Precificação e Análise · Curso 6/8Intermediário/Avançado 54 min de leitura Pomodoro

Marcação a Mercado, Duration e Convexidade

Por que um título de renda fixa oscila antes do vencimento, como medir essa oscilação antes de ela acontecer e como separar o que é curva de juros do que é risco de crédito

1.Onde este curso entra na trilha

Os cinco cursos anteriores trataram do contrato: o que o título promete, quem promete, quando paga, quanto rende e o que acontece se quem deve não pagar. Este curso trata de outra coisa — do preço que o mercado atribui hoje a essa promessa.

São coisas diferentes, e a confusão entre as duas é a origem de quase todo susto em renda fixa. O contrato de um Tesouro IPCA+ 2045 não muda de um dia para o outro. O valor que aparece no extrato, muda — e pode mudar muito.

A pergunta central

Quanto o preço pode mudar quando as taxas mudam? E, mais útil: dá para saber isso antes de acontecer, olhando só a estrutura do título?

A resposta é sim, e tem nome: duration. E ela é boa o suficiente para o dia típico, mas incompleta para o dia excepcional — que é onde entra a convexidade. O curso mede as duas coisas em dado real brasileiro, não em exemplo inventado.

Escopo

Este curso trata do preço de um título individual, que vence numa data. Carteiras e índices de renda fixa acessados por ETF são objeto de uma trilha própria e não fazem parte do escopo desta.

2.O que você vai aprender

  • Explicar marcação a mercado sem confundir queda de preço com calote.
  • Calcular o preço de um título como valor presente dos seus fluxos — e entender o que é PU, VNA e cotação.
  • Diferenciar duration de prazo, que é a distinção mais mal compreendida da renda fixa.
  • Usar duration modificada e DV01 como medidas de sensibilidade, uma em percentual e outra em reais.
  • Saber quando a convexidade importa e quando ela é irrelevante — com a régua medida, não com regra de bolso.
  • Separar movimento da curva soberana de movimento do spread de crédito, e saber qual dos dois explica o quê.
  • Avaliar se a oscilação de um título combina com o horizonte do seu objetivo.

Pré-requisito real

Este curso pressupõe os cinco anteriores da trilha, em especial o de juros, CDI, IPCA e curva de juros. Se “estrutura a termo” ainda soar estranho, vale voltar um passo — aqui a curva deixa de ser paisagem e passa a ser ferramenta.

3.De onde vêm os números deste curso

Quase todo material sobre duration usa um título imaginário: “suponha um papel de 1.000 que vence em cinco anos”. Este curso usa esse exemplo também, porque ele ensina a fórmula — mas todas as conclusões vêm de dado real, baixado da fonte e recalculado.

FonteO que foi usadoTamanho
Tesouro Transparente (Tesouro Nacional)Preços e taxas de todos os títulos, com as duas pontas (compra e venda), mais o estoque por competência174.998 cotações, de 31/12/2004 a 14/08/2026
ANBIMA — mercado secundário de debênturesTaxa indicativa, PU, %PU par e duration, série a série121 pregões diários, ~1.275 séries em cada
ANBIMA — estrutura a termo (ETTJ)Curva de juros reais e nominais, para separar curva de spreadOs mesmos 121 pregões

O modelo foi validado antes de ser usado

Todo cálculo de preço deste curso reproduz os PUs que o próprio Tesouro publica: 96,1% das cotações de Tesouro Prefixado batem dentro de 0,01%. E o exemplo oficial da documentação do Tesouro (um Prefixado 2015 negociado em 03/01/2012) sai exato nos quatro números — 755 dias úteis, PU 733,8687, duration de Macaulay 2,9960, duration modificada 2,7020 e convexidade 9,7380. Sem essa conferência, nenhum número adiante teria valor.

Onde a fonte não sustenta um número, o curso escreve travessão e diz o motivo. Isso acontece uma vez, e está sinalizado no lugar.

4.O preço de hoje, não a promessa de ontem

Marcação a mercado é a atualização do valor de referência de um título conforme as condições correntes. O contrato pode continuar exatamente igual enquanto o preço muda: o que mudou foi a taxa que o mercado exige hoje para comprar aquele mesmo fluxo.

O que mudaEfeito econômico
Curva de jurosAltera a taxa usada para descontar os fluxos futuros.
Spread de créditoAltera a remuneração exigida pelo risco do emissor ou da estrutura.
LiquidezPode ampliar o desconto exigido para negociar o papel.
TempoReduz o prazo restante e muda a composição do que ainda falta receber.

Queda de preço não é sinal de calote

Uma queda no valor de mercado não significa, por si só, que o emissor deixará de pagar. Ela pode refletir apenas uma taxa de mercado maior. Pode também carregar informação de risco de crédito — e é justamente por isso que se investiga em vez de supor. O curso inteiro é sobre como distinguir os dois casos.

5.Preço é o valor presente dos fluxos

O fundamento é simples: dinheiro recebido no futuro vale menos hoje quando a taxa de desconto é positiva. O preço de um título é a soma dos seus fluxos futuros trazidos a valor presente.

P = CF₁/(1+y)¹ + CF₂/(1+y)² + … + CFₙ/(1+y)ⁿ

P = preço · CF = fluxo de caixa · y = taxa de desconto por período · n = tempo

Se a taxa de desconto aumenta, cada fluxo futuro vale menos e o preço cai. Se ela diminui, os mesmos fluxos passam a valer mais. É por isso que preço e taxa caminham em direções opostas — não por convenção de mercado, mas por aritmética.

No Brasil há um detalhe de convenção que muda o resultado e quase nunca aparece explicado: o expoente não é medido em dias corridos, e sim em anos úteis — dias úteis divididos por 252. Um título que vence em 5 anos corridos tem cerca de 1.260 dias úteis pela frente, e é esse número que entra na conta. É a convenção do Tesouro e da ANBIMA, e é o que permite reproduzir os preços publicados ao centavo.

Um detalhe que custa caro

A contagem vai da liquidação (o dia seguinte ao negócio) até o vencimento, sem incluir o vencimento. E, no Tesouro Direto, o dia seguinte é o próximo dia em que o programa opera — que não é 31/12, porque a plataforma não funciona nessa data. Errar isso por um único dia útil desloca o preço em cerca de 0,05%: pouco para um extrato, muito para quem tenta reproduzir um número oficial.

6.A relação inversa, com número

Considere um título que paga 1.000 em cinco anos e não tem cupons. O preço é simplesmente 1.000 ÷ (1+y)⁵:

Taxa exigida pelo mercadoPreçoVariação
11,0% ao ano593,45
12,0% ao ano567,43−4,38%
13,0% ao ano542,76−4,35%

O fluxo de 1.000 é o mesmo nas três linhas. Ninguém deixou de pagar nada. Se o mercado passa a exigir 13% em vez de 12%, o título antigo precisa ficar mais barato para que o mesmo pagamento de 1.000 produza o novo retorno exigido.

Repare também numa pista para mais adiante: a queda de 11% para 12% foi de 4,38% e a de 12% para 13% foi de 4,35%. Movimentos iguais de taxa produzem variações diferentes de preço. A relação não é uma reta — e essa curvatura tem nome.

7.PU, VNA e cotação: três nomes, um raciocínio

No mercado brasileiro, PU (preço unitário) é o valor econômico de uma unidade do título numa data. Em títulos indexados aparecem ainda o VNA (valor nominal atualizado, que incorpora a inflação já acumulada) e a cotação — o preço expresso como percentual do VNA.

PU do título indexado = VNA × (cotação ÷ 100)

A separação importa porque as duas partes se movem por motivos diferentes: o VNA sobe com o IPCA, sem opinião de ninguém; a cotação sobe ou desce com a taxa de juro real que o mercado exige. Quando alguém diz que “o IPCA+ caiu”, quase sempre está falando da segunda parte.

Um teste que se pode fazer em casa

Todos os títulos de IPCA+ compartilham o mesmo VNA num dado dia. Dividindo o PU publicado de cada um pela sua cotação teórica, tem de sair sempre o mesmo VNA. Nas cotações de 2024 em diante, essa dispersão fica em 0,0008% — praticamente zero. Foi esse teste que revelou um erro de convenção durante a produção deste curso: o cupom de agosto estava sendo contado num dia em que o título já negociava sem ele.

8.Taxa contratada, cupom e yield não são a mesma coisa

ConceitoO que descreve
CupomO pagamento periódico definido pela estrutura do título.
Taxa de emissão ou de aquisiçãoA condição negociada no momento em que você comprou.
Yield de mercadoA taxa que iguala o preço de HOJE ao valor presente dos fluxos que faltam.
Indexador + spreadA forma de remuneração típica de títulos indexados e de crédito.

Um título pode ter cupom de 10% e yield de mercado de 12%. O cupom descreve o fluxo; o yield conecta esse fluxo ao preço atual. São camadas diferentes da mesma coisa, e comparar uma com a outra produz conclusões erradas com aparência de rigor.

A comparação que engana

Nunca compare o cupom de um título com o yield de outro. Antes de comparar dois papéis, confirme qual taxa está sendo exibida em cada um e como os fluxos são formados.

9.Levar até o vencimento elimina a oscilação?

É a pergunta mais frequente da renda fixa, e a resposta honesta tem duas partes. A primeira é sim: se o título for mantido até o vencimento e todos os pagamentos ocorrerem conforme contratado, o investidor recebe exatamente o que a taxa contratada prometia. A segunda é que, no caminho, o extrato mostra outra coisa.

Dá para medir isso com precisão. Para cada compra possível de um título que já venceu, comparamos o preço de mercado em cada pregão com o valor que a taxa contratada na compra já prometia naquela altura. A diferença é o que o extrato mostra a mais ou a menos que o plano — e ela é obrigatoriamente zero no vencimento.

Rodando isso em 9.546 combinações de compra em 39 títulos já vencidos, o resultado é este:

Prazo na compraJá ficou abaixo do planoQueda medianaPior caso
Até 1 ano67,3%−0,31%−1,54%
1 a 2 anos83,2%−1,02%−8,48%
2 a 4 anos95,4%−3,40%−18,03%
4 a 8 anos97,3%−7,27%−26,63%
Acima de 8 anos100,0%−13,82%−33,22%

Cem por cento não é força de expressão

De todas as compras com mais de oito anos de prazo, nenhuma atravessou o período sem passar por um momento em que o título valia menos do que a taxa contratada já prometia. Não é um risco de cauda: é o comportamento normal de um título longo.

O VENCIMENTO ENTREGOU A TAXA CONTRATADA — O CAMINHO NÃOTesouro IPCA+ 15/08/2024, comprado em 21/05/2007 a IPCA + 5,82% · 4.303 pregõeseixo: quanto o preço de mercado estava acima ou abaixo do que a taxa contratada já prometia+30%+20%+10%0%-10%-20%-30%−33,22% · out/2008+29,15% · jan/2013vencimento: 0,00%2009201320172021Nenhum pagamento foi perdido. O contrato nunca mudou. O que mudou foi a taxa que o mercado exigia.
O pior caso da amostra: um Tesouro IPCA+ com vencimento em 15/08/2024, comprado em 21/05/2007 a IPCA + 5,82%. Em outubro de 2008 valia 33,22% abaixo do que a taxa contratada já prometia; em janeiro de 2013, 29,15% acima. No vencimento, exatamente zero — a taxa contratada foi entregue integralmente.

10.O que o extrato mostra e o que o contrato promete

A figura anterior é a imagem mais útil deste curso, e vale demorar nela. A linha desce, sobe acima do plano, desce de novo e converge para zero. Nenhum pagamento foi perdido. O emissor era o mesmo. A promessa era a mesma. O que mudou, todos os dias, foi a taxa que o mercado exigia para comprar aquele fluxo.

SituaçãoO que importa mais
Vai precisar do dinheiro antes do vencimentoPreço de mercado e liquidez são centrais.
Pretende carregar até o vencimentoFluxos contratados e risco de crédito ganham peso — mas liquidez continua relevante para imprevistos.
Está comparando alternativas hojeValor de mercado, taxa corrente, tributação e risco, todos medidos na mesma data.

O que “não vou vender” resolve e o que não resolve

A intenção de carregar reduz a relevância da oscilação para um objetivo cujo prazo casa com o vencimento. Ela não transforma risco de crédito, risco de liquidez nem risco de inflação em zero — e não impede que a vida imponha uma venda antes da hora. O curso 3 mediu isso: 62% de tudo que já saiu do Tesouro Direto saiu antes do vencimento.

11.O que duration realmente mede

Duration nasceu como uma medida do tempo econômico dos fluxos. Na sua forma original, de Macaulay, é a média ponderada dos momentos em que o investidor recebe os pagamentos, usando o valor presente de cada fluxo como peso.

Ela não é “quantos anos faltam para vencer”. Um título com cupons pode vencer em dez anos e ter duration bem menor, porque parte do capital econômico volta antes.

Duas medidas com o mesmo sobrenome

Macaulay duration: o tempo médio ponderado dos fluxos, em anos. Duration modificada: a aproximação da variação percentual do preço para uma pequena variação na taxa. A segunda deriva da primeira, e é a que interessa para risco.

12.O centro de gravidade dos fluxos

D_Macaulay = Σ [ t × VP(CF_t) ] ÷ Preço

No título zero cupom de cinco anos, todo o dinheiro chega no ano 5. Sua duration de Macaulay é, portanto, exatamente cinco anos — prazo e duration coincidem, e é o único caso em que coincidem.

Agora o mesmo prazo com cupom anual de 10% e yield de 12%. O preço é 927,90 (a soma dos cinco cupons de 100 descontados mais os 1.000 do principal), e a conta de duration fica assim:

AnoFluxoValor presentet × VP
110089,2989,29
210079,72159,44
310071,18213,53
410063,55254,21
51.100624,173.120,83
Total927,903.837,29

As duas colunas estão arredondadas em dois decimais para caber na página: somadas como exibidas, dão 927,91 e 3.837,30 — um centavo a mais que os totais exatos, que são os usados na conta. Dividindo 3.837,29 por 927,90 chega-se a 4,14 anos. O título vence em cinco anos e seu centro de gravidade está em quatro anos e pouco — porque 303,73 dos 927,90 (32,7% do valor) voltam antes do vencimento.

A regra que fica

Quanto mais cedo o investidor recebe parcela relevante do dinheiro, menor a duration. Cupom alto encurta; ausência de cupom alonga até o limite do prazo.

13.Da medida de tempo para a medida de risco

A duration de Macaulay está em anos. Para virar sensibilidade de preço, divide-se pela taxa bruta:

D_modificada = D_Macaulay ÷ (1 + y)

No título com cupom do exemplo: 4,14 ÷ 1,12 = 3,69. E a aproximação de primeira ordem é a fórmula mais usada de toda a renda fixa:

ΔP / P ≈ − D_modificada × Δy

Se a taxa subir 0,50 ponto percentual, a estimativa é uma queda de 3,69 × 0,005 = 1,85% no preço. O sinal negativo é a relação inversa: taxa para cima, preço para baixo.

Por que “aproximação”

Porque a relação entre preço e taxa é curva, e essa fórmula é a reta tangente a ela. Para movimentos pequenos, a reta e a curva praticamente coincidem. O capítulo sobre convexidade mede exatamente onde elas deixam de coincidir.

14.O experimento natural: mesmo vencimento, cupom diferente

Até aqui, teoria. A pergunta empírica é outra: a duration realmente prevê quanto o preço oscila? Provar isso exige comparar dois títulos que sejam iguais em tudo, menos na estrutura de fluxos — porque, se qualquer outra coisa mudar, a comparação não vale.

Esse par existe na prateleira brasileira, e é um presente para quem estuda. O Tesouro vende, ao mesmo tempo, o Tesouro IPCA+ 2045 (que paga tudo no vencimento) e o Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais 2045 (que paga cupom a cada seis meses). Mesmo emissor, mesmo vencimento — 15/05/2045 —, mesmo indexador, mesmo risco de crédito, negociados no mesmo lugar, no mesmo horário. A única diferença é quando o dinheiro volta.

Tesouro IPCA+ 2045IPCA+ com Juros Semestrais 2045
Vencimento15/05/204515/05/2045
EmissorTesouro NacionalTesouro Nacional
IndexadorIPCA + juro realIPCA + juro real
Pagamentos até lá138
Duração de Macaulay23,40 anos13,15 anos
Duration modificada22,2112,47

A duration modificada de um é 1,781 vez a do outro. Se a teoria estiver certa, a volatilidade do preço deve seguir aproximadamente essa mesma proporção. Medindo a oscilação diária dos dois em 2.366 pregões (fevereiro de 2017 a agosto de 2026):

MedidaSem cupomCom cupomRazão
Duration modificada22,2112,471,781×
Volatilidade diária medida1,7261%0,9462%1,824×
Erro da previsão2,4%

Dois títulos, o mesmo vencimento, 78% de diferença no risco de preço

Ninguém olhando “vence em 2045” nos dois consegue distinguir o risco. Quem olha a duration acerta a proporção com 2,4% de erro, usando só a estrutura de fluxos e a taxa do dia — sem olhar um único preço histórico.

15.🔴 MEDIÇÃO — O teste repetido em 19 pares

🔴 MEDIÇÃO CASE DE VALOR

Fonte: Tesouro Transparente — Preços e Taxas dos Títulos Públicos. · Data-base: 2004 a 14/08/2026. · Amostra: 19 pares de títulos com o MESMO vencimento e mesmo emissor, diferindo só no cupom — do Prefixado 2008 ao IPCA+ 2045, durations de 0,95 a 22,21 anos. · Limitação: os pares compartilham o período em que existiram, então regimes de juros diferentes pesam de forma desigual entre eles; e a volatilidade realizada é medida sobre o preço publicado, que já embute o spread do programa.

Um par pode ser coincidência. O Tesouro Direto oferece esses gêmeos desde 2005, e 19 pares têm série suficiente para medir — do Prefixado 2008 ao IPCA+ 2045, cobrindo durations de 0,95 a 22,21 anos e regimes de juros que vão da crise de 2008 ao ciclo atual.

MESMO VENCIMENTO, CUPOM DIFERENTE — E O PREÇO OSCILA NA PROPORÇÃO DA DURATION19 pares do Tesouro Direto · mesmo emissor, mesmo vencimento, mesmo indexador · 2004–2026se a duration prevê a oscilação, os pontos caem sobre a diagonal — e caem1,1×1,1×1,2×1,2×1,3×1,3×1,4×1,4×1,5×1,5×1,6×1,6×1,7×1,7×1,8×1,8×previsão perfeita da durationPrefixado 2029IPCA+ 2035IPCA+ 2045quantas vezes o título sem cupom tem MAIS duration que o gêmeo com cupomrazão das volatilidadeserro mediano de +1,6% — 18 dos 19 pares abaixo de 5%. O vencimento é o mesmo nos dois títulos.
Cada ponto é um par de títulos com o mesmo vencimento. No eixo horizontal, quantas vezes o título sem cupom tem mais duration que o gêmeo com cupom; no vertical, quantas vezes ele oscilou mais na prática. A diagonal é a previsão perfeita.

O erro mediano é de +1,6%, e 18 dos 19 pares ficam abaixo de 5%. O maior desvio é de +5,4%, num par de 2012. Não existe ponto fora da diagonal por uma distância que mudasse qualquer decisão.

Nota de método

A volatilidade aqui é a da marcação pura: para cada dia, recalculamos o preço dos mesmos fluxos com a taxa de ontem e com a de hoje, isolando o efeito da taxa. Nos sete pares com série diária completa (de 2016 em diante), o retorno total — com o cupom devolvido à série — dá a mesma resposta, com erro mediano de 2,4%. Medir só a variação do preço, sem devolver o cupom, inflaria a volatilidade do título com cupom em cerca de 40%: o preço cai no dia do pagamento porque o dinheiro saiu, não porque o título piorou.

Um detalhe secundário do experimento merece nota: os gêmeos não negociam exatamente à mesma taxa. A diferença medida vai de −10,2 a +5,6 pontos-base. Faz sentido — eles ocupam pontos diferentes da curva, porque a duração média do dinheiro é diferente. Mesmo vencimento não é mesmo prazo econômico.

16.O que aumenta a duration

FatorEfeito sobre a duration
Vencimento mais longoAumenta.
Cupom menorAumenta.
Fluxos concentrados no finalAumenta.
Yield mais altoEm geral reduz a duration de títulos com cupom, porque desconta mais fortemente os fluxos distantes.

Na prateleira real de 14 de agosto de 2026, esses fatores aparecem lado a lado. Repare que o Prefixado 2032 e o IPCA+ com Juros Semestrais 2032 vencem no mesmo ano e têm durations de 4,66 e 4,67 — praticamente iguais, por coincidência de estrutura — enquanto o IPCA+ 2035 e o IPCA+ com Juros Semestrais 2037 vencem dois anos depois um do outro e mesmo assim o primeiro é mais sensível:

TítuloTaxaDuration modificadaConvexidade
Prefixado 202713,52%0,330,40
Prefixado 202914,25%2,066,05
Prefixado 203214,64%4,6625,77
Prefixado c/ juros semestrais 203514,70%4,7533,38
IPCA+ 20298,04%2,518,64
IPCA+ c/ juros semestrais 20328,11%4,6728,50
IPCA+ c/ juros semestrais 20377,81%7,1569,51
IPCA+ 20357,98%8,0472,10
IPCA+ c/ juros semestrais 20457,61%9,91146,81
IPCA+ 20457,45%17,34316,65
IPCA+ 20507,40%22,20513,61

Duas linhas que resumem o capítulo

O Prefixado c/ juros semestrais 2035 vence oito anos depois do Prefixado 2027 e tem 14 vezes mais duration. E o IPCA+ 2050 vence cinco anos depois do IPCA+ 2045 e tem 28% mais duration — mas 62% mais convexidade. Prazo e risco de preço não crescem no mesmo ritmo.

17.DV01: sensibilidade em dinheiro

Duration fala em percentual. Quando é preciso comparar posições de tamanhos diferentes — ou somar o risco de uma carteira inteira —, o percentual atrapalha. O DV01 (de dollar value of 01, o valor de um ponto-base) traduz a mesma ideia em reais:

DV01 ≈ Preço × D_modificada × 0,0001

No título com cupom do exemplo (preço 927,90, duration modificada 3,69), o DV01 é de R$ 0,34 por unidade. Se você tiver mil unidades, cada ponto-base de variação na taxa move R$ 342 no valor da posição. A conta escala proporcionalmente.

Por que isso é mais útil do que parece

Duas posições podem ter valores muito diferentes e o mesmo DV01 — e, para risco de juros, elas são equivalentes. É a única medida que permite dizer “esta posição pequena tem mais risco de taxa do que aquela grande” sem que a frase soe estranha.

18.🔴 MEDIÇÃO — O DV01 do Tesouro Direto inteiro

🔴 MEDIÇÃO CASE DE VALOR

Fonte: Tesouro Transparente — Estoque por título e competência, combinado com a duration de cada papel na data. · Data-base: junho de 2026 (estoque) e 14/08/2026 (preços). · Amostra: R$ 262,47 bilhões, o patrimônio de todos os investidores do programa. · Limitação: a duration de RendA+ e Educa+ é implícita no spread de compra e venda, não calculada de fluxo; e o DV01 mede sensibilidade instantânea, não a perda de quem carrega até o vencimento.

Se o DV01 soma, ele pode ser calculado para qualquer conjunto de posições — inclusive para todas as posições de todos os investidores do Tesouro Direto ao mesmo tempo. O Tesouro publica o estoque por título e competência; combinando isso com a duration de cada papel na data, sai um número que nenhum relatório mostra.

Estoque do Tesouro Direto — junho de 2026Valor
Patrimônio total dos investidoresR$ 262,47 bilhões
DV01 do programa inteiroR$ 142,15 milhões por ponto-base
Duration modificada média5,42 anos

Ou seja: um deslocamento paralelo de um único ponto-base em toda a curva move R$ 142 milhões no patrimônio conjunto dos investidores do Tesouro Direto. Um dia de 25 pontos-base — variação que a taxa faz ou supera em 4,4% dos pregões — move R$ 3,6 bilhões.

Mais interessante que o total é a distribuição. Onde está o dinheiro não é onde está o risco:

PESO FINANCEIRO NÃO É PESO DE RISCO — O ESTOQUE INTEIRO DO TESOURO DIRETOjunho de 2026 · R$ 262,47 bilhões · risco medido em DV01 (R$ 142,15 milhões por ponto-base)a mesma carteira, medida em dinheiro e medida em sensibilidade a jurosONDE ESTÁ O DINHEIRO35,7%Tesouro Selic34,9%IPCA+ (sem cupom)8,6%IPCA+ c/ cupom12,6%PrefixadoONDE ESTÁ O RISCO DE TAXA49,1%IPCA+ (sem cupom)12,3%IPCA+ c/ cupom31,8%RendA+ e Educa+↑ 35,7% do capital em Tesouro Selic vira 0,03% do risco↑ RendA+ e Educa+: 6,9% do dinheiro carregam 31,8% do risco de taxa do programadois títulos sozinhos — RendA+ 2084 e IPCA+ 2045 — respondem por 35,2% do risco e 7,3% do dinheiro.
A mesma carteira, medida em reais aplicados e medida em sensibilidade a juros. O Tesouro Selic ocupa mais de um terço do capital e praticamente nada do risco; RendA+ e Educa+ fazem o caminho inverso.
Família% do capital% do risco de taxaDuration modificada
Tesouro Selic35,7%0,03%≈ 0
IPCA+ (sem cupom)34,9%49,1%7,63
IPCA+ com juros semestrais8,6%12,3%7,74
RendA+ e Educa+6,9%31,8%24,97 (média)
Prefixado (as duas formas)12,6%6,8%2,91

Dois títulos carregam mais de um terço do risco

O RendA+ 2084 sozinho tem 2,5% do dinheiro e 19,7% do risco de taxa de todo o programa — é a maior posição de risco do Tesouro Direto, e não a maior posição financeira. Somado ao IPCA+ 2045 (4,8% do dinheiro, 15,5% do risco), os dois concentram 7,3% do capital e 35,2% do risco.

Há ainda R$ 3,50 bilhões no Tesouro Reserva, que não aparece nesta conta por um motivo instrutivo: ele não tem marcação a mercado, e por isso não está na série de preços e taxas. Não é que o risco seja zero — é que não existe preço de mercado publicado para ele.

O que não é exato aqui

A duration de RendA+ e Educa+ não sai do fluxo de caixa, porque o calendário de pagamentos mensais dessas famílias não está publicado num formato que permita reconstruí-lo com segurança. Ela vem da duration implícita no spread entre as pontas de compra e venda (o Tesouro cobra 0,12 ponto percentual fixo desde 2016, e o desconto que isso provoca no preço é proporcional à duration) — método validado no curso 3 contra as durations exatas dos demais títulos, com erro abaixo de 3%. As outras cinco famílias da tabela são exatas.

19.Por que a duration não basta

A relação entre preço e taxa é curva. A duration usa uma reta tangente para aproximar um pequeno trecho dessa curva — e, quanto maior a mudança de taxa, mais a reta se afasta da curva.

Repare que o erro tem sempre o mesmo sinal: como a curva é convexa (encurva para cima), a reta fica abaixo dela nos dois lados. Isso significa que a duration sozinha subestima o ganho quando a taxa cai e superestima a perda quando a taxa sobe. O erro é sistemático, não aleatório.

Duas grandezas, dois papéis

Duration é a inclinação local da curva. Convexidade descreve como essa inclinação muda quando a taxa se move. Uma é a velocidade; a outra é a aceleração.

20.Duration mais convexidade

Somando o termo de segunda ordem, a estimativa fica assim:

ΔP/P ≈ − D_modificada × Δy + ½ × C × (Δy)²

O termo da convexidade é sempre positivo (porque (Δy)² é positivo), o que reproduz exatamente o comportamento descrito acima: ele acrescenta ganho quando a taxa cai e reduz a perda quando ela sobe.

No título zero cupom de cinco anos a 12%, a duration modificada é 4,46 e a convexidade é 23,92. Para uma alta de 1 ponto percentual:

EstimativaResultadoErro
Só duration−4,46%0,12 p.p.
Duration + convexidade−4,34%0,01 p.p.
Preço exato (567,43 → 542,76)−4,35%

A convenção usada aqui

Convexidade é calculada como Σ t(t+1)·VP(CF)/P ÷ (1+y)², com t em anos úteis — a mesma convenção que a ANBIMA publica nos seus índices, verificada dígito a dígito num título público durante a produção deste curso. Outras convenções existem e produzem números diferentes para o mesmo papel; o que não pode é misturar uma convexidade de uma fonte com uma duration de outra.

21.🔴 MEDIÇÃO — Quando a duration sozinha basta

🔴 MEDIÇÃO CASE DE VALOR

Fonte: Tesouro Transparente — Preços e Taxas. · Data-base: 2004 a 14/08/2026. · Amostra: 24.897 observações diárias de Tesouro Prefixado. · Limitação: a régua vale para títulos sem cupom da curva prefixada; carteiras com dispersão de fluxos (barbell) têm convexidade maior e cruzam o limiar antes.

Livros costumam dizer que “a convexidade importa em movimentos grandes”, sem definir grande. Dá para responder isso com precisão, e a resposta é útil na prática.

Tomamos 24.897 observações diárias de Tesouro Prefixado entre 2004 e 2026. Em cada uma, comparamos o efeito exato da variação da taxa sobre o preço com o que a duration sozinha e a duration mais convexidade teriam previsto:

Variação da taxa no dia% dos pregõesErro só com durationErro com convexidade
0 a 5 bps47,68%0,000005%0,0000000%
5 a 10 bps26,58%0,0001%0,0000%
10 a 25 bps21,36%0,0007%0,0000%
25 a 50 bps3,65%0,0040%0,0000%
50 a 100 bps0,63%0,0157%0,0001%
Acima de 100 bps0,10%0,0509%0,0008%
A CONVEXIDADE É UMA CORREÇÃO PARA O DIA RARO — E É NELE QUE ELA VALE MAIS24.897 pregões-título de Tesouro Prefixado, 2004–2026 · erro MEDIANO da estimativa de preçoescala logarítmica: cada linha da grade é 10× mais erro que a de baixo1e-9%1e-8%1e-7%1e-6%1e-5%1e-4%0,001%0,010%0,100%0–547,7%5–1026,6%10–2521,4%25–503,6%50–1000,63%> 1000,10%variação da taxa no dia (pontos-base) · abaixo, a fatia dos pregões em cada faixasó durationduration + convexidade95,6% dos pregões cabem nas três primeiras faixas, em que a reta sozinha erra menos de 0,001% do preço.
Erro mediano das duas estimativas por faixa de variação da taxa, em escala logarítmica — cada linha da grade é dez vezes mais erro que a de baixo. A distância entre as barras é o valor da convexidade em cada regime.

A leitura prática: em 95,6% dos pregões a taxa andou menos de 25 pontos-base, e nessa região a reta da duration erra menos de 0,001% do preço. Para o dia típico, a convexidade é irrelevante — a mediana de variação diária da taxa é de apenas 5 pontos-base.

A régua

Abaixo de ~25 bps, a duration sozinha resolve. Entre 25 e 100 bps, o erro ainda é pequeno mas já mensurável. Acima de 100 bps — 24 ocorrências em 22 anos, 0,10% da amostra — a convexidade deixa de ser refinamento e vira a diferença entre acertar e errar.

22.🔴 MEDIÇÃO — O pior pregão de 22 anos

🔴 MEDIÇÃO CASE DE VALOR

Fonte: Tesouro Transparente — Preços e Taxas. · Data-base: a série completa até 14/08/2026. · Amostra: o pregão de maior variação de taxa da série (+199 bps num papel de duration modificada 5,44). · Limitação: é um caso extremo por construção — serve para mostrar onde a aproximação de 1ª ordem quebra, não para descrever um dia típico (47,7% dos pregões variam menos de 5 bps).

O dia mais violento de toda a série foi um em que a taxa de um Tesouro Prefixado com duration modificada de 5,44 subiu 199 pontos-base. O preço caiu 10,17% em uma sessão.

EstimativaResultadoErro
Só duration−10,82%0,65 p.p.
Duration + convexidade−10,14%0,03 p.p.
Variação real do preço−10,17%

A duration sozinha exagerou a perda em 0,65 ponto percentual — que é justamente o sinal da convexidade positiva. Somando o termo de segunda ordem, o erro cai vinte vezes.

Onde a apólice é acionada

Repare na inversão: a convexidade é desnecessária em 95,6% dos dias e decisiva exatamente no dia em que alguém está tentando entender o que aconteceu com o próprio dinheiro. É o mesmo padrão de qualquer proteção — irrelevante quase sempre, essencial na exceção.

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Quanto o preço anda quando a taxa anda

Interativo

Escolha um título real da prateleira de 14/08/2026, mova a taxa e compare as três respostas: a reta da duration, a parábola com convexidade e o preço exato.

Taxa hoje
7,98%
Duration modificada
8,04
Convexidade
72,10
Estimativa da variação do preçoResultadoErro contra o exato
Só duration (a reta)-8,04%-0,349 p.p.
Duration + convexidade-7,68%+0,012 p.p.
Preço exato-7,69%
A assimetria da convexidade

A mesma variação para BAIXO vale +8,41% e para CIMA, -7,69%. A diferença é de 0,72 p.p. — e é ela que a duration sozinha não enxerga.

Em dias de juro contratado

O título rende 0,0305% por dia útil. Um movimento desse tamanho equivale a 252 dias úteis de carrego — apagados ou adiantados de uma vez.

Preços, taxas e fluxos publicados pelo Tesouro Direto em 14/08/2026; o cálculo usa prazo em anos úteis (dias úteis ÷ 252), a mesma convenção do Tesouro e da ANBIMA. Nos títulos de IPCA+, a taxa é o juro REAL: o carrego mostrado é o do juro real, e a inflação do período entra por cima dele. Simulação educacional de um deslocamento paralelo da curva — movimentos reais raramente são paralelos, e é por isso que a seção sobre os limites da medida existe.

23.A assimetria, em dinheiro

Em títulos tradicionais sem opções embutidas, a convexidade é positiva. A consequência prática é uma assimetria: para movimentos simétricos de taxa, a alta de preço quando a taxa cai é maior, em módulo, que a queda quando a taxa sobe na mesma magnitude.

Isso soa abstrato até virar número. Aplicando um choque de ±300 pontos-base a cada título da prateleira de 14/08/2026, com o preço exato (não a aproximação):

TítuloDuration mod.Se a taxa cair 3 p.p.Se a taxa subir 3 p.p.Assimetria
Prefixado 20270,33+1,00%−0,97%0,04 p.p.
Prefixado 20292,06+6,46%−5,92%0,54 p.p.
Prefixado 20324,66+15,22%−12,89%2,33 p.p.
IPCA+ 20358,04+27,72%−21,17%6,54 p.p.
IPCA+ c/ juros semestrais 20459,91+37,65%−24,11%13,54 p.p.
IPCA+ 204517,34+69,46%−40,13%29,34 p.p.
IPCA+ 205022,20+96,51%−48,16%48,35 p.p.

No IPCA+ 2050, três pontos percentuais de queda no juro real quase dobram o valor do título, enquanto três pontos de alta cortam menos da metade. A assimetria de 48 pontos percentuais entre os dois lados é a convexidade de 513,61 aparecendo em dinheiro.

Isso não faz do título longo uma aposta melhor

A mesma estrutura que produz a assimetria produz a volatilidade: o IPCA+ 2050 é o papel que mais oscila da prateleira, e a assimetria só se realiza para quem estiver posicionado quando o movimento vier. Não pergunte “qual tem mais convexidade?”. Pergunte qual é a duration, qual é a convexidade, qual é o preço, qual é o fluxo — e se esse conjunto combina com o seu prazo.

24.Convexidade não é almoço grátis

É tentador ler a tabela anterior como “títulos longos são melhores porque ganham mais do que perdem”. A leitura é falsa por dois motivos.

  1. A assimetria é condicional a um movimento simétrico. Ela diz o que acontece SE a taxa cair 3 p.p. e SE subir 3 p.p. Não diz nada sobre qual dos dois é mais provável — isso é a curva e as expectativas, assunto do curso 2 da trilha.
  2. Maior convexidade vem acompanhada de maior volatilidade. O papel que oferece a assimetria mais atraente é o mesmo que exige atravessar as maiores oscilações intermediárias. No caso do IPCA+ 2050, a duration de 22,20 significa que 1 ponto percentual de alta já custa quase 20% do valor.

O que a convexidade realmente é

Uma descrição da geometria da relação preço-taxa. Ela não é uma fonte de retorno. O retorno vem do preço pago, das taxas, dos fluxos, do crédito e do horizonte — a convexidade só descreve o formato do caminho entre eles.

25.Quando a medida exige cuidado

Duration e convexidade são ferramentas, não oráculos. Elas dependem de hipóteses sobre os fluxos e sobre como as taxas se movem — e há situações em que essas hipóteses deixam de valer.

  • Movimentos não paralelos da curva. Uma única duration resume a sensibilidade a um deslocamento uniforme. Se a ponta curta sobe e a longa cai, o número sozinho não descreve o que aconteceu.
  • Opções embutidas. Títulos com resgate antecipado, pré-pagamento ou conversão podem ter os próprios fluxos alterados quando as taxas mudam — o curso 1 mediu que 83,92% das debêntures dão ao emissor o direito de encerrar antes do prazo.
  • Crédito privado. Spread e liquidez podem se mover ao mesmo tempo que a curva soberana, e a duration não separa as três coisas.
  • Indexadores e convenções. Cada instrumento tem sua contagem de dias, seu calendário e sua metodologia. Misturar convenções produz números plausíveis e errados.

O que se usa quando o fluxo pode mudar

Quando os próprios fluxos reagem às taxas, a saída é a duration efetiva: em vez de derivar a fórmula, reprecifica-se o instrumento em cenários de alta e de queda e mede-se a diferença. É mais trabalhoso e é a única coisa que funciona para papel com opção embutida.

26.Carrego: o retorno que passa com o tempo

Até aqui, tudo neste curso tratou do efeito da taxa. Falta a outra metade: mesmo com a taxa parada, o título rende. Esse retorno pela simples passagem do tempo é o carrego.

A conta é direta: um título com taxa de 14% ao ano rende (1,14)^(1/252) − 1 = 0,052% por dia útil. Em todas as faixas de duration medidas na prateleira brasileira, o carrego diário fica em torno de 0,045% — não é ele que varia entre os títulos.

As duas forças

Um título carrega remuneração todos os dias, enquanto seu preço de mercado pode subir ou cair. O que você vê no extrato é sempre a soma dessas duas dinâmicas — nunca uma delas isolada.

27.Quantos dias de carrego um dia ruim apaga

Se o carrego é praticamente igual para todos os títulos e a marcação escala com a duration, a conclusão é aritmética: quanto mais longo o papel, mais fácil um único dia de mercado engolir o juro de muitos dias. Medindo isso em 27.192 pregões-título:

DurationPregões com resultado negativoDia mediano ruimPior diaEquivale a
Até 1 ano7,7%−0,069%−1,24%27 dias de carrego
1 a 2 anos31,6%−0,119%−3,15%69 dias
2 a 3 anos39,8%−0,189%−5,27%123 dias
3 a 5 anos44,0%−0,307%−8,71%215 dias
Acima de 5 anos46,1%−0,431%−10,17%225 dias

Duas leituras saem daí. A primeira é a coluna dos pregões negativos: num título de duration curta, o carrego ganha da marcação em 92,3% dos dias. Acima de cinco anos, a proporção cai para pouco mais da metade — o dia negativo deixa de ser exceção.

A segunda é a última coluna. No título longo, o pior pregão da amostra apagou 225 dias úteis de juro contratado — quase dez meses de carrego em uma sessão. É a tradução mais concreta possível de por que prazo e horizonte precisam conversar.

Carry não elimina marcação

Um papel pode acumular juros positivos todos os dias e ainda assim apresentar retorno negativo numa janela, se a taxa ou o spread subirem o suficiente. A recíproca também vale: em janelas longas o carrego acumula e a marcação tende a se dissolver, porque o preço converge para o valor de face.

28.Rolldown: a curva muda mesmo quando não se mexe

Mesmo que a estrutura a termo permanecesse exatamente igual, um título envelhece. Um papel que hoje tem cinco anos para vencer terá quatro anos daqui a doze meses, e passará a ser precificado em outro ponto da curva.

Esse efeito se chama rolldown. Numa curva ascendente, o título “desce” para um vértice de taxa menor conforme envelhece — e taxa menor significa preço maior, um ganho que não depende de nenhuma mudança de mercado. Numa curva invertida, o efeito é o contrário.

Na curva de juros reais de 14/08/2026, por exemplo, o vértice de 5 anos estava em 8,27% e o de 3 anos em 8,25%: a diferença é pequena, e o rolldown nesse trecho valeria pouco. Já entre 10 e 8 anos, a curva ia de 7,89% para 8,05% — subindo conforme o prazo encurta, o que torna o rolldown negativo nesse trecho.

Uma componente, não uma promessa

Rolldown é um componente de análise, não uma previsão. A curva real muda de formato, as taxas variam e eventos de crédito podem dominar o resultado. Ele explica parte do retorno depois que ele aconteceu; ele não o garante antes.

29.Duration e risco de reinvestimento

Títulos com cupons devolvem dinheiro antes do vencimento. Isso reduz a sensibilidade do preço — foi o que o experimento dos gêmeos mediu — mas cria uma contrapartida: os fluxos intermediários precisam ser reinvestidos a taxas futuras desconhecidas.

Sem cupomCom cupom
Concentração no vencimentoMáximaParcial
Duration (risco de preço)MaiorMenor
Risco de reinvestimentoNenhumPresente a cada pagamento
Retorno até o vencimentoTrava a taxa contratadaDepende das taxas futuras dos cupons

É por isso que o gêmeo com cupom não é simplesmente “a versão menos arriscada” do gêmeo sem cupom: ele troca risco de preço por risco de reinvestimento. Historicamente, a duration de Macaulay nasceu ligada exatamente a esse equilíbrio — é o prazo em que os dois riscos se compensam, sob certas hipóteses.

Aplicação prática

Quem tem uma data-alvo definida e quer travar a taxa contratada até lá tende a se dar melhor com o título sem cupom de vencimento próximo dessa data. Quem precisa de fluxo de caixa periódico aceita a incerteza do reinvestimento em troca do dinheiro chegando antes.

30.Não existe uma única taxa de juros

O curso 2 da trilha mostrou que o mercado trabalha com uma estrutura a termo: prazos diferentes têm taxas diferentes. A consequência para este curso é direta — um título não reage à “Selic”. Ele reage aos trechos da curva relevantes para os seus fluxos.

Um movimento de política monetária afeta mais a ponta curta. Uma mudança de percepção fiscal ou inflacionária pode deslocar fortemente os prazos longos. Expectativas podem mexer nos trechos intermediários sem tocar nas pontas.

A consequência que surpreende

Dois títulos do mesmo emissor e do mesmo indexador podem ter desempenhos bem diferentes no mesmo dia, simplesmente porque seus fluxos estão concentrados em trechos distintos da curva. Não é anomalia nem erro de preço.

31.Paralelo, inclinação e curvatura

MovimentoO que acontece
Deslocamento paraleloTaxas sobem ou caem de forma parecida em vários vencimentos.
Steepening (inclinação)A diferença entre taxas longas e curtas aumenta.
Flattening (achatamento)A diferença entre taxas longas e curtas diminui.
Mudança de curvaturaO trecho intermediário se move de forma distinta das pontas.

A duration resume a sensibilidade a um movimento — o paralelo. Um único número não captura perfeitamente movimentos não paralelos, e em gestão profissional usa-se sensibilidade por vértice (key rate duration), que é a mesma ideia repartida em pedaços da curva.

O que basta para o investidor

Não é necessário construir um modelo de mesa de renda fixa. Basta ter o reflexo de perguntar, ao ler que “os juros subiram”, quais juros subiram — e se o seu título está exposto àquele trecho.

32.Dois títulos públicos, o mesmo choque

Um exemplo com a prateleira real. Compare o Prefixado 2029 e o Prefixado 2032, mesmo emissor, mesmo indexador, sem cupom nos dois:

Prefixado 2029Prefixado 2032
Duration modificada2,064,66
Convexidade6,0525,77
Se a curva subir 1 p.p. (paralelo)−2,03%−4,53%
Se a curva subir 3 p.p.−5,92%−12,89%
Se apenas o trecho acima de 4 anos subir 1 p.p. (ilustração)≈ 0−4,53%

A última linha é a que os materiais costumam omitir. Num movimento não paralelo — em que só o trecho longo se mexe —, o título curto praticamente não sente nada e o longo sente tudo. O risco não vem de “ser prefixado”: vem de onde, na curva, o dinheiro está.

33.A taxa tem mais de uma camada

Em crédito privado, a taxa exigida pode ser lida como uma soma:

taxa do crédito ≈ taxa-base (curva soberana) + spread de crédito

O spread é a remuneração adicional em relação a títulos públicos comparáveis em prazo e características — é assim que a própria ANBIMA o define e o publica no mercado secundário de debêntures.

A consequência que muda o diagnóstico

Mesmo que a curva soberana fique parada, o preço de um crédito privado pode cair se o mercado passar a exigir um spread maior daquele emissor. E o contrário também: a curva pode subir e o spread fechar, deixando o preço quase intacto. Quem olha só a Selic não consegue explicar nem um caso nem o outro.

34.O spread também marca a mercado

MovimentoLeituraEfeito no preço
Spread abreO mercado passa a exigir prêmio maior.Preço cai.
Spread fechaO mercado aceita prêmio menor.Preço sobe.

Abertura pode refletir deterioração do emissor, mudança setorial, aumento da aversão a risco no mercado inteiro, piora de liquidez ou uma combinação disso. Fechamento pode vir de melhora percebida, demanda forte ou normalização.

Duas perguntas, sempre nesta ordem

Risco de taxa: o que aconteceu com a curva? Risco de crédito: o que aconteceu com o spread? Sem separar as duas, qualquer diagnóstico é chute — e a próxima seção mostra que a separação é medível.

35.🔴 MEDIÇÃO — Curva ou crédito? A decomposição medida

🔴 MEDIÇÃO CASE DE VALOR

Fonte: ANBIMA — mercado secundário de debêntures (taxa indicativa) e Estrutura a Termo das Taxas de Juros do mesmo dia. · Data-base: 121 pregões, de 23/02/2026 a 14/08/2026. · Amostra: 578 séries de IPCA+ presentes nas duas pontas. · Limitação: a janela começa em 23/02/2026 porque é a partir daí que a ANBIMA disponibiliza o arquivo diário; e a decomposição só é possível nas séries de IPCA+, que têm curva real de referência.

Uma debênture de IPCA+ passa de IPCA + 6,0% para IPCA + 7,0% e o preço cai. Quanto disso é a curva de juros reais soberana e quanto é o mercado exigindo mais prêmio daquele emissor? A pergunta parece impossível de responder de fora — e não é.

A ANBIMA publica, todo pregão, a taxa indicativa de cada debênture negociada; e publica também a curva de juros reais do mesmo dia. Subtraindo uma da outra no prazo de cada papel, sobra o spread. Baixamos 121 pregões diários (23/02 a 14/08/2026) e acompanhamos 578 séries de IPCA+ presentes nas duas pontas.

A MESMA DEBÊNTURE, TRÊS PERGUNTAS — E TRÊS RESPOSTAS DIFERENTES578 séries de IPCA+ · 121 pregões diários (23/02 a 14/08/2026) · ANBIMAcurva soberana em roxo · spread de crédito em douradocurvaspreadNO DIA A DIAvariância da taxa exigida82,3%17,7%o preço acompanha a curvaEM SEIS MESESquanto a taxa subiu+60,1 bps+55,9 bpsmetade e metadeENTRE OS PAPÉISdispersão p90 − p1032 bps97 bpso crédito é o que separaA taxa que se move todo dia é a do Tesouro. A taxa que separa um emissor do outro é a de crédito.No período, o preço mediano caiu 5,81%: 3,31 p.p. de curva e 2,56 p.p. de spread.
A mesma amostra respondendo a três perguntas diferentes. No dia a dia, o papel acompanha a curva soberana. Ao longo de meses, curva e spread pesam quase igual. E o que separa um papel do outro é quase todo spread.
PerguntaCurva soberanaSpread de crédito
O que move a taxa no dia a dia? (variância diária)82,3%17,7%
O que fez a taxa subir em seis meses?+60,1 bps+55,9 bps
O que separa um papel do outro? (dispersão p90−p10)32 bps97 bps

São três respostas diferentes para o que parece a mesma pergunta, e cada uma é útil para uma coisa. No curto prazo, uma debênture se comporta quase como um título público: quatro quintos do que ela faz num dia é a curva. Na janela de meses, o spread acumula e contribui tanto quanto a curva. E na comparação entre papéis — que é onde a análise de crédito vive — a curva é praticamente irrelevante, porque é comum a todos: o que distingue um emissor do outro é três vezes mais spread do que curva.

Validação por um segundo caminho

O spread aqui foi calculado contra a curva de juros reais da ANBIMA no prazo de cada papel. Refazendo a conta por um caminho independente — contra a NTN-B de referência que a própria ANBIMA indica para cada debênture, com a taxa vinda do Tesouro Direto — a abertura de spread no período sai em +65,9 bps contra os +55,9 bps do primeiro método. Os dois caminhos concordam na ordem de grandeza e no sinal; a faixa honesta é de 56 a 66 pontos-base.

36.O que o preço fez com isso

Traduzindo os movimentos de taxa em preço, com a duration mediana de 5,28 anos da amostra:

ComponenteEfeito no preço mediano em seis meses
Curva soberana−3,31%
Spread de crédito−2,56%
Total−5,81%

Um investidor que abriu o extrato em agosto e viu a debênture 5,8% mais barata teria toda a razão de investigar o emissor. Mas mais da metade dessa queda não tem nada a ver com ele: é a mesma queda que atingiu o Tesouro. Só 9,7% dos papéis tiveram curva e spread andando em sentidos opostos — no resto, os dois empurraram para o mesmo lado.

E as debêntures de DI + spread?

Nessas, a taxa indicativa publicada já é o spread, porque o indexador flutua junto com a curva. Nos mesmos 121 pregões, o spread mediano dos 509 papéis de DI+ ficou praticamente parado — saiu de 100 para 98 pontos-base. É a diferença estrutural entre um papel pós-fixado e um prefixado em termos reais: no primeiro, a curva passa direto; no segundo, ela marca.

37.Duration não substitui análise de crédito

Uma debênture longa pode ter alta sensibilidade à curva e, ao mesmo tempo, risco relevante de spread. A duration ajuda a quantificar parte do risco de mercado. Ela não diz nada sobre se a empresa conseguirá pagar.

  • Duration e convexidade — sensibilidade a taxa.
  • Spread e curva de crédito — o prêmio que o mercado exige por aquele risco.
  • Balanço, caixa, alavancagem e covenants — capacidade de pagamento.
  • Garantias, senioridade e estrutura — recuperação potencial se algo der errado.
  • Liquidez — a possibilidade concreta de sair.

Nenhuma fórmula substitui a leitura do emissor

A duration adiciona uma lente de risco de mercado ao crédito. Ela não substitui nenhuma das outras quatro linhas acima — e o curso anterior da trilha mediu, no mercado brasileiro, o quanto cada uma delas costuma ser negligenciada.

38.CRI e CRA: quando o próprio fluxo é incerto

CRI e CRA podem ter estruturas com amortizações irregulares, eventos de pré-pagamento ou características que fazem o fluxo efetivo divergir de um título bullet simples. Isso altera o comportamento da duration e do reinvestimento ao mesmo tempo.

O problema é conceitual, não computacional: a duration é calculada a partir de um fluxo. Se o fluxo em si é incerto — porque o devedor pode antecipar, porque a carteira pode amortizar mais rápido, porque uma cláusula muda o calendário —, a duration calculada descreve um cenário, não o instrumento.

A ordem certa

Primeiro entenda o contrato e os cenários de fluxo. Só depois calcule a sensibilidade. Fazer o contrário produz um número com aparência de precisão sobre uma hipótese que ninguém verificou.

39.Preço de referência não é promessa de execução

Em títulos privados, especialmente papéis pouco negociados, a precificação usa taxas indicativas, negócios observados, modelos e procedimentos de metodologia de mercado. A ANBIMA publica taxas indicativas para diversos títulos — mas o preço efetivamente obtido numa venda depende das condições de negociação no momento.

É a mesma distinção que aparece nos títulos públicos, só que mais aguda. No Tesouro Direto existe um comprador garantido (o próprio Tesouro), a um preço publicado, com um custo de saída conhecido — o curso 3 mediu esse custo, e ele vai de 0,057% a 5,012% conforme a duration do papel. Em crédito privado não há essa garantia.

A diferença que aparece na hora errada

Um título pode ter valor de referência publicado e, ainda assim, a venda imediata sair com desconto relevante se houver poucos compradores ou se o mercado estiver estressado. Liquidez é a variável que some exatamente quando é mais necessária.

40.Casar duration com objetivo

Uma carteira não precisa ter a menor duration possível. Precisa ter um risco coerente com o objetivo. Duration alta não é erro; duration alta num dinheiro que será usado em oito meses, é.

ObjetivoA pergunta de risco
Dinheiro em poucos mesesFaz sentido aceitar oscilação de taxa? (O estoque brasileiro responde: 35,7% do capital está em Tesouro Selic, com 0,03% do risco.)
Meta em 3 a 5 anosOs vencimentos estão alinhados com a data em que o dinheiro será usado?
Meta muito longaHá espaço para duration maior e para a volatilidade intermediária que vem junto?
Passivo conhecidoÉ possível casar fluxos, ou pelo menos a duration dos ativos, com a obrigação?

Duration não é boa nem ruim

Ela mede uma propriedade do título ou da carteira. A decisão de assumir mais ou menos duration depende do horizonte, da liquidez, do objetivo e da capacidade de atravessar o caminho — que é o que a figura da seção 8 mostrou de forma difícil de esquecer.

41.Imunização: casar o risco com o passivo

Imunização é o conjunto de técnicas que busca reduzir o impacto de movimentos de taxa sobre a capacidade de cumprir um compromisso futuro. A ideia clássica é aproximar a duration dos ativos da duration da obrigação, respeitando também os valores presentes.

A intuição é a que o experimento dos gêmeos deixou concreta: se a sua obrigação tem duration de 5 anos e a sua carteira também, uma alta de juros derruba o valor da carteira e o valor presente da obrigação aproximadamente na mesma proporção. A diferença entre os dois — que é o que importa — fica protegida.

A versão simples e útil

Se existe uma despesa numa data conhecida, faz sentido buscar títulos cujos vencimentos e sensibilidade estejam alinhados com essa data — e não com a data que rendia mais na tabela. Na prática, movimentos não paralelos, convexidade, crédito e liquidez exigem acompanhamento; mas o princípio já resolve a maior parte dos casos de pessoa física.

42.Estudo de caso: dois títulos públicos

Um investidor tem uma meta em três anos e está escolhendo entre dois títulos da prateleira de 14/08/2026. Ele olha as taxas e conclui que o de 2045 “paga menos”, porque 7,45% é menos que 8,04%.

Tesouro IPCA+ 2029Tesouro IPCA+ 2045
TaxaIPCA + 8,04%IPCA + 7,45%
Duration modificada2,5117,34
Convexidade8,64316,65
Se o juro real subir 1 p.p.−2,47%−15,85%
Se o juro real subir 3 p.p.−7,16%−40,13%
Pior dia da faixa de duration−5,27%−10,17%

O de 2029 paga uma taxa maior e tem cerca de um sétimo da sensibilidade (2,51 contra 17,34). Além disso, vence perto da data da meta — o que significa que, chegando lá, a marcação a mercado terá convergido para zero, como a figura da seção 8 mostrou. O de 2045, na mesma data, ainda teria 19 anos pela frente e um preço que dependeria inteiramente da curva daquele momento.

A conclusão que a taxa sozinha esconderia

Para essa meta, o título de taxa maior é também o de risco menor. Não é sempre assim — em 2026 a curva de juros reais estava com esse formato —, e é exatamente por isso que a comparação precisa ser feita com prazo, duration e objetivo na mesa, não só com o percentual anunciado.

43.Estudo de caso: uma debênture que caiu

Uma debênture de IPCA+ passou de IPCA + 6,0% para IPCA + 7,0% no mercado secundário e o preço caiu. O investidor quer saber se deve se preocupar. O caminho da investigação é este, na ordem:

PerguntaOnde se respondeO que a medição sugere
O juro real soberano do mesmo prazo subiu?Curva de juros reais da dataEm 2026, +60 bps em seis meses — sozinho, já explica boa parte.
O spread sobre o soberano aumentou?Taxa do papel menos a curva no seu prazoA abertura mediana do mercado foi de 56 a 66 bps no mesmo período.
Houve fato do emissor?Comunicados, balanço, rating, covenantsSe o spread do papel abriu muito mais que os 97 bps de dispersão típica, é sinal de algo específico.
A liquidez piorou?Volume negociado, intervalo indicativoPapel que some do arquivo ou tem intervalo indicativo largo está sendo negociado com desconto de liquidez.

Repare que 1 ponto percentual de abertura de taxa, no contexto medido, seria compatível com o mercado inteiro: 60 bps de curva mais 56 bps de spread somam 116 bps, e a debênture mediana fez exatamente isso. O sinal de alarme não é a queda: é a queda maior que a dos pares.

O que a taxa sozinha nunca diz

“IPCA + 7%” não revela quanto veio da curva real e quanto veio do prêmio específico daquele crédito. É a mesma taxa em dois mundos diferentes: num deles o emissor está igual e o país reprecificou; no outro, o país está igual e o emissor piorou.

44.Erros comuns

  • “Renda fixa não cai.” Cai em valor de mercado sempre que taxas ou spreads mudam. Em 46,1% dos pregões de um título longo o resultado do dia é negativo.
  • “Se a Selic caiu, todo título longo sobe.” A curva pode se mover de forma bem diferente da Selic corrente — inclusive no sentido oposto no trecho longo.
  • “Mesmo vencimento é mesmo risco.” Dois títulos com vencimento em 15/05/2045 oscilaram numa proporção de 1,8 para 1 em 2.366 pregões. Cupons, amortizações, indexador e estrutura mudam a duration.
  • “Duration é o prazo do título.” Não é: é uma medida econômica dos fluxos. Só coincidem no título sem cupom.
  • “Taxa maior sempre compensa.” Pode refletir mais risco de crédito, mais prazo ou pior liquidez — e o estudo de caso acima mostrou um exemplo em que a taxa maior vinha com risco menor.
  • “Se vou carregar até o vencimento, o preço nunca importa.” Importa se surgir necessidade de venda, se você quiser comparar alternativas ou se o objetivo mudar. E 62% do que já saiu do Tesouro Direto saiu antes do vencimento.
  • “Rating alto elimina spread.” Rating é apenas uma das informações de crédito — e o curso anterior mediu que, no mercado brasileiro de securitização, ele simplesmente não existe na maioria das operações.

A separação que resolve quase tudo

Sempre separe: fluxo contratual, preço atual, curva-base, spread de crédito e horizonte. Quase todo erro desta lista é a fusão de duas dessas cinco coisas numa só.

45.Checklist antes de interpretar uma oscilação

  1. Qual é o fluxo do título: pagamento único, cupons ou amortizações?
  2. Qual o vencimento e, principalmente, qual a duration aproximada?
  3. Qual curva serve de referência: nominal, real ou DI?
  4. O movimento foi na curva toda ou num trecho específico?
  5. Existe spread de crédito? Ele abriu ou fechou — e mais ou menos que o dos pares?
  6. Houve evento de emissor, rating, covenant ou garantia?
  7. Qual a liquidez e qual a qualidade do preço de referência exibido?
  8. O meu objetivo exige venda antes do vencimento?
  9. A oscilação está dentro do risco que eu pretendia assumir quando comprei?
  10. Estou comparando retorno bruto, líquido e risco no mesmo horizonte?

O que muda quando se responde a essas dez

Você deixa de enxergar renda fixa como uma taxa anunciada e passa a enxergar o instrumento como aquilo que ele é: um conjunto de fluxos, com um preço que varia e riscos que se somam.

46.Teste de compreensão

Dez perguntas. Quatro delas cobram as medições deste curso, não a teoria genérica — se você acertar essas quatro, aprendeu o que não estava no material de origem.

🧠

Quiz: você sabe por que o preço mudou?

Interativo

10 perguntas sobre marcação a mercado, duration, convexidade e a separação entre curva e crédito.

1. A taxa que o mercado exige por um título de fluxo fixo sobe. O preço dele:

2. Uma queda no valor de mercado de um título significa que o emissor:

3. Duration modificada é:

4. Dois títulos do Tesouro vencem na MESMA data, têm o mesmo emissor e o mesmo indexador; um paga cupom semestral e o outro não. Medindo 2.366 pregões do par IPCA+ 2045, o que se observou?

5. Para que serve a convexidade?

6. Em 24.897 pregões de Tesouro Prefixado medidos entre 2004 e 2026, quando a convexidade fez diferença prática?

7. No estoque do Tesouro Direto de junho de 2026 (R$ 262 bilhões), o Tesouro Selic respondia por 35,7% do dinheiro aplicado. Quanto ele representava do risco de taxa (DV01) do programa?

8. DV01 mede:

9. Uma debênture de IPCA+ caiu de preço. Medindo 578 séries em 121 pregões, o que a decomposição mostrou?

10. Levar o título até o vencimento elimina o efeito da marcação a mercado?

47.O que você deve levar deste curso

Renda fixa não é uma linha reta entre a compra e o vencimento. É um conjunto de fluxos cujo valor presente muda quando o mercado muda — e a linha só é reta em retrospecto, para quem chegou ao fim.

  • Preço é valor presente dos fluxos.
  • Taxa é o retorno exigido pelo mercado hoje.
  • Duration mede sensibilidade — e mede bem: em 19 pares de títulos reais, a razão das durations previu a razão das oscilações com 1,6% de erro mediano.
  • Convexidade melhora a aproximação exatamente onde ela mais falha: no dia raro, em que o erro cai de 0,65 para 0,03 ponto percentual.
  • Spread adiciona a camada de crédito — 82,3% do movimento diário de uma debênture é curva, mas o que separa um emissor do outro é três vezes mais spread que curva.
  • Horizonte determina se esse risco todo faz sentido para o objetivo.

Próximo: Curso 7 — Análise e Comparação de Títulos de Renda Fixa

Agora que sabemos medir risco de preço, podemos colocar títulos diferentes em uma mesma régua de comparação: taxa bruta e líquida, CDI equivalente, crédito e FGC quando aplicável, prazo, carência, liquidez, custos e tributação — tudo no mesmo horizonte. A pergunta deixa de ser “qual paga mais?” e passa a ser “quanto estou recebendo por qual conjunto de riscos e restrições?”.

48.Fontes e metodologia

FonteUso neste curso
Tesouro Transparente — Preços e Taxas (Tesouro Nacional)174.998 cotações de 2004 a 14/08/2026, com as duas pontas: base do experimento dos gêmeos, da régua da aproximação, do carrego e do caminho até o vencimento.
Tesouro Transparente — EstoquePosição por título e competência: base do DV01 do programa (junho de 2026).
Tesouro Nacional — documento de cálculo de rentabilidadeValidação do modelo de preço: o exemplo oficial reproduz nos quatro números.
ANBIMA — mercado secundário de debêntures (série diária)121 pregões de ~1.275 séries: decomposição curva × spread.
ANBIMA — estrutura a termo (ETTJ)Curva de juros reais em cada um dos 121 pregões, pelos parâmetros de Svensson.
ANBIMA — regra de marcação a mercado e divulgações de spreadDefinições de valor de referência, taxa indicativa e prêmio de crédito.
Portal do Investidor / CVMReferência educacional sobre marcação a mercado e comportamento de títulos públicos.

Nota metodológica. Os exemplos didáticos de fórmula usam capitalização anual simples para facilitar a intuição; todos reproduzem numa calculadora. As medições sobre títulos reais usam a convenção brasileira: prazo em anos úteis (dias úteis ÷ 252), contados da liquidação — o dia seguinte em que o programa opera — até o vencimento, exclusive. Convexidade calculada como Σ t(t+1)·VP(CF)/P ÷ (1+y)². O modelo foi validado contra os preços publicados antes de qualquer conclusão ser tirada: 96,1% das cotações de Tesouro Prefixado e 95,1% das de Prefixado com Juros Semestrais reproduzem dentro de 0,01%.

Limites declarados. A duration de RendA+ e Educa+ no cálculo do DV01 é implícita no spread de compra e venda, não calculada de fluxo — está sinalizado na seção correspondente. A decomposição curva × spread cobre a janela em que a ANBIMA disponibiliza o arquivo diário (23/02/2026 em diante) e as séries de IPCA+, que são as que permitem separar as duas camadas. Material educacional; não constitui recomendação de investimento.

Fontes de referência

  • Tesouro Nacional — Tesouro Transparente, datasets de Preços e Taxas, Estoque, Vendas e Recompras (acesso em 16/08/2026)
  • Tesouro Nacional — Cálculo da Rentabilidade dos Títulos Públicos Ofertados no Tesouro Direto
  • ANBIMA — Mercado Secundário de Debêntures, arquivos diários de 23/02/2026 a 14/08/2026
  • ANBIMA — Estrutura a Termo das Taxas de Juros, mesma janela
  • ANBIMA — Regra de Marcação a Mercado e metodologia de precificação
  • CVM — Portal do Investidor, seção de títulos públicos

Aprofundamento opcional

Para estudar como duration e convexidade se manifestam em carteiras e índices negociados por meio de ETFs, consulte a trilha [ETFs de Renda Fixa](/educacional/trilhas/etfs-de-renda-fixa).

Conteúdo exclusivamente educacional — não constitui recomendação de investimento.