro real) | Inflação implícita |
|---|---|---|---|
| 126 d.u. (~6 meses) | 13,5730% | 7,8528% | 5,3037% |
| 252 d.u. (~1 ano) | 13,7413% | 7,7683% | 5,5424% |
| 504 d.u. (~2 anos) | 14,1367% | 8,0415% | 5,6415% |
| 1.008 d.u. (~4 anos) | 14,5652% | 8,2107% | 5,8723% |
| 1.260 d.u. (~5 anos) | 14,6649% | 8,1879% | 5,9868% |
| 1.890 d.u. (~7,5 anos) | 14,7502% | 8,0328% | 6,2179% |
| 2.520 d.u. (~10 anos) | 14,7185% | 7,8616% | 6,3571% |
Três leituras que só aparecem quando se olha a tabela inteira, e não um número solto:
- A ponta curta estava ABAIXO da Selic. Com a taxa básica em 14,00% e o vértice de seis meses em 13,57%, o mercado precificava a continuidade do ciclo de queda — sem que isso seja promessa de nada.
- Nenhuma das duas curvas era monotônica. A prefixada sobe até o vértice de 7,5 anos (14,7502%) e depois recua de leve; a real sobe até o de 4 anos (8,2107%) e cai a partir dali. As duas têm corcova, cada uma no seu lugar.
- A inflação implícita subia com o prazo, de 5,30% em seis meses a 6,36% em dez anos — uma alta de 1,05 ponto percentual entre as duas pontas.
Como a inflação implícita é obtida
Inflação implícita = (1 + taxa nominal) ÷ (1 + taxa real) − 1
Conferindo no vértice de 126 d.u.: (1 + 13,5730%) ÷ (1 + 7,8528%) − 1 = 5,3037% — exatamente o valor publicado pela ANBIMA. A relação é exata, e não uma subtração aproximada.
O que a inflação implícita NÃO é
Não é projeção garantida do IPCA. Ela sai de preços de mercado e por isso carrega junto diferenças de liquidez e prêmios de risco entre títulos nominais e reais. É ótima para comparar o custo relativo de se proteger da inflação em cada prazo; é péssima como bola de cristal.
Duas notas de alcance dos dados
A ETTJ prefixada publicada vai até 10 anos (2.520 d.u.); a de juros reais chega a 33,5 anos (8.442 d.u.), porque há NTN-B com vencimento em 2060 sustentando a ponta longa. É por isso que a curva real permite discutir prazos que a nominal simplesmente não alcança.
7.Marcação a mercado: da taxa ao preço, todo dia
Marcar a mercado é atualizar o valor de um ativo pelas condições de negociação vigentes. Em renda fixa, isso significa recalcular o valor presente dos fluxos com as taxas de mercado do dia — as taxas da curva que acabamos de ler.
Taxa de mercado sobe → preço cai · Taxa de mercado cai → preço sobe
A intensidade depende de prazo, duration, convexidade e estrutura dos fluxos. A direção não depende de nada: é aritmética de valor presente.
A relação é inversa e curva — e a curvatura é a convexidade do curso anterior, vista agora pela origem: como o fluxo é dividido por (1 + taxa) elevado ao prazo, dobrar o choque de taxa não dobra o efeito no preço.
É aqui que os dois cursos se encontram
A duration mede a sensibilidade; a curva diz qual taxa se moveu. Sem a curva, a duration é uma régua sem escala — ela informa quanto o preço reage por ponto percentual, mas não em qual prazo esse ponto percentual aconteceu.
8.Preço na curva × preço de mercado: o exemplo oficial, decomposto
O documento oficial do Tesouro Direto continua o mesmo exemplo usado no curso anterior — e é aqui que ele fica realmente interessante. O investidor comprou o Tesouro Prefixado 2015 por R$ 733,86, à taxa de 10,88% ao ano, e resolveu vender antes do vencimento.
| Dado do exemplo oficial | Valor |
|---|---|
| Preço de compra (04/01/2012) | R$ 733,86 · taxa de 10,88% a.a. |
| Data da venda | 07/05/2013 (liquidação em 08/05/2013) |
| Dias úteis de posse | 420 |
| Preço na venda | R$ 874,61 |
| Rentabilidade do período | 19,1794% |
| Taxa anual equivalente | 11,10% a.a. |
O investidor contratou 10,88% e realizou 11,10%. A diferença veio da marcação a mercado — e o documento para por aí. Dá para ir bem além, porque todos os elementos para reconstruir a operação estão na mesa.
Quanto a curva se moveu (nossa derivação)
Na data da venda faltavam 335 dias úteis para o vencimento (755 − 420). Invertendo a fórmula de preço com o valor efetivamente recebido, chega-se à taxa que o mercado praticava naquele papel naquele dia:
| Elemento reconstruído | Resultado |
|---|---|
| Taxa embutida no preço de venda | 10,6036% a.a. |
| Taxa contratada na compra | 10,8800% a.a. |
| Movimento da curva naquele vértice | fechou 28 pontos-base |
| Preço na curva em 08/05/2013 (carregando a 10,88%) | R$ 871,70 |
| Preço de mercado na mesma data | R$ 874,61 |
| Diferença | +R$ 2,91 (+0,33%) |
Ou seja: dos R$ 140,75 de ganho total, R$ 137,84 (97,9%) vieram do carrego — o simples decorrer do tempo à taxa contratada — e apenas R$ 2,91 (2,1%) vieram da reprecificação pela queda de 28 bps na taxa de mercado. O retorno "acima do contratado" que parece um golpe de sorte é, na verdade, uma fatia pequena de um resultado que já estava quase todo definido na compra.
🔴 E a duration do curso anterior acerta o número
No dia da venda o papel tinha 1,3294 ano de prazo restante e duration modificada de 1,2019. A estimativa de primeira ordem para um fechamento de 28 bps é 1,2019 × 0,28% = +0,332% de preço. A diferença medida entre preço de mercado e preço na curva foi +0,334%. A régua do curso anterior prevê o resultado deste com duas casas de precisão — e a diferença que sobra é a convexidade.
A convergência no vencimento
Num prefixado sem cupom, preço de mercado e preço na curva convergem para o valor de face no vencimento: quando não resta prazo, não resta o que reprecificar. É por isso que quem carrega até o fim recebe exatamente a taxa contratada, independentemente do que a curva fez no caminho.
E é exatamente isso que um ETF não tem
Um ETF de renda fixa não tem uma data em que o investidor "recebe o valor de face" da cota. A carteira é renovada conforme o índice, então nunca chega o momento em que a marcação para de importar. No título individual a marcação é um episódio entre a compra e o vencimento; no ETF ela é o regime permanente.
9.Movimentos não paralelos: quando um número só não basta
A fórmula de duration supõe, implicitamente, que a curva inteira se desloca junto — o chamado movimento paralelo. É uma boa aproximação em muitos dias, e uma péssima em alguns. Na prática, a curva tem três movimentos clássicos, e só o primeiro é bem descrito por um número único.
| Movimento | O que acontece | Por que a duration sozinha falha |
|---|---|---|
| Deslocamento paralelo | Curtas e longas mudam aproximadamente igual. | Não falha — é o cenário em que a duration funciona como resumo. |
| Steepening (inclinação) | A distância entre longas e curtas AUMENTA. | Duas carteiras de mesma duration podem ter resultados bem diferentes. |
| Flattening (achatamento) | A distância entre longas e curtas DIMINUI. | Quem está concentrado no longo se beneficia mais; quem está no curto, menos. |
| Curvatura | O miolo se move diferente das pontas. | É preciso localizar a exposição vértice a vértice. |
O nome disso é key rate duration
Em vez de uma duration para a curva inteira, mede-se a sensibilidade do preço a um choque em CADA vértice, mantendo os demais parados. Nenhum investidor pessoa física precisa calcular isso para operar — mas entender o conceito evita o erro de imaginar que a curva sempre sobe ou desce inteira pelo mesmo número de pontos-base. A próxima seção faz essa conta, em ETFs reais.
10.A prova: mesma duration, riscos diferentes
Até aqui, "duas carteiras com a mesma duration podem reagir diferente" foi uma afirmação. Vamos medi-la — com carteiras reais, que qualquer investidor pode comprar na B3, e com as durations oficiais de cada título.
De um lado, o IMAB11, que replica o IMA-B: a carteira informada à CVM em 30/06/2026 tem duration de 5,872 anos. Do outro, uma combinação de dois ETFs que produz exatamente a mesma duration: 63,1% de IB5M11 (IMA-B 5+, duration de 9,310 anos) e 36,9% de LFTS11 (IMA-S, duration praticamente zero). Pela régua da duration, as duas exposições são idênticas.
| Faixa da curva | IMAB11 (contribuição em anos) | 63,1% IB5M11 + 36,9% LFTS11 |
|---|---|---|
| Até 1 ano | 0,05 | 0,00 |
| 1 a 3 anos | 0,29 | 0,00 |
| 3 a 5 anos | 0,65 | 0,29 |
| 5 a 10 anos | 1,55 | 1,77 |
| Acima de 10 anos | 3,33 | 3,81 |
| Duration total | 5,87 anos | 5,87 anos |
Agora os dois cenários
Aplicando a mesma aritmética de duration papel a papel, mas com o choque de taxa incidindo no vértice de cada um:
| Cenário de movimento da curva | IMAB11 | Combinação de mesma duration | Diferença |
|---|---|---|---|
| Paralelo: +100 bps em toda a curva | −5,45% | −5,45% | 0,00 p.p. |
| Steepening: −50 bps no curto, +100 bps no longo | −4,05% | −4,85% | 0,80 p.p. |
O resultado que fecha o argumento
No choque paralelo, as duas carteiras perdem RIGOROSAMENTE o mesmo — como tinha de ser, porque a duration é idêntica e é isso que a duration mede. No movimento não paralelo, elas se separam em 0,80 ponto percentual. A duration não estava errada: ela estava respondendo a outra pergunta.
Simulador: mova a curva e veja quem sofre
InterativoEscolha um movimento da curva e compare o efeito estimado sobre carteiras reais de ETF — inclusive duas que têm exatamente a mesma duration.
| Carteira | Duration | Efeito estimado |
|---|---|---|
| IMAB11IMA-B — todas as NTN-Bs | 5,45 | -4,05% |
| 63,1% IB5M11 + 36,9% LFTS11mesma duration do IMAB11, montada nas duas pontas | 5,45 | -4,85% |
| IB5M11IMA-B 5+ — NTN-Bs longas | 8,64 | -7,69% |
| B5P211IMA-B 5 P2 — NTN-Bs curtas | 1,78 | +0,50% |
| LFTS11IMA-S — LFTs, duration ≈ 0 | 0,00 | +0,00% |
Repare no par IMAB11 × 63,1% IB5M11 + 36,9% LFTS11: a duration é a mesma, então em qualquer movimento paralelo os dois resultados são idênticos. Basta inclinar a curva para eles se separarem. Estimativa de primeira ordem para marcação a mercado — não inclui carrego, convexidade nem custos, e supõe que cada papel responde ao seu próprio vértice.
Os limites honestos desta simulação
São estimativas de primeira ordem para MARCAÇÃO, não repreciação de fluxos: não incluem o carrego do período, a convexidade, nem os custos. E a combinação mistura curvas diferentes — o IB5M11 responde ao juro real e o LFTS11 acompanha a Selic —, então o exercício mede exposição a movimento de preço, não equivalência econômica entre os produtos. O que ele prova é específico e suficiente: duration igual não implica risco de curva igual.
11.Como a curva chega à cota do ETF
A B3 define o ETF de renda fixa como um fundo negociado em bolsa que busca refletir a variação e a rentabilidade de um índice de renda fixa. O valor patrimonial da cota é calculado sobre o patrimônio líquido, pelos mesmos critérios de fechamento do índice de referência. Na prática, isso desenha uma cadeia de transmissão bem curta:
- As taxas de mercado mudam nos diferentes vértices da curva.
- Os títulos da carteira são reprecificados, cada um pelo seu prazo.
- O índice de referência incorpora os novos preços.
- O valor patrimonial do ETF muda.
- No mercado secundário, oferta, demanda e arbitragem mantêm a cotação próxima do valor econômico da carteira.
Por que "renda fixa" cai em um dia
Porque "fixa" descreve a regra de remuneração dos títulos, não a estabilidade diária do preço. Se a carteira tem duration relevante, a cota oscila com as taxas — e agora você sabe exatamente qual pedaço da curva precisa se mexer para isso acontecer.
Prefixados e IPCA+: a mesma lógica, curvas diferentes
| Família | A curva relevante | O que a segmentação por prazo revela |
|---|---|---|
| IRF-M (prefixados) | Curva nominal. | O IRF-M 1 concentra vencimentos abaixo de um ano e o IRF-M 1+ os de um ano ou mais — "prefixado" não é uma exposição única. |
| IMA-B (IPCA+) | Curva de juros reais. | O IMA-B 5 reúne vencimentos abaixo de cinco anos e o IMA-B 5+ os de cinco anos ou mais, justamente porque o risco de mercado entre os dois blocos é muito diferente. |
| IMA-S (LFT) | Praticamente nenhuma. | Taxa repactuada diariamente: quase não há marcação, e o resultado vem do carrego. |
Nos títulos IPCA+, a correção pelo índice protege o principal da inflação, mas o preço antes do vencimento responde à taxa real exigida para aquele prazo. Proteção contra inflação e ausência de volatilidade são coisas diferentes — e a curva real do dia, com sua corcova em quatro anos, mostra que nem essa exposição é uniforme ao longo do prazo.
12.Distribuir a exposição: ladder, bullet e barbell
| Estratégia | Como se monta | O que ela faz com o risco de curva |
|---|---|---|
| Ladder (escada) | Exposição distribuída por vários vencimentos. | Reduz a dependência de um único ponto da curva e cria uma sequência natural de renovações. |
| Bullet (concentração) | A maior parte dos fluxos perto de uma data-alvo. | Útil quando existe um objetivo com data marcada; em troca, amarra o resultado àquele trecho da curva. |
| Barbell (duas pontas) | Curto e longo, com pouco peso no miolo. | Muda a sensibilidade a inclinação e curvatura — e por isso não equivale a ter a mesma duration média, como a seção anterior mediu. |
Com ETFs, comece pela função
Dá para combinar ETFs de indexadores e faixas de prazo diferentes para desenhar qualquer um desses perfis. O ponto de partida, porém, é o objetivo da carteira — nunca a tentativa de adivinhar o próximo movimento da curva. Essa é a mesma disciplina do curso Estratégia Core-Satélite com ETFs, aplicada ao eixo do prazo.
Matriz rápida: movimento da curva e efeito esperado
| Movimento | Efeito no preço | Onde dói (ou ajuda) mais |
|---|---|---|
| Taxas caem de forma paralela | Preços sobem | Efeito maior em duration alta |
| Taxas sobem de forma paralela | Preços caem | Efeito maior em duration alta |
| Curta cai mais que a longa (steepening) | Curva inclina | Curto e longo podem ter retornos bem diferentes |
| Longa cai mais que a curta (flattening) | Curva achata | Duration longa tende a se beneficiar mais |
| Miolo sobe, pontas estáveis | Aumenta a curvatura | Carteiras concentradas no miolo sofrem mais |
| Juro real sobe | IPCA+ perde preço | Maior impacto nas NTN-B longas |
Isso é direção, não promessa de retorno
O resultado final depende da magnitude do choque, do carrego acumulado no período, da convexidade, dos spreads, dos custos e da composição exata da carteira. A matriz organiza o raciocínio; ela não substitui a conta.
13.Como analisar um ETF com visão de curva
- Identifique o índice de referência e o tipo de título: Selic, prefixado, IPCA ou crédito.
- Veja a regra de seleção por prazo: o ETF acompanha ponta curta, miolo, longa ou a curva cheia?
- Consulte duration, prazo médio de repactuação e yield, quando disponíveis.
- Observe a concentração por vencimentos — uma média pode esconder posições muito diferentes, como a seção da prova mostrou.
- Compare o yield do índice com outros trechos da curva, sem ignorar risco e liquidez.
- Entenda como o índice rebalanceia: ele vende o que encurtou e compra vencimentos novos.
- Avalie taxa de administração, spread, liquidez e aderência ao índice.
- Defina a função na carteira: reserva, estabilizador, proteção inflacionária, exposição tática ou objetivo de longo prazo.
O erro recorrente
Comparar dois ETFs de renda fixa apenas pela rentabilidade de 12 meses mistura três coisas distintas: o carrego passado, movimentos de curva que já aconteceram e durations diferentes. O retorno histórico não mede o risco que existe hoje — mede o que a curva fez com quem já estava posicionado.
Juros Futuros
A curva DI vértice a vértice, atualizada — o mapa deste curso, ao vivo.
ETFs de Renda Fixa na B3
A categoria inteira em uma tabela, para comparar exposições por indexador.
Comparador de ETFs
Até 6 fundos lado a lado, com o grau de repetição entre as carteiras.
Comparador de Renda Fixa
Ponha o ETF ao lado de CDB, LCI/LCA e Tesouro, já com o efeito do imposto.
Checklist antes de assumir risco de curva
- Sei qual é o meu horizonte de uso do dinheiro — e se posso precisar vender antes dele.
- Sei qual indexador domina a carteira e a qual curva ele responde.
- Sei a duration e em quais vértices ela está concentrada.
- O yield atual remunera o risco de duration que estou assumindo?
- Não estou confundindo a Selic de hoje com a curva inteira.
- Não estou tratando a inflação implícita como previsão certa.
- Entendo como o índice rebalanceia os títulos.
- Sei quanto a posição oscila se as taxas subirem 50, 100 ou 200 pontos-base.
- Estou diversificando prazos, ou apenas acumulando produtos com o mesmo risco?
- Custos, spread e tributação fazem sentido para o meu uso.
- Esta posição tem uma função clara dentro da carteira.
Princípio de disciplina
A curva transforma "acho que os juros vão cair" em uma pergunta mensurável: qual trecho precisa fechar, em quantos pontos-base, e qual é a sensibilidade da minha carteira exatamente a esse movimento? Quem consegue formular a pergunta assim já não está apostando às cegas.
14.Conclusão e quiz
A curva de juros é o mapa que liga prazo e taxa; a marcação a mercado é o mecanismo que transforma o movimento desse mapa em preço; e a duration é a régua que mede o quanto — desde que você saiba onde o movimento aconteceu. Junte as três e o retorno de um ETF de renda fixa deixa de ser um número que aparece na tela e passa a ser algo que você consegue decompor: quanto veio do carrego, quanto veio da curva, e em qual trecho dela.
A síntese desta aula
Prazo → curva → vértice → preço. Não existe uma taxa de juros, existe uma para cada prazo; a curva é estimada e publica o próprio erro; carregar até o vencimento entrega a taxa contratada, e vender antes entrega a taxa do mercado no dia; e duration igual não é risco igual quando a curva se move torta.
Quiz: curva de juros e marcação a mercado
Interativo10 perguntas para testar o que você aprendeu neste curso.
1. Por que a taxa de 10 anos não deve ser lida como previsão da Selic daqui a 10 anos?
2. O que acontece com o preço de um prefixado quando a taxa exigida pelo mercado sobe?
3. Como se obtém a inflação implícita a partir das duas curvas?
4. A inflação implícita é uma projeção do IPCA futuro?
5. No exemplo oficial do Tesouro, o investidor contratou 10,88% a.a. e realizou 11,10% a.a. vendendo antes do vencimento. De onde veio a diferença?
6. Nesse mesmo exemplo, qual parcela do ganho de R$ 140,75 veio da reprecificação pela curva?
7. Qual a diferença entre preço na curva e preço de mercado?
8. Duas carteiras têm exatamente a mesma duration. Em um choque PARALELO de +100 bps, o que acontece?
9. E se, em vez de paralelo, o movimento for um steepening (curto caindo 50 bps e longo subindo 100 bps)?
10. Por que um ETF de renda fixa nunca "para" de sofrer marcação a mercado, ao contrário de um título individual?
Curva de juros e marcação a mercado: como a estrutura a termo vira preço
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Investindo em Títulos de Renda Fixa — Frank J. Fabozzi
A referência que formaliza o conteúdo destes três cursos: função de desconto, curvas spot, forward e par, modelos de ajuste da estrutura a termo, key rate duration e gestão de risco de curva. É o passo seguinte natural para quem quer sair da aproximação e entrar na matemática completa.
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Fontes de referência
- ANBIMA — Estrutura a Termo das Taxas de Juros Estimada e Inflação Implícita, arquivo de 12/08/2026: parâmetros de Svensson das curvas prefixada e IPCA, tabela de vértices (126 a 8.442 dias úteis) e erro de ajuste título a título dos 33 papéis usados na estimativa.
- ANBIMA — Estrutura a Termo das Taxas de Juros Estimada e Inflação Implícita: Metodologia. Premissa de precificação por função de desconto e forma funcional baseada em Svensson.
- ANBIMA — IMA, Índices de Mercado, e Metodologia IMA: segmentação das famílias IRF-M e IMA-B por prazo e duration oficial de cada título público.
- Banco Central do Brasil — 280ª reunião do Copom, decisão de 05/08/2026 que fixou a meta Selic em 14,00% a.a., com vigência a partir de 06/08/2026 (histórico oficial de taxas de juros e série 432 do SGS).
- Tesouro Nacional — "Cálculo da Rentabilidade dos Títulos Públicos ofertados no Tesouro Direto: Tesouro Prefixado (LTN)": exemplo de venda antecipada em 07/05/2013 por R$ 874,61 após 420 dias úteis, com rentabilidade de 19,1794% no período e 11,10% a.a. equivalente.
- CVM — Composição Diária da Carteira (CDA) dos fundos, competência 30/06/2026: carteiras de IMAB11, IB5M11, LFTS11 e B5P211 usadas posição a posição no cálculo de duration por faixa da curva.
- B3 — ETF de Renda Fixa: definição do produto, cálculo do valor patrimonial da cota e funcionamento dos mercados primário e secundário.
- European Central Bank — Euro area yield curves e notas técnicas sobre curvas spot, forward e par yield.
- Federal Reserve — "Reflections on the Yield Curve and Monetary Policy": decomposição da taxa longa entre expectativas e prêmio de prazo.
- Bank for International Settlements — Zero-coupon yield curves: technical documentation, sobre métodos de ajuste da estrutura a termo.
- Cálculos Case de Valor — reprodução da ETTJ a partir dos parâmetros de Svensson e identificação da convenção do Lambda; taxa embutida no preço de venda, preço na curva e decomposição entre carrego e reprecificação no exemplo do Tesouro; duration por faixa da curva e simulação de choque paralelo e não paralelo nas carteiras reais dos ETFs.
Conteúdo exclusivamente educacional. Os índices, títulos e ETFs citados são exemplos reais, usados para demonstrar como se lê a estrutura a termo e como ela chega ao preço — não constituem recomendação de compra, venda ou alocação. As simulações de choque de curva são estimativas de primeira ordem e não preveem preços nem retornos. Dados de mercado, carteiras e metodologias mudam: a documentação vigente do fundo, do índice e da fonte oficial, na data da sua operação, sempre prevalece. Rentabilidade passada não representa garantia de rentabilidade futura, e fundos de investimento não contam com garantia do FGC.