1.O bloco mais simples da renda fixa — e o mais mal analisado
Os cinco cursos anteriores trataram de risco visível: duration, curva, inflação, ciclo. Agora o foco muda para a parcela que quase ninguém analisa, justamente porque parece não ter risco nenhum — o caixa pós-fixado. É aqui que diferenças mínimas de estrutura e de tributação mudam o resultado líquido mais do que qualquer previsão de juros.
| Curso | Pergunta central |
|---|---|
| Fundamentos dos ETFs de Renda Fixa | Quais são os indexadores e os principais riscos? |
| Duration e Convexidade | Quanto o preço reage a uma mudança de taxa? |
| Curva de Juros e Marcação a Mercado | Em qual vértice da curva está o risco? |
| ETFs de IPCA e Juros Reais | Como separar inflação de juro real? |
| ETFs Prefixados e Ciclos de Juros | Como a curva nominal responde ao ciclo? |
| Smart Selic e Gestão de Liquidez | Como gerir caixa sem ignorar tributação, spread e marcação? |
A pergunta que este curso responde com um número
"Smart Selic" não é uma categoria regulatória: é um rótulo para carteiras que mantêm quase tudo em LFT e acrescentam uma fatia pequena de NTN-B longa para mudar de faixa tributária. A explicação normalmente para nesse ponto. Aqui, vamos avançar para quatro perguntas mensuráveis: quanto de NTN-B a estrutura precisa carregar, por que essa parcela aparece, quanto risco ela adiciona e em que condições a economia tributária pode deixar de compensar. As quatro respostas estão aqui, medidas.
2.Selic, Selic efetiva, DI e CDI
Quatro termos que a conversa cotidiana trata como sinônimos e que descrevem coisas diferentes. A confusão é inofensiva na maior parte do tempo — até virar a régua de comparação de um produto.
| Termo | O que é | Para que serve |
|---|---|---|
| Meta Selic | A taxa que o Copom define nas reuniões | É o instrumento da política monetária |
| Selic efetiva (Over) | A média das operações compromissadas de um dia com títulos públicos | É a taxa que de fato remunera a LFT |
| CDI | O depósito interfinanceiro entre instituições | Instrumento de curtíssimo prazo do sistema bancário |
| Taxa DI | A média das operações de DI de um dia apuradas pela B3 | É o benchmark de quase toda a renda fixa pós-fixada |
Elas andam coladas porque existe arbitragem entre os mercados de um dia, e porque a própria metodologia da B3 prevê o uso da Selic Over em determinadas condições para apurar a Taxa DI. Mas "colado" não é "idêntico": quando um produto se apresenta como "110% do CDI" e outro como "Selic + 0,2%", os dois estão medindo contra réguas parecidas, não iguais.
O contexto de juros em 12/08/2026
A Selic estava em 14,00% a.a., depois de quatro cortes de 25 pontos-base em 2026 (março, abril, junho e agosto) que a trouxeram dos 15,00% em que estava desde junho de 2025. Selic alta significa carrego nominal alto no pós-fixado — e é exatamente por isso que as decisões de estrutura ficam mais caras: cada décimo perdido para o benchmark vale mais quando o benchmark é grande.
3.A LFT: duration de um dia, qualquer que seja o vencimento
A Letra Financeira do Tesouro — vendida ao investidor como Tesouro Selic — tem o valor nominal atualizado pela Selic diária. Isso não a torna imune ao mercado, mas muda a natureza do risco de forma radical, e dá para ver isso medido.
A medição que resolve a discussão
No arquivo diário da ANBIMA de 12/08/2026, o índice de LFTs tinha 18 papéis, do que vencia em 14 dias úteis ao que vence em setembro de 2032. Todos os 18 aparecem com duration de 1 dia útil e prazo médio de repactuação de 1 dia corrido. Sem exceção. Comprar uma LFT que vence daqui a seis anos não compra seis anos de risco de taxa: a remuneração é reajustada todo dia.
Mas existe uma estrutura a termo de ágio e deságio
A taxa divulgada para o Tesouro Selic não é uma taxa de juros no sentido usual: ela é o ágio ou deságio aplicado sobre a Selic. Zero significa negociação ao par; valor positivo é deságio (o título sai mais barato); valor negativo é ágio. E essa taxa não é a mesma em todos os vencimentos:
| LFT | Taxa (ágio/deságio) | PU | Leitura |
|---|---|---|---|
| 01/03/2027 | −0,0022% | R$ 19.640,65 | A única com ágio na data |
| 01/09/2029 | +0,0432% | R$ 19.614,69 | Deságio moderado |
| 01/09/2032 | +0,1158% | R$ 19.504,07 | O maior deságio da curva |
Entre as duas pontas há 0,70% de diferença de preço para um instrumento que rende exatamente a mesma Selic. É esse spread que os fundos de LFT longa tentam capturar — e é ele que pode se mover contra o investidor num momento de estresse. Baixa volatilidade não é volatilidade zero.
O que isso significa para um ETF
Dois ETFs "100% Tesouro Selic" podem se comportar de forma diferente. Um que só compra LFT curta captura pouco deságio e oscila menos; um que compra a ponta longa captura mais deságio e assume mais risco de que esse spread se abra. É uma diferença pequena em condições normais — e é justamente por isso que ela costuma ser ignorada até deixar de ser pequena.
4.A regra tributária que organiza tudo
A Lei nº 13.043/2014 define a alíquota de imposto de renda de um Fundo de Índice de Renda Fixa pelo prazo médio de repactuação da carteira — não pelo tempo que o investidor segura a cota. É retido na fonte, sem DARF e sem come-cotas.
| Prazo médio de repactuação da carteira | Alíquota |
|---|---|
| Igual ou inferior a 180 dias | 25% |
| Superior a 180 e igual ou inferior a 720 dias | 20% |
| Superior a 720 dias | 15% |
O degrau que quase ninguém cita
A mesma lei acrescenta um quarto caso: o fundo que descumprir o mínimo de 75% de ativos do índice de referência na carteira fica sujeito a 30% enquanto durar o descumprimento. É o piso de disciplina da estrutura — e a razão de os regulamentos serem tão explícitos sobre composição.
A consequência que muda o desenho de todos os produtos
Junte as duas medições. A LFT tem prazo médio de repactuação de 1 dia. Logo, uma carteira 100% LFT tem prazo médio de 1 dia — e cai na pior faixa da tabela, 25%, por mais longos que sejam os vencimentos escolhidos.
| ETF | Carteira medida na CVM | Prazo médio | Alíquota |
|---|---|---|---|
| LFTI11 | 5 LFTs, de 09/2026 a 09/2028 | 1 dia | 25% |
| BLFT11 | 5 LFTs curtas, 20% cada | 1 dia | 25% |
| LFTS11 | 13 LFTs, de 09/2028 a 06/2032 | 1 dia | 25% |
| LLFT11 | 8 LFTs longas, de 09/2030 a 06/2032, 12,5% cada | 1 dia | 25% |
🔴 Alongar a LFT não muda a alíquota
O LLFT11 só carrega LFTs de 2030 a 2032 e o LFTI11 só carrega LFTs de até 2028. São carteiras opostas em vencimento e idênticas em prazo médio de repactuação: um dia. Ambas pagam 25%. É por isso que nenhum fundo consegue chegar aos 15% comprando LFT — de qualquer prazo. Para atravessar a fronteira dos 720 dias é preciso colocar na carteira algo que não seja LFT. E é aí que nasce o Smart Selic.
5.🧮 CÁLCULO — A equação do Smart Selic
Aqui está a análise que dá nome ao curso. O prazo médio de uma carteira é a média dos prazos de repactuação de seus ativos, ponderada pelo peso. Com LFT valendo 1 dia, a conta tem só duas parcelas — e pode ser invertida para responder à pergunta que o gestor precisa responder: qual é o peso mínimo do papel longo para atingir um prazo médio alvo?
peso do papel longo = (PMR alvo − 1) ÷ (PMR do papel longo − 1)
O "1" nos dois lugares é o prazo de repactuação da LFT, em dias. Como ele é minúsculo perto do alvo, praticamente todo o prazo médio da carteira vem da fatia longa.
Falta o segundo ingrediente: o prazo de repactuação do papel longo. Na NTN-B com vencimento em 15/08/2060, a ANBIMA publicava em 12/08/2026 um prazo médio de repactuação de 8.256,28 dias. Substituindo, para atravessar os 720 dias da lei:
(720 − 1) ÷ (8.256,28 − 1) = 8,71%
Basta 8,71% da carteira nesse único título para uma carteira de LFTs sair da faixa de 25% e entrar na de 15%. Os outros 91,29% continuam sendo caixa puro.
A prova: a equação reproduz os produtos que existem
Três índices no mercado brasileiro declaram um prazo médio alvo no nome e publicam o peso de cada ativo no rebalanceamento. Se a equação estiver certa, ela tem que devolver esses pesos — sem margem de manobra.
| Índice | ETF | Alvo | Peso pela equação | Peso publicado | Diferença |
|---|---|---|---|---|---|
| Selic Target 750 | LIQB11 | 750 dias | 9,07% | 9,07% | 0,00 p.p. |
| Selic Target 760 | LTBX11 | 760 dias | 9,19% | 9,18% | 0,01 p.p. |
| Selic Target 800 | CDIB11 | 800 dias | 9,68% | 9,67% | 0,01 p.p. |
🔴 Smart Selic não é uma estratégia — é uma identidade aritmética
Três produtos, três gestoras, três alvos diferentes, e uma equação de uma linha reproduz os três pesos com erro máximo de 0,01 ponto percentual. Não há discricionariedade, leitura de cenário nem visão de juros nessa alocação: o peso da NTN-B é o que a matemática do enquadramento tributário exige, e nada além disso. Entender essa frase é entender o produto inteiro.
Por que sempre a NTN-B de 2060
Porque é o título mais longo disponível, e o mais longo é o que exige a menor fatia. Com a NTN-B de 2045 seriam necessários 14,20% da carteira para chegar aos mesmos 720 dias; com a de 2050, 11,64%; com a de 2055, 9,96%; com a de 2060, 8,71%. Escolher o papel mais longo do mercado minimiza a porção da carteira exposta a juros reais. É otimização, não preferência.
6.Cinco gestoras, um único título
A equação prevê o desenho. As carteiras que os fundos informaram à CVM mostram o desenho executado. Medimos cinco ETFs de liquidez com estrutura Smart Selic, de cinco gestoras diferentes:
| ETF | Gestora | Competência | Posições | NTN-B 15/08/2060 |
|---|---|---|---|---|
| LTBX11 | Trend | 30/06/2026 | 18 LFTs + 1 NTN-B | 8,77% |
| LFTB11 | Investo | 30/06/2026 | 16 LFTs + 1 NTN-B | 9,08% |
| CDIB11 | It Now / Itaú | 30/06/2026 | 5 LFTs + 1 NTN-B | 9,31% |
| AUPO11 | BTG Pactual | 31/07/2026 | 17 LFTs + 1 NTN-B | 9,39% |
| POSB11 | Galapagos | 31/07/2026 | 17 LFTs + 1 NTN-B | 9,60% |
🔴 O mesmo papel, em todos
Cinco fundos, cinco gestoras, cinco índices. E exatamente o mesmo título em todos: a NTN-B com vencimento em 15 de agosto de 2060, num intervalo de peso que vai de 8,77% a 9,60% — todos logo acima dos 8,71% que a lei exige. Não é convergência de opinião sobre juros reais de longo prazo. É a mesma equação resolvida cinco vezes.
Quanto do risco mora naquela fatia
A NTN-B 2060 tinha, na mesma data, duration de 3.227 dias úteis — 12,81 anos, ou 11,91 de duration modificada. A LFT tem 1 dia útil. Aplicando os pesos, a duration da carteira sai quase inteira da fatia pequena:
| Índice | Peso da NTN-B | Duration calculada | Duration publicada | Da NTN-B |
|---|---|---|---|---|
| Target 750 | 9,07% | 1,165 ano | 1,16 | 99,7% |
| Target 760 | 9,18% | 1,179 ano | 1,18 | 99,7% |
| Target 800 | 9,67% | 1,242 ano | 1,24 | 99,7% |
| ITBR Selic (só LFT) | — | 0,004 ano | 0,00 | — |
Nove por cento do capital, praticamente cem por cento do risco
A duration calculada a partir da carteira reproduz a publicada pelo provedor na segunda casa decimal nos três produtos. E a decomposição mostra o essencial: 99,7% da sensibilidade a juros vem dos ~9% em NTN-B. Os outros 91% são caixa que praticamente não se move. Quem compra um Smart Selic está comprando 91% de LFT e 9% de um título de 34 anos — e é essa fatia de 9% que decide se o produto vai bater o DI ou não.
7.🧮 CÁLCULO — Ponto de equilíbrio: quando a eficiência tributária deixa de compensar
Agora a pergunta que interessa. A economia de imposto é real: 15% em vez de 25% sobre o ganho. Mas o produto que paga menos imposto também rende diferente do DI, porque tem aquela fatia longa. A partir de qual desempenho a troca deixa de valer a pena?
A conta é direta. Chamando de R o retorno bruto de cada um, o empate no líquido acontece quando R_smart × 0,85 = R_puro × 0,75, ou seja, quando o Smart Selic entrega 88,2% do retorno bruto do ETF de LFT pura. E como um ETF de LFT pura entrega historicamente cerca de 102% do DI:
102% do DI × 0,75 ÷ 0,85 = 90,0% do DI
O ponto de equilíbrio. Enquanto o Smart Selic entregar mais de 90% do DI no bruto, ele ganha no líquido. Abaixo disso, os dez pontos de alíquota não compensam.
Uma régua que cabe na cabeça
90% do DI. É o número para levar deste curso. Um Smart Selic que entregue 95% do DI está ganhando, mesmo perdendo do índice. Um que entregue 85% está perdendo, mesmo pagando menos imposto. E a distância entre 90% e os 102% de um LFT puro é a margem de erro que a fatia de NTN-B pode consumir — cerca de doze pontos percentuais do CDI.
O que aconteceu de verdade
| Período | LFT puro (% do DI) | Target 800 (% do DI) | Líquido: Target 800 − LFT puro |
|---|---|---|---|
| 2024 | 103,0% | 80,3% | −1,005 p.p. |
| 2025 | 102,3% | 103,3% | +1,630 p.p. |
| 2026 até 12/08 | 101,7% | 95,8% | +0,455 p.p. |
| Últimos 12 meses | 14,94% bruto | 14,15% bruto | +0,822 p.p. |
🔴 O ano em que a conta ficou negativa
Em 2024 a estratégia entregou 80,3% do DI, quase dez pontos abaixo do ponto de equilíbrio, enquanto o LFT puro fez 103,0%. Resultado líquido: o ETF de LFT pura, pagando 25%, rendeu 1,005 ponto percentual a mais que o Smart Selic pagando 15%. Nos outros dois períodos a conta se inverteu, com folga. A vantagem tributária é real — e não é incondicional.
⚠️ Leia esse 2024 pelo que ele é
Esse histórico é do índice, e antes do lançamento de cada ETF ele é simulado. O CDIB11 só passou a existir em 03/06/2026 segundo o registro da CVM: nenhum investidor viveu 2024 dentro desse produto. O que o número prova não é o resultado de alguém — é o mecanismo: quando a curva de juros reais abre, uma fatia de 9% num título de 2060 é suficiente para derrubar a estratégia bem abaixo do CDI.
8.Quantos pontos-base consomem o benefício
O ponto de equilíbrio diz onde fica a fronteira. Falta traduzi-lo para a variável que a move: a taxa de juros reais. Com a duration medida, a conta fecha em três passos.
| Passo | Conta | Resultado |
|---|---|---|
| O colchão, em retorno bruto | 14,94% × (1 − 0,75 ÷ 0,85) | 1,758 p.p. |
| A sensibilidade da carteira | 9,67% × duration modificada de 11,910 | 1,152 p.p. por ponto de juro real |
| O choque que zera o colchão | 1,758 ÷ 1,152 | +153 pontos-base |
🔴 +153 bps
É de quanto a curva de juros reais precisa abrir, ao longo de doze meses, para que a economia de dez pontos de alíquota seja inteiramente consumida pela perda de marcação da fatia de NTN-B. Nos doze meses até 12/08/2026 o Target 800 ficou 0,79 ponto percentual abaixo do LFT puro no bruto — ou seja, usou 45% do colchão e ainda terminou na frente no líquido.
Simulador: o benefício fiscal compensou?
InterativoCompare um ETF de LFT pura (25% de IR) com um Smart Selic (15%). Os cenários prontos usam os retornos publicados pelo provedor dos índices em 12/08/2026.
| Veículo | Bruto | IR | Líquido |
|---|---|---|---|
| ETF de LFT pura | 14,94% | 25% | 11,205% |
| Smart Selic | 14,15% | 15% | 12,028% |
O Smart Selic ganhou por 0,822 ponto percentual no líquido — mesmo tendo rendido menos no bruto.
Empate no bruto
13,182%
abaixo disso o Smart Selic perde
Colchão
1,758 p.p.
45% consumido no período
Choque que zera
+153 bps
de alta do juro real
O colchão é o quanto o Smart Selic pode render a menos, no bruto, e ainda empatar no líquido — vem de bruto × (1 − 0,75 ÷ 0,85). O choque traduz esse colchão em alta da curva de juros reais, usando a sensibilidade medida da carteira: 9,67% em NTN-B 15/08/2060 com duration modificada de 11,910. Estimativa de primeira ordem: supõe deslocamento paralelo, trata todo o retorno como ganho tributável e ignora taxa de administração, spread e convexidade.
Os limites deste cálculo
É uma estimativa de primeira ordem: supõe deslocamento paralelo da curva real, ignora a convexidade (que trabalha a favor), assume que todo o retorno é ganho tributável, e não desconta taxa de administração, spread de negociação nem custos de corretagem. Serve para dimensionar a margem, não para prever retorno.
E o retrato de risco que os índices publicam
| Índice | Retorno 12m | Desvio padrão 12m | Índice de Sharpe 12m |
|---|---|---|---|
| ITBR Selic (LFT puro) | 14,94% | 0,16% | +2,09 |
| Selic Target 750 | 14,20% | 0,86% | −0,50 |
| Selic Target 760 | 14,14% | 0,90% | −0,55 |
| Selic Target 800 | 14,15% | 0,91% | −0,52 |
A escala é o que engana
0,91% de volatilidade anual é baixíssimo perto de qualquer ativo de risco — e é quase seis vezes o 0,16% do LFT puro. Repare também no Sharpe: as três estratégias Smart Selic tiveram Sharpe negativo em doze meses, porque ficaram abaixo do DI com volatilidade acima de zero. Isso não as condena: o Sharpe é calculado no bruto, e a decisão se dá no líquido. Mas mostra que o produto não é "caixa" no mesmo sentido que o outro é.
9.Liquidez começa pelo passivo, não pelo produto
Toda a discussão acima é sobre retorno. Falta a parte que costuma decidir o arrependimento: quando o dinheiro precisa estar na conta. ETF se negocia em pregão e liquida em D+1 — o dinheiro da venda de hoje entra no dia útil seguinte.
| Camada | Horizonte | O que priorizar |
|---|---|---|
| Liquidez imediata | Hoje, nas próximas horas | Disponibilidade operacional — fora da bolsa |
| Caixa transacional | Próximos dias | Baixo risco e liquidação previsível |
| Reserva tática | Semanas a meses | Retorno líquido com volatilidade baixa |
| Capital de espera | Meses ou mais | Pode aceitar oscilação em troca de eficiência |
Quatro dimensões que a palavra "liquidez" esconde
- Negociação: existem compradores e vendedores no momento em que você precisa sair?
- Spread: qual a distância entre a melhor compra e a melhor venda? Poucos pontos-base de spread podem valer vários dias de carrego num pós-fixado.
- Profundidade: que volume cabe perto do preço justo, sem empurrar a cota?
- Liquidação: D+1 significa que o dinheiro chega no dia útil seguinte — não na mesma tarde.
Reserva de emergência não é um produto, é uma função
Uma reserva precisa funcionar no dia em que a emergência acontece, não apresentar bom retorno médio. Se a venda só pode ser feita em pregão, se a liquidação é D+1 e se a estratégia carrega uma fatia que pode estar temporariamente negativa, então ela pode servir para uma parte da reserva — mas não substitui a camada de dinheiro disponível na hora. A pergunta é operacional antes de ser financeira.
Regra de processo
Primeiro defina a função do dinheiro e o prazo até precisar dele. Depois escolha o risco compatível. Só então compare impostos e custos. Fazer na ordem inversa é como escolher o carro pelo consumo antes de saber se a viagem é na cidade ou na estrada.
10.Comparando os veículos de caixa
| Veículo | Liquidez | Risco principal | Tributação |
|---|---|---|---|
| Tesouro Selic direto | Recompra diária do Tesouro | Soberano + ágio/deságio | Tabela regressiva pelo seu prazo; IOF nos 30 primeiros dias |
| ETF de LFT pura | Bolsa, liquidação D+1 | Soberano + spread da LFT + spread da cota | 25% pelo prazo médio da carteira; sem come-cotas |
| Smart Selic | Bolsa, liquidação D+1 | Soberano + a fatia de juros reais | 15% enquanto o prazo médio ficar acima de 720 dias |
| CDB pós-fixado | Depende da carência do emissor | Crédito bancário + liquidez contratual | Tabela regressiva; FGC dentro dos limites |
| Fundo DI | Regras do fundo | Carteira, taxas e eventual crédito privado | Regime do fundo; pode ter come-cotas |
Duas diferenças que mudam a conta e passam batido
A primeira: no título direto e no CDB a alíquota cai conforme você segura; no ETF ela é definida pela carteira do fundo e vale desde o primeiro dia — para melhor ou para pior. A segunda: ETF de renda fixa não tem come-cotas, enquanto o fundo DI tradicional antecipa imposto duas vezes por ano. Em horizontes longos, essa antecipação corrói mais do que a diferença de taxa de administração que costuma dominar a comparação.
ETFs de Renda Fixa na B3
A categoria inteira em uma tabela, para localizar as opções de liquidez disponíveis.
Comparador de ETFs
Ponha um LFT puro e um Smart Selic lado a lado e veja o quanto as carteiras se repetem.
Ficha do CDIB11
A carteira real do Target 800, com a fatia de NTN-B que este curso mediu.
Comparador de Renda Fixa
Compare o ETF com um CDB ou um Tesouro Selic comprado direto, já com o efeito do imposto.
11.Quando faz sentido, quando exige cautela e o checklist
| Pode fazer sentido estudar quando… | Exige cautela quando… |
|---|---|
| O dinheiro tem horizonte para tolerar pequenas oscilações | O capital pode ser necessário no mesmo dia |
| A eficiência tributária é relevante no seu caso | Você está escolhendo só pela alíquota de 15% |
| A liquidação em D+1 é compatível com a necessidade | Qualquer oscilação negativa de curto prazo é inaceitável |
| Você aceita, e entende, o desvio em relação ao DI | Você não sabia que havia uma NTN-B de 2060 na carteira |
Checklist antes de comprar um ETF de liquidez
- Qual é o índice, e a metodologia declara um prazo médio alvo?
- Quais ativos entram: só LFT? Há NTN-B? Há crédito privado?
- Se há NTN-B, qual o vencimento e qual o peso — e quanto isso dá de duration?
- Qual é o prazo médio de repactuação atual, e com quanta folga sobre os 720 dias?
- Qual foi a volatilidade em doze meses, comparada com a do DI?
- Quanto do DI o produto entregou nos últimos anos — e ficou acima ou abaixo de 90%?
- Qual o spread típico da cota no horário em que pretendo operar?
- A liquidação é D+1, e isso cabe na urgência real do meu passivo?
- Qual a taxa de administração e os custos de negociação?
- Esse dinheiro é reserva de emergência de verdade — ou capital de espera?
Se você não sabe responder à pergunta 3
Ainda não sabe o que comprou. Em nove entre dez ETFs desta categoria, a resposta é "a NTN-B de 15/08/2060, com cerca de 9% da carteira" — e essa fatia responde por praticamente todo o risco de preço do produto. Ela está no informe que o fundo entrega à CVM e na página do índice; não é segredo, é só pouco lida.
12.Conclusão e quiz
Caixa parece o lugar onde não há o que analisar. É o oposto: como as diferenças de retorno bruto são minúsculas, tudo o que sobra — imposto, spread, liquidação, uma fatia de 9% num título de 34 anos — passa a decidir o resultado. E como as oscilações são pequenas, o risco só aparece quando já custou.
A síntese desta aula
A LFT repactua em um dia, então nenhuma carteira só de LFT escapa dos 25%. Para chegar aos 15% é preciso 8,71% de NTN-B 2060 — e a categoria inteira resolve essa mesma equação, com a mesma resposta. Essa fatia de 9% carrega 99,7% do risco de juros do produto. E o ponto de equilíbrio que decide se valeu a pena é um só: 90% do DI.
Quiz: Smart Selic e gestão de liquidez
Interativo10 perguntas para testar o que você aprendeu neste curso.
1. Uma LFT que vence em 2032 tem prazo médio de repactuação de vários anos?
2. Quais são as faixas de imposto de renda de um ETF de renda fixa?
3. Um ETF que compra apenas LFTs de vencimento longo consegue chegar aos 15% de IR?
4. Por que as estratégias Smart Selic usam justamente a NTN-B de 15/08/2060?
5. Qual equação determina o peso do papel longo numa carteira Smart Selic?
6. Quanto do risco de juros de um Smart Selic vem da fatia de NTN-B?
7. Um ETF com 15% de IR necessariamente rende mais, no líquido, que um de 25%?
8. Em 2024 a estratégia Target 800 entregou 80,3% do DI, contra 103,0% do ETF de LFT pura. Qual foi o resultado líquido?
9. O que significa dizer que um ETF liquida em D+1?
10. Qual deve ser o primeiro passo ao montar a parcela de liquidez?
Smart Selic: por que 9% da carteira decide todo o resultado do seu caixa
🎬 Vídeo em produção — em breve nesta lição
Investindo em Títulos de Renda Fixa — Frank J. Fabozzi
Os capítulos sobre instrumentos do mercado monetário e sobre gestão de carteiras de curto prazo formalizam o que este curso trabalhou na prática: por que um título de taxa flutuante tem duration próxima de zero, como se mede o risco de spread de um papel pós-fixado e por que a decisão de caixa é uma decisão de casamento entre ativo e passivo, não de maximização de retorno.
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Fontes de referência
- Lei nº 13.043/2014, art. 2º — regime tributário dos Fundos de Índice de Renda Fixa: 25% para prazo médio de repactuação até 180 dias, 20% acima de 180 e até 720, 15% acima de 720, com incidência exclusiva na fonte; e 30% enquanto a carteira descumprir o mínimo de 75% de ativos do índice de referência.
- ANBIMA — arquivo diário dos Índices de Mercado (IMA), 12/08/2026: os 18 papéis do IMA-S com duration, prazo médio de repactuação e taxa de ágio/deságio; e a NTN-B 15/08/2060 na composição do IMA-B, com duration de 3.227 dias úteis e prazo médio de repactuação de 8.256,28 dias.
- CVM — Composição Diária da Carteira (CDA), competências de 30/06/2026 e 31/07/2026: carteiras de LFTI11, BLFT11, LFTS11, LLFT11, GLFT11, LFTX11, LTBX11, LFTB11, CDIB11, AUPO11 e POSB11, medidas posição a posição.
- CVM — registro de fundos e classes sob a Resolução CVM 175: datas de constituição e de início de cada um dos fundos citados.
- Teva Indices — páginas dos índices ITBR Selic, ITBR Selic Target 750, Target 760 e Target 800, com data de referência de 12/08/2026: retorno, yield, duration, desvio padrão, índice de Sharpe, composição no rebalanceamento e histórico anual contra o DI.
- Banco Central do Brasil — histórico de metas para a taxa Selic: 15,00% a.a. desde a reunião de 18/06/2025 e os quatro cortes de 2026 até a 280ª reunião, de 05/08/2026, que fixou 14,00% a.a.
- B3 — metodologia de apuração da Taxa DI e do Depósito Interfinanceiro.
- Tesouro Nacional — características do Tesouro Selic (LFT): atualização do valor nominal pela Selic diária, o significado do ágio e do deságio na taxa divulgada e o prazo de repactuação do título.
- Cálculos Case de Valor — a equação do peso mínimo do papel longo por prazo médio alvo e sua verificação contra os três índices Target; duration de cada carteira e a parcela atribuível à NTN-B; o ponto de equilíbrio de 90% do DI; o resultado líquido de imposto período a período; e o choque de juro real que consome o benefício tributário.
Conteúdo exclusivamente educacional. Os índices e ETFs citados são exemplos reais, usados para demonstrar como se mede a estrutura de um produto de liquidez — não constituem recomendação de compra, venda ou alocação. O histórico anual dos índices é do índice, e antes do lançamento de cada ETF é simulado. As estimativas de sensibilidade são cálculos de primeira ordem e não preveem retornos. Alíquotas, taxas, composição, liquidação e metodologia de índices mudam: o regulamento, a lâmina, o fact sheet e a legislação vigentes na data da sua decisão sempre prevalecem. Rentabilidade passada não representa garantia de rentabilidade futura, e fundos de investimento não contam com garantia do FGC.