Risco de Juros · Curso 3/9Intermediário 38 min de leitura Pomodoro

Curva de Juros e Marcação a Mercado

Não existe uma taxa de juros: existe uma curva. Como a estrutura a termo é estimada, como ela vira preço todo dia e por que duas carteiras com a mesma duration podem reagir de formas opostas ao mesmo movimento.

1.Não existe "a taxa de juros" — existe uma curva

Os dois cursos anteriores mediram quanto um título reage a uma mudança de taxa: Fundamentos dos ETFs de Renda Fixa mostrou que renda fixa tem preço variável, e Duration e Convexidade transformou essa oscilação em número. Os dois trabalharam com uma simplificação que agora precisa cair: a de que existe uma taxa que sobe ou desce.

A Selic é a taxa básica e serve de referência para o curtíssimo prazo. Mas um título que vence em seis meses não precisa — e normalmente não vai — oferecer a mesma taxa de um que vence em dez anos. Cada prazo tem a sua própria taxa, negociada separadamente, e o conjunto delas forma a curva de juros, também chamada de estrutura a termo das taxas de juros.

ElementoO que éOnde aparece no gráfico
PrazoO horizonte de cada fluxo de caixa.Eixo horizontal
TaxaO que o mercado exige para aquele horizonte.Eixo vertical
CurvaA relação entre os dois, ponto a ponto.A linha que os conecta

Por que os pontos são diferentes entre si

  • Expectativa para a trajetória dos juros de curto prazo ao longo do tempo.
  • Prêmio de prazo: a remuneração adicional exigida por carregar risco de taxa por mais tempo.
  • Incerteza sobre inflação, política monetária e atividade econômica.
  • Oferta, demanda e liquidez dos instrumentos usados para estimar a curva — a curva é feita de preços negociados, não de opinião.

A simplificação que mais engana

Uma taxa longa NÃO é uma previsão pura da Selic futura. Ela é a soma de uma expectativa com prêmios de risco e de prazo que ninguém consegue separar olhando só o número. Ler "a curva projeta Selic de 14,7% em 2033" é uma frase que soa técnica e está errada.

Regra editorial deste curso

Todo dado de mercado aqui foi extraído da fonte oficial com data, e a curva do dia foi reproduzida a partir dos parâmetros que a própria ANBIMA publica. Os cálculos derivados estão identificados como nossos. Onde o resultado é estimativa, o texto diz que é.

2.Vértices: cada ponto da curva é um prazo

No jargão do mercado, vértice é um prazo específico da curva. A ANBIMA publica a estrutura a termo em base de 252 dias úteis, com vértices a cada 126 dias úteis — 126, 252, 378, 504 e assim por diante. Falar em "vértice de 1.260 dias úteis" é falar do ponto de cinco anos.

Região da curvaO que manda nelaReage principalmente a
Ponta curtaPolítica monetária corrente.Decisões do Copom e expectativa para as próximas reuniões.
MioloTrajetória esperada dos juros somada ao prêmio de prazo.Mudança de cenário para os próximos anos.
Ponta longaPrêmio de risco de horizonte longo.Inflação esperada, risco fiscal e condições financeiras.

Vencimento do título × vértice da curva

Um título tem fluxos em datas específicas. Para precificá-lo, o mercado precisa de uma taxa de desconto coerente com o prazo de cada fluxo — e é a curva que fornece essa estrutura. Uma NTN-B que vence em 2035 e paga cupom semestral não é descontada por uma taxa só: cada cupom vai ao seu próprio vértice.

A ligação com o curso anterior

Duration responde "quanto risco de taxa esta carteira tem?". A curva acrescenta a pergunta que faltava: "em QUAL PRAZO está esse risco?". Duas carteiras com a mesma duration podem ter os fluxos concentrados em vértices completamente diferentes — e a última seção deste curso mede exatamente isso, em ETFs reais.

3.Spot, forward e par: três lentes para a mesma estrutura

A mesma curva pode ser expressa de três formas. Elas não são curvas concorrentes: são leituras diferentes da mesma informação de desconto.

LenteO que representaCuidado na leitura
Taxa spot (zero-cupom)A taxa de desconto de um pagamento único naquele prazo. É a forma como a ANBIMA publica a ETTJ.É a lente natural para precificar fluxo a fluxo.
Taxa forwardA taxa implícita hoje para um intervalo FUTURO, extraída das taxas spot.Não é previsão: embute prêmio de risco junto com expectativa.
Par yieldA taxa de cupom que faria um título hipotético valer exatamente o valor de face naquele vencimento.Resume a mesma estrutura em um número comparável a cupons de mercado.

O que realmente importa para marcar a mercado

O elemento fundamental é a função de desconto: o preço sai de trazer cada fluxo futuro a valor presente pela taxa correspondente ao seu prazo. Spot, forward e par são maneiras de descrever essa mesma função — escolher a lente errada não muda o preço, mas atrapalha a comparação.

4.Como a curva é estimada — e o que isso custa em precisão

A curva não é observada pronta no mercado: ela é estimada. O problema é que os títulos soberanos têm cupons e vencimentos irregulares, e quase nunca existe um zero-cupom negociado exatamente no prazo que você quer. A saída é ajustar uma curva suave que seja o mais consistente possível com os preços observados.

Preço = Σ (fluxo futuro ÷ fator de desconto do prazo daquele fluxo)

A premissa da metodologia: o preço de um título é a soma dos fluxos prometidos, trazidos a valor presente pela função de desconto.

A ANBIMA usa uma forma funcional baseada no modelo de Svensson, que descreve a curva inteira com seis parâmetros — quatro betas, ligados a nível, inclinação e duas curvaturas, e dois lambdas, que controlam a velocidade com que cada efeito decai ao longo do prazo. O objetivo não é adivinhar a taxa: é resumir a estrutura observada de forma suave e comparável.

Os parâmetros do dia — e a armadilha de convenção

A ANBIMA publica os parâmetros junto com a curva. Em 12/08/2026, a curva prefixada era descrita por: β₁ = 0,137139 · β₂ = 0,000818 · β₃ = −0,013966 · β₄ = 0,037037 · λ₁ = 2,576195 · λ₂ = 0,250154.

🔴 O Lambda é decaimento, não prazo — e errar isso dá curva plausível e errada

A metodologia não deixa explícito se o "Lambda" publicado é o τ da fórmula ou a taxa de decaimento λ = 1/τ. Testamos as duas: usando τ = 1/λ, a curva reconstruída bate com os vértices publicados com erro máximo de 0,000087 ponto percentual. Tratando o Lambda como o próprio τ, o erro médio vai a cerca de 1,0 ponto percentual, chegando a 1,26 no pior vértice — e o resultado ainda PARECE uma curva de juros brasileira normal. É por isso que convenção se verifica, nunca se supõe.

A curva é uma representação, não o ativo

O mesmo arquivo traz uma seção que quase ninguém abre: o erro título a título do ajuste, ou seja, quanto a curva estimada erra o preço de cada papel real usado na estimativa. Em 12/08/2026 o modelo foi ajustado sobre 33 títulos (12 LTNs, 6 NTN-Fs e 15 NTN-Bs), com o seguinte desempenho:

Medida do erro de ajusteValor em 12/08/2026
Erro absoluto médio0,0411 ponto percentual de taxa
Erro absoluto mediano0,0287 ponto percentual
Maior erro do dia0,2266 p.p. — a NTN-B com vencimento em 15/08/2028

Leia esse número como uma virtude, não como um defeito

Um erro mediano de 0,03 ponto percentual mostra que a curva descreve muito bem o mercado. Mas o erro existe, é publicado e é maior em alguns papéis — o que significa que a taxa que você lê no vértice é a da CURVA, não necessariamente a do título específico que você quer comprar. Para decidir preço de uma operação, o que vale é o papel; a curva serve para comparar prazos.

5.Os formatos da curva e o que cada um sugere

FormatoComo se apresentaLeitura possível
AscendenteTaxas longas acima das curtas.Expectativa de juros futuros maiores, prêmio de prazo positivo, ou os dois somados.
PlanaTaxas próximas entre os prazos.Fase de transição, em que forças da ponta curta e da longa se compensam.
InvertidaTaxas curtas acima das longas.Costuma aparecer com juros correntes altos e expectativa de queda futura — mas depende do contexto e do prêmio de prazo.
Com corcovaO miolo acima (ou abaixo) das duas pontas.Lembrete de que a curva não se move como uma régua, e nem sempre é monotônica.

Formato não é regra de investimento

A curva é um preço de mercado agregado em um instante. Ela carrega informação, mas não garante o caminho futuro das taxas nem dos retornos. Transformar formato em sinal operacional ("inverteu, então vou fazer X") ignora que o próprio formato já é a soma das expectativas de todos os participantes.

6.A curva brasileira em 12/08/2026, vértice a vértice

Sai a teoria, entra o retrato. Na data de referência, a Selic estava em 14,00% ao ano, definida pelo Copom na sua 280ª reunião, de 05/08/2026, com vigência a partir do dia seguinte. E a curva prefixada da ANBIMA começava abaixo da Selic e subia com o prazo.

Estrutura a termo no Brasil — 12/08/20266%8%10%12%14%Selic 14,00%1a2a4a6a8a10aprazo (anos úteis) · vértices de 126 a 2.520 dias úteis14,727,866,36prefixada (nominal)IPCA (juro real)inflação implícita
As três curvas do dia, extraídas da ETTJ oficial: a prefixada (nominal), a de juros reais (títulos IPCA) e a inflação implícita que sai da razão entre as duas. A linha tracejada é a Selic de 14,00% a.a. vigente na data.
VérticeETTJ prefixadaETTJ IPCA (juro real)Inflação implícita
126 d.u. (~6 meses)13,5730%7,8528%5,3037%
252 d.u. (~1 ano)13,7413%7,7683%5,5424%
504 d.u. (~2 anos)14,1367%8,0415%5,6415%
1.008 d.u. (~4 anos)14,5652%8,2107%5,8723%
1.260 d.u. (~5 anos)14,6649%8,1879%5,9868%
1.890 d.u. (~7,5 anos)14,7502%8,0328%6,2179%
2.520 d.u. (~10 anos)14,7185%7,8616%6,3571%

Três leituras que só aparecem quando se olha a tabela inteira, e não um número solto:

  1. A ponta curta estava ABAIXO da Selic. Com a taxa básica em 14,00% e o vértice de seis meses em 13,57%, o mercado precificava a continuidade do ciclo de queda — sem que isso seja promessa de nada.
  2. Nenhuma das duas curvas era monotônica. A prefixada sobe até o vértice de 7,5 anos (14,7502%) e depois recua de leve; a real sobe até o de 4 anos (8,2107%) e cai a partir dali. As duas têm corcova, cada uma no seu lugar.
  3. A inflação implícita subia com o prazo, de 5,30% em seis meses a 6,36% em dez anos — uma alta de 1,05 ponto percentual entre as duas pontas.

Como a inflação implícita é obtida

Inflação implícita = (1 + taxa nominal) ÷ (1 + taxa real) − 1

Conferindo no vértice de 126 d.u.: (1 + 13,5730%) ÷ (1 + 7,8528%) − 1 = 5,3037% — exatamente o valor publicado pela ANBIMA. A relação é exata, e não uma subtração aproximada.

O que a inflação implícita NÃO é

Não é projeção garantida do IPCA. Ela sai de preços de mercado e por isso carrega junto diferenças de liquidez e prêmios de risco entre títulos nominais e reais. É ótima para comparar o custo relativo de se proteger da inflação em cada prazo; é péssima como bola de cristal.

Duas notas de alcance dos dados

A ETTJ prefixada publicada vai até 10 anos (2.520 d.u.); a de juros reais chega a 33,5 anos (8.442 d.u.), porque há NTN-B com vencimento em 2060 sustentando a ponta longa. É por isso que a curva real permite discutir prazos que a nominal simplesmente não alcança.

7.Marcação a mercado: da taxa ao preço, todo dia

Marcar a mercado é atualizar o valor de um ativo pelas condições de negociação vigentes. Em renda fixa, isso significa recalcular o valor presente dos fluxos com as taxas de mercado do dia — as taxas da curva que acabamos de ler.

Taxa de mercado sobe → preço cai · Taxa de mercado cai → preço sobe

A intensidade depende de prazo, duration, convexidade e estrutura dos fluxos. A direção não depende de nada: é aritmética de valor presente.

A relação é inversa e curva — e a curvatura é a convexidade do curso anterior, vista agora pela origem: como o fluxo é dividido por (1 + taxa) elevado ao prazo, dobrar o choque de taxa não dobra o efeito no preço.

É aqui que os dois cursos se encontram

A duration mede a sensibilidade; a curva diz qual taxa se moveu. Sem a curva, a duration é uma régua sem escala — ela informa quanto o preço reage por ponto percentual, mas não em qual prazo esse ponto percentual aconteceu.

8.Preço na curva × preço de mercado: o exemplo oficial, decomposto

O documento oficial do Tesouro Direto continua o mesmo exemplo usado no curso anterior — e é aqui que ele fica realmente interessante. O investidor comprou o Tesouro Prefixado 2015 por R$ 733,86, à taxa de 10,88% ao ano, e resolveu vender antes do vencimento.

Dado do exemplo oficialValor
Preço de compra (04/01/2012)R$ 733,86 · taxa de 10,88% a.a.
Data da venda07/05/2013 (liquidação em 08/05/2013)
Dias úteis de posse420
Preço na vendaR$ 874,61
Rentabilidade do período19,1794%
Taxa anual equivalente11,10% a.a.

O investidor contratou 10,88% e realizou 11,10%. A diferença veio da marcação a mercado — e o documento para por aí. Dá para ir bem além, porque todos os elementos para reconstruir a operação estão na mesa.

Quanto a curva se moveu (nossa derivação)

Na data da venda faltavam 335 dias úteis para o vencimento (755 − 420). Invertendo a fórmula de preço com o valor efetivamente recebido, chega-se à taxa que o mercado praticava naquele papel naquele dia:

Elemento reconstruídoResultado
Taxa embutida no preço de venda10,6036% a.a.
Taxa contratada na compra10,8800% a.a.
Movimento da curva naquele vérticefechou 28 pontos-base
Preço na curva em 08/05/2013 (carregando a 10,88%)R$ 871,70
Preço de mercado na mesma dataR$ 874,61
Diferença+R$ 2,91 (+0,33%)

Ou seja: dos R$ 140,75 de ganho total, R$ 137,84 (97,9%) vieram do carrego — o simples decorrer do tempo à taxa contratada — e apenas R$ 2,91 (2,1%) vieram da reprecificação pela queda de 28 bps na taxa de mercado. O retorno "acima do contratado" que parece um golpe de sorte é, na verdade, uma fatia pequena de um resultado que já estava quase todo definido na compra.

🔴 E a duration do curso anterior acerta o número

No dia da venda o papel tinha 1,3294 ano de prazo restante e duration modificada de 1,2019. A estimativa de primeira ordem para um fechamento de 28 bps é 1,2019 × 0,28% = +0,332% de preço. A diferença medida entre preço de mercado e preço na curva foi +0,334%. A régua do curso anterior prevê o resultado deste com duas casas de precisão — e a diferença que sobra é a convexidade.

A convergência no vencimento

Num prefixado sem cupom, preço de mercado e preço na curva convergem para o valor de face no vencimento: quando não resta prazo, não resta o que reprecificar. É por isso que quem carrega até o fim recebe exatamente a taxa contratada, independentemente do que a curva fez no caminho.

E é exatamente isso que um ETF não tem

Um ETF de renda fixa não tem uma data em que o investidor "recebe o valor de face" da cota. A carteira é renovada conforme o índice, então nunca chega o momento em que a marcação para de importar. No título individual a marcação é um episódio entre a compra e o vencimento; no ETF ela é o regime permanente.

9.Movimentos não paralelos: quando um número só não basta

A fórmula de duration supõe, implicitamente, que a curva inteira se desloca junto — o chamado movimento paralelo. É uma boa aproximação em muitos dias, e uma péssima em alguns. Na prática, a curva tem três movimentos clássicos, e só o primeiro é bem descrito por um número único.

Como a curva se move — e por que só o primeiro caso cabe num númeroParalelotoda a curva sobe juntoSteepeningcurta cai, longa sobeFlatteninga distância diminuiCurvaturao miolo se descolacurva de partidadepois do movimento
Os quatro movimentos da curva. Só no deslocamento paralelo a duration sozinha descreve bem o resultado; nos demais, o que decide é ONDE a carteira tem exposição.
MovimentoO que acontecePor que a duration sozinha falha
Deslocamento paraleloCurtas e longas mudam aproximadamente igual.Não falha — é o cenário em que a duration funciona como resumo.
Steepening (inclinação)A distância entre longas e curtas AUMENTA.Duas carteiras de mesma duration podem ter resultados bem diferentes.
Flattening (achatamento)A distância entre longas e curtas DIMINUI.Quem está concentrado no longo se beneficia mais; quem está no curto, menos.
CurvaturaO miolo se move diferente das pontas.É preciso localizar a exposição vértice a vértice.

O nome disso é key rate duration

Em vez de uma duration para a curva inteira, mede-se a sensibilidade do preço a um choque em CADA vértice, mantendo os demais parados. Nenhum investidor pessoa física precisa calcular isso para operar — mas entender o conceito evita o erro de imaginar que a curva sempre sobe ou desce inteira pelo mesmo número de pontos-base. A próxima seção faz essa conta, em ETFs reais.

10.A prova: mesma duration, riscos diferentes

Até aqui, "duas carteiras com a mesma duration podem reagir diferente" foi uma afirmação. Vamos medi-la — com carteiras reais, que qualquer investidor pode comprar na B3, e com as durations oficiais de cada título.

De um lado, o IMAB11, que replica o IMA-B: a carteira informada à CVM em 30/06/2026 tem duration de 5,872 anos. Do outro, uma combinação de dois ETFs que produz exatamente a mesma duration: 63,1% de IB5M11 (IMA-B 5+, duration de 9,310 anos) e 36,9% de LFTS11 (IMA-S, duration praticamente zero). Pela régua da duration, as duas exposições são idênticas.

Onde mora a duration — duas carteiras com os MESMOS 5,872 anos1,02,03,04,0anos de duration0,050,00até 1a0,290,001–3a0,650,293–5a1,541,775–10a3,333,8110a+IMAB1163,1% IB5M11 + 36,9% LFTS11Choque paralelo de +100 bps: as duas perdem 5,45%. Steepening: −4,05% × −4,85%
Onde mora a duration de cada uma das duas carteiras. O total é o mesmo — 5,872 anos —, mas a distribuição pela curva não é: o IMAB11 espalha exposição por todas as faixas, e a combinação esvazia o miolo curto e reforça as pontas.
Faixa da curvaIMAB11 (contribuição em anos)63,1% IB5M11 + 36,9% LFTS11
Até 1 ano0,050,00
1 a 3 anos0,290,00
3 a 5 anos0,650,29
5 a 10 anos1,551,77
Acima de 10 anos3,333,81
Duration total5,87 anos5,87 anos

Agora os dois cenários

Aplicando a mesma aritmética de duration papel a papel, mas com o choque de taxa incidindo no vértice de cada um:

Cenário de movimento da curvaIMAB11Combinação de mesma durationDiferença
Paralelo: +100 bps em toda a curva−5,45%−5,45%0,00 p.p.
Steepening: −50 bps no curto, +100 bps no longo−4,05%−4,85%0,80 p.p.

O resultado que fecha o argumento

No choque paralelo, as duas carteiras perdem RIGOROSAMENTE o mesmo — como tinha de ser, porque a duration é idêntica e é isso que a duration mede. No movimento não paralelo, elas se separam em 0,80 ponto percentual. A duration não estava errada: ela estava respondendo a outra pergunta.

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Simulador: mova a curva e veja quem sofre

Interativo

Escolha um movimento da curva e compare o efeito estimado sobre carteiras reais de ETF — inclusive duas que têm exatamente a mesma duration.

CarteiraDurationEfeito estimado
IMAB11IMA-B — todas as NTN-Bs5,45-4,05%
63,1% IB5M11 + 36,9% LFTS11mesma duration do IMAB11, montada nas duas pontas5,45-4,85%
IB5M11IMA-B 5+ — NTN-Bs longas8,64-7,69%
B5P211IMA-B 5 P2 — NTN-Bs curtas1,78+0,50%
LFTS11IMA-S — LFTs, duration ≈ 00,00+0,00%

Repare no par IMAB11 × 63,1% IB5M11 + 36,9% LFTS11: a duration é a mesma, então em qualquer movimento paralelo os dois resultados são idênticos. Basta inclinar a curva para eles se separarem. Estimativa de primeira ordem para marcação a mercado — não inclui carrego, convexidade nem custos, e supõe que cada papel responde ao seu próprio vértice.

Os limites honestos desta simulação

São estimativas de primeira ordem para MARCAÇÃO, não repreciação de fluxos: não incluem o carrego do período, a convexidade, nem os custos. E a combinação mistura curvas diferentes — o IB5M11 responde ao juro real e o LFTS11 acompanha a Selic —, então o exercício mede exposição a movimento de preço, não equivalência econômica entre os produtos. O que ele prova é específico e suficiente: duration igual não implica risco de curva igual.

11.Como a curva chega à cota do ETF

A B3 define o ETF de renda fixa como um fundo negociado em bolsa que busca refletir a variação e a rentabilidade de um índice de renda fixa. O valor patrimonial da cota é calculado sobre o patrimônio líquido, pelos mesmos critérios de fechamento do índice de referência. Na prática, isso desenha uma cadeia de transmissão bem curta:

  1. As taxas de mercado mudam nos diferentes vértices da curva.
  2. Os títulos da carteira são reprecificados, cada um pelo seu prazo.
  3. O índice de referência incorpora os novos preços.
  4. O valor patrimonial do ETF muda.
  5. No mercado secundário, oferta, demanda e arbitragem mantêm a cotação próxima do valor econômico da carteira.

Por que "renda fixa" cai em um dia

Porque "fixa" descreve a regra de remuneração dos títulos, não a estabilidade diária do preço. Se a carteira tem duration relevante, a cota oscila com as taxas — e agora você sabe exatamente qual pedaço da curva precisa se mexer para isso acontecer.

Prefixados e IPCA+: a mesma lógica, curvas diferentes

FamíliaA curva relevanteO que a segmentação por prazo revela
IRF-M (prefixados)Curva nominal.O IRF-M 1 concentra vencimentos abaixo de um ano e o IRF-M 1+ os de um ano ou mais — "prefixado" não é uma exposição única.
IMA-B (IPCA+)Curva de juros reais.O IMA-B 5 reúne vencimentos abaixo de cinco anos e o IMA-B 5+ os de cinco anos ou mais, justamente porque o risco de mercado entre os dois blocos é muito diferente.
IMA-S (LFT)Praticamente nenhuma.Taxa repactuada diariamente: quase não há marcação, e o resultado vem do carrego.

Nos títulos IPCA+, a correção pelo índice protege o principal da inflação, mas o preço antes do vencimento responde à taxa real exigida para aquele prazo. Proteção contra inflação e ausência de volatilidade são coisas diferentes — e a curva real do dia, com sua corcova em quatro anos, mostra que nem essa exposição é uniforme ao longo do prazo.

12.Distribuir a exposição: ladder, bullet e barbell

EstratégiaComo se montaO que ela faz com o risco de curva
Ladder (escada)Exposição distribuída por vários vencimentos.Reduz a dependência de um único ponto da curva e cria uma sequência natural de renovações.
Bullet (concentração)A maior parte dos fluxos perto de uma data-alvo.Útil quando existe um objetivo com data marcada; em troca, amarra o resultado àquele trecho da curva.
Barbell (duas pontas)Curto e longo, com pouco peso no miolo.Muda a sensibilidade a inclinação e curvatura — e por isso não equivale a ter a mesma duration média, como a seção anterior mediu.

Com ETFs, comece pela função

Dá para combinar ETFs de indexadores e faixas de prazo diferentes para desenhar qualquer um desses perfis. O ponto de partida, porém, é o objetivo da carteira — nunca a tentativa de adivinhar o próximo movimento da curva. Essa é a mesma disciplina do curso Estratégia Core-Satélite com ETFs, aplicada ao eixo do prazo.

Matriz rápida: movimento da curva e efeito esperado

MovimentoEfeito no preçoOnde dói (ou ajuda) mais
Taxas caem de forma paralelaPreços sobemEfeito maior em duration alta
Taxas sobem de forma paralelaPreços caemEfeito maior em duration alta
Curta cai mais que a longa (steepening)Curva inclinaCurto e longo podem ter retornos bem diferentes
Longa cai mais que a curta (flattening)Curva achataDuration longa tende a se beneficiar mais
Miolo sobe, pontas estáveisAumenta a curvaturaCarteiras concentradas no miolo sofrem mais
Juro real sobeIPCA+ perde preçoMaior impacto nas NTN-B longas

Isso é direção, não promessa de retorno

O resultado final depende da magnitude do choque, do carrego acumulado no período, da convexidade, dos spreads, dos custos e da composição exata da carteira. A matriz organiza o raciocínio; ela não substitui a conta.

13.Como analisar um ETF com visão de curva

  1. Identifique o índice de referência e o tipo de título: Selic, prefixado, IPCA ou crédito.
  2. Veja a regra de seleção por prazo: o ETF acompanha ponta curta, miolo, longa ou a curva cheia?
  3. Consulte duration, prazo médio de repactuação e yield, quando disponíveis.
  4. Observe a concentração por vencimentos — uma média pode esconder posições muito diferentes, como a seção da prova mostrou.
  5. Compare o yield do índice com outros trechos da curva, sem ignorar risco e liquidez.
  6. Entenda como o índice rebalanceia: ele vende o que encurtou e compra vencimentos novos.
  7. Avalie taxa de administração, spread, liquidez e aderência ao índice.
  8. Defina a função na carteira: reserva, estabilizador, proteção inflacionária, exposição tática ou objetivo de longo prazo.

O erro recorrente

Comparar dois ETFs de renda fixa apenas pela rentabilidade de 12 meses mistura três coisas distintas: o carrego passado, movimentos de curva que já aconteceram e durations diferentes. O retorno histórico não mede o risco que existe hoje — mede o que a curva fez com quem já estava posicionado.

Checklist antes de assumir risco de curva

  • Sei qual é o meu horizonte de uso do dinheiro — e se posso precisar vender antes dele.
  • Sei qual indexador domina a carteira e a qual curva ele responde.
  • Sei a duration e em quais vértices ela está concentrada.
  • O yield atual remunera o risco de duration que estou assumindo?
  • Não estou confundindo a Selic de hoje com a curva inteira.
  • Não estou tratando a inflação implícita como previsão certa.
  • Entendo como o índice rebalanceia os títulos.
  • Sei quanto a posição oscila se as taxas subirem 50, 100 ou 200 pontos-base.
  • Estou diversificando prazos, ou apenas acumulando produtos com o mesmo risco?
  • Custos, spread e tributação fazem sentido para o meu uso.
  • Esta posição tem uma função clara dentro da carteira.

Princípio de disciplina

A curva transforma "acho que os juros vão cair" em uma pergunta mensurável: qual trecho precisa fechar, em quantos pontos-base, e qual é a sensibilidade da minha carteira exatamente a esse movimento? Quem consegue formular a pergunta assim já não está apostando às cegas.

14.Conclusão e quiz

A curva de juros é o mapa que liga prazo e taxa; a marcação a mercado é o mecanismo que transforma o movimento desse mapa em preço; e a duration é a régua que mede o quanto — desde que você saiba onde o movimento aconteceu. Junte as três e o retorno de um ETF de renda fixa deixa de ser um número que aparece na tela e passa a ser algo que você consegue decompor: quanto veio do carrego, quanto veio da curva, e em qual trecho dela.

A síntese desta aula

Prazo → curva → vértice → preço. Não existe uma taxa de juros, existe uma para cada prazo; a curva é estimada e publica o próprio erro; carregar até o vencimento entrega a taxa contratada, e vender antes entrega a taxa do mercado no dia; e duration igual não é risco igual quando a curva se move torta.

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Quiz: curva de juros e marcação a mercado

Interativo

10 perguntas para testar o que você aprendeu neste curso.

1. Por que a taxa de 10 anos não deve ser lida como previsão da Selic daqui a 10 anos?

2. O que acontece com o preço de um prefixado quando a taxa exigida pelo mercado sobe?

3. Como se obtém a inflação implícita a partir das duas curvas?

4. A inflação implícita é uma projeção do IPCA futuro?

5. No exemplo oficial do Tesouro, o investidor contratou 10,88% a.a. e realizou 11,10% a.a. vendendo antes do vencimento. De onde veio a diferença?

6. Nesse mesmo exemplo, qual parcela do ganho de R$ 140,75 veio da reprecificação pela curva?

7. Qual a diferença entre preço na curva e preço de mercado?

8. Duas carteiras têm exatamente a mesma duration. Em um choque PARALELO de +100 bps, o que acontece?

9. E se, em vez de paralelo, o movimento for um steepening (curto caindo 50 bps e longo subindo 100 bps)?

10. Por que um ETF de renda fixa nunca "para" de sofrer marcação a mercado, ao contrário de um título individual?

Curva de juros e marcação a mercado: como a estrutura a termo vira preço

🎬 Vídeo em produção — em breve nesta lição

Investindo em Títulos de Renda FixaFrank J. Fabozzi
O tratado sobre estrutura a termo e precificação

Investindo em Títulos de Renda FixaFrank J. Fabozzi

A referência que formaliza o conteúdo destes três cursos: função de desconto, curvas spot, forward e par, modelos de ajuste da estrutura a termo, key rate duration e gestão de risco de curva. É o passo seguinte natural para quem quer sair da aproximação e entrar na matemática completa.

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Fontes de referência

  • ANBIMA — Estrutura a Termo das Taxas de Juros Estimada e Inflação Implícita, arquivo de 12/08/2026: parâmetros de Svensson das curvas prefixada e IPCA, tabela de vértices (126 a 8.442 dias úteis) e erro de ajuste título a título dos 33 papéis usados na estimativa.
  • ANBIMA — Estrutura a Termo das Taxas de Juros Estimada e Inflação Implícita: Metodologia. Premissa de precificação por função de desconto e forma funcional baseada em Svensson.
  • ANBIMA — IMA, Índices de Mercado, e Metodologia IMA: segmentação das famílias IRF-M e IMA-B por prazo e duration oficial de cada título público.
  • Banco Central do Brasil — 280ª reunião do Copom, decisão de 05/08/2026 que fixou a meta Selic em 14,00% a.a., com vigência a partir de 06/08/2026 (histórico oficial de taxas de juros e série 432 do SGS).
  • Tesouro Nacional — "Cálculo da Rentabilidade dos Títulos Públicos ofertados no Tesouro Direto: Tesouro Prefixado (LTN)": exemplo de venda antecipada em 07/05/2013 por R$ 874,61 após 420 dias úteis, com rentabilidade de 19,1794% no período e 11,10% a.a. equivalente.
  • CVM — Composição Diária da Carteira (CDA) dos fundos, competência 30/06/2026: carteiras de IMAB11, IB5M11, LFTS11 e B5P211 usadas posição a posição no cálculo de duration por faixa da curva.
  • B3 — ETF de Renda Fixa: definição do produto, cálculo do valor patrimonial da cota e funcionamento dos mercados primário e secundário.
  • European Central Bank — Euro area yield curves e notas técnicas sobre curvas spot, forward e par yield.
  • Federal Reserve — "Reflections on the Yield Curve and Monetary Policy": decomposição da taxa longa entre expectativas e prêmio de prazo.
  • Bank for International Settlements — Zero-coupon yield curves: technical documentation, sobre métodos de ajuste da estrutura a termo.
  • Cálculos Case de Valor — reprodução da ETTJ a partir dos parâmetros de Svensson e identificação da convenção do Lambda; taxa embutida no preço de venda, preço na curva e decomposição entre carrego e reprecificação no exemplo do Tesouro; duration por faixa da curva e simulação de choque paralelo e não paralelo nas carteiras reais dos ETFs.

Conteúdo exclusivamente educacional. Os índices, títulos e ETFs citados são exemplos reais, usados para demonstrar como se lê a estrutura a termo e como ela chega ao preço — não constituem recomendação de compra, venda ou alocação. As simulações de choque de curva são estimativas de primeira ordem e não preveem preços nem retornos. Dados de mercado, carteiras e metodologias mudam: a documentação vigente do fundo, do índice e da fonte oficial, na data da sua operação, sempre prevalece. Rentabilidade passada não representa garantia de rentabilidade futura, e fundos de investimento não contam com garantia do FGC.

Conteúdo exclusivamente educacional — não constitui recomendação de investimento.