CDIB11, AUPO11 ou LFTB11: qual ETF de renda fixa faz mais sentido?
A nova geração de ETFs combina Tesouro Selic e IPCA+ em busca de eficiência tributária. Entenda a estratégia e as diferenças entre os produtos.
Durante muito tempo, investir em renda fixa parecia uma decisão relativamente simples. Para o dinheiro conservador, Tesouro Selic. Para quem queria algo parecido dentro do banco, um CDB pagando próximo de 100% do CDI.
Nos últimos anos, porém, o mercado brasileiro de ETFs de renda fixa começou a apresentar uma nova categoria de produtos que merece atenção. Fundos como LFTB11, AUPO11 e, mais recentemente, CDIB11 parecem à primeira vista apenas diferentes versões de uma estratégia ligada ao Tesouro Selic.
Mas existe uma engenharia interessante por trás desses produtos.
O ponto principal não está simplesmente na rentabilidade. Está na composição da carteira e na eficiência tributária.
O problema tributário da renda fixa tradicional
Antes de entender esses ETFs, precisamos olhar para uma característica conhecida dos investimentos tradicionais de renda fixa. Em aplicações como CDBs e títulos do Tesouro sujeitos à tabela regressiva, a alíquota de Imposto de Renda pode começar em 22,5% e cair gradualmente até 15%, conforme o prazo da aplicação.
Isso significa que o investidor precisa permanecer mais tempo no investimento para alcançar a menor alíquota. Nos ETFs de renda fixa, a lógica é diferente.
Nesse caso, a tributação está relacionada ao prazo médio de repactuação da carteira do fundo, conhecido como PMR. A legislação prevê alíquota de 15% para ETFs de renda fixa cuja carteira apresente prazo médio de repactuação superior a 720 dias.
A alíquota não depende do tempo que o investidor permaneceu com a cota do ETF.
Um ETF enquadrado nessa regra pode ter tributação de 15% sobre o ganho mesmo que o investidor não tenha permanecido dois anos com o ativo. É justamente nesse ponto que começa a lógica dos produtos que alguns investidores passaram a chamar de ETFs de “Selic inteligente”.
A lógica dos 90% de Tesouro Selic e 10% de Tesouro IPCA+
Imagine uma carteira formada praticamente apenas por Tesouro Selic. Para o investidor, esses títulos podem possuir vencimentos longos. No cálculo do prazo de repactuação, porém, os títulos pós-fixados ligados à Selic possuem uma característica importante: sua taxa é considerada repactuada em prazo muito curto.
Isso cria um desafio para uma carteira que pretende manter prazo médio de repactuação acima de 720 dias. Uma composição praticamente inteira de LFTs pode ter dificuldade para alcançar esse patamar.
A solução utilizada por alguns índices é combinar dois tipos de títulos:
- Tesouro Selic, por meio das LFTs, como parte majoritária da carteira;
- Tesouro IPCA+, por meio das NTN-Bs, em uma parcela menor.
Em algumas dessas estratégias, a composição fica próxima de 90% em títulos ligados à Selic e 10% em títulos indexados ao IPCA de vencimento longo.
A presença de uma NTN-B longa não ocorre apenas porque o gestor deseja fazer uma aposta direcional na inflação. Essa pequena parcela ajuda a elevar o prazo médio da carteira e possui uma função estrutural dentro da metodologia do índice.
A parcela de IPCA+ não está ali apenas como uma aposta na inflação. Ela também ajuda a construir a própria estratégia tributária do ETF.
O resultado é uma carteira majoritariamente pós-fixada, mas estruturada para buscar um enquadramento tributário mais eficiente.
É uma engenharia relativamente simples. Mas inteligente.
Isso significa que esses ETFs são iguais ao Tesouro Selic?
Não. E essa diferença precisa ficar muito clara.
Mesmo que a maior parte da carteira esteja concentrada em títulos pós-fixados, existe uma parcela exposta às NTN-Bs. Títulos IPCA+ sofrem marcação a mercado e podem oscilar de acordo com as mudanças nas taxas de juros reais.
Quando as taxas reais sobem, o preço desses títulos tende a sofrer pressão. Quando as taxas reais caem, os preços podem se valorizar. Quanto maior o prazo do título, maior tende a ser sua sensibilidade às mudanças nas taxas.
Por isso, um ETF com uma pequena posição em NTN-Bs de vencimento muito longo pode apresentar oscilações que o investidor normalmente não esperaria encontrar em uma aplicação puramente ligada à Selic.
CDIB11, AUPO11 e LFTB11 não devem ser interpretados como uma conta corrente remunerada.
São ETFs negociados em bolsa. Existe preço de mercado, spread entre compra e venda e marcação a mercado dos ativos presentes na carteira. Em determinados períodos, inclusive, podem ocorrer oscilações negativas.
CDIB11: a proposta do Itaú para a “Selic inteligente”
O CDIB11 acompanha o Índice Teva ITBR Selic Target 800. A estratégia utiliza majoritariamente LFTs e uma parcela reduzida de NTN-Bs, buscando administrar o prazo médio da carteira.
A proposta é manter uma exposição predominantemente ligada ao Tesouro Selic e utilizar uma pequena parcela de títulos indexados à inflação dentro da construção do índice.
O grande diferencial do CDIB11 talvez não esteja em uma inovação radical. Sua lógica possui semelhanças com estratégias que já existiam no mercado. O ponto relevante é também a entrada de uma instituição do tamanho do Itaú nesse segmento.
Os ETFs de renda fixa estão deixando de ser produtos de nicho.
Para o investidor, o CDIB11 oferece uma proposta de exposição majoritária ao pós-fixado, combinada a uma metodologia construída para administrar o prazo médio da carteira.
O ponto de atenção está em seu histórico operacional mais curto. Produtos recentes ainda precisam construir histórico de negociação, base de cotistas e profundidade de mercado.
Por isso, não basta olhar apenas para a taxa de administração. Também é importante acompanhar o spread entre compra e venda, a liquidez do produto e a atuação do formador de mercado.
AUPO11: uma estratégia de gestão de liquidez via índice
O AUPO11 acompanha o Índice Teva ITBR Liquidez. O índice é formado por LFTs e NTN-Bs e procura combinar a definição do prazo da carteira com controle de volatilidade e enquadramento tributário.
Na prática, a filosofia é novamente parecida: manter a maior parte do patrimônio em títulos ligados à Selic e utilizar títulos IPCA+ dentro da construção da estratégia.
O interessante no AUPO11 é o foco declarado em gestão de liquidez. Não estamos falando simplesmente de comprar um único título do Tesouro Selic e carregá-lo até o vencimento. Existe uma metodologia de índice definindo quais títulos podem entrar na carteira e como a composição deve ser administrada.
Essa diferença parece pequena, mas é importante. Quando você compra um ETF, não está escolhendo diretamente cada título. Está escolhendo uma metodologia que o fundo buscará replicar.
Antes de comprar qualquer ETF, o investidor deveria fazer uma pergunta simples: eu entendo o que o índice tenta fazer?
O ticker é apenas a embalagem. O índice é o produto.
LFTB11: o veterano da estratégia
Entre os três produtos, o LFTB11 possui uma vantagem importante: um histórico operacional maior dentro dessa família de estratégias.
O fundo acompanha o MarketVector Brazil Treasury 760 Day Target Duration Index e investe em títulos públicos pós-fixados ligados à Selic e títulos indexados ao IPCA.
O LFTB11 também apresenta de forma bastante clara a proposta tributária do produto, com tributação de 15% sobre o ganho de capital para o ETF enquadrado na estratégia, independentemente do período pelo qual o investidor permaneceu com a cota.
O custo de administração pode ser diferente dos concorrentes, mas taxa não deveria ser analisada isoladamente. Um ETF também precisa ser avaliado pela estrutura de negociação que oferece.
Entre os pontos que merecem atenção estão:
- Liquidez;
- Spread entre compra e venda;
- Patrimônio do fundo;
- Atuação do formador de mercado;
- Capacidade de acompanhar o índice;
- Histórico de funcionamento da estratégia.
Economizar alguns centésimos de ponto percentual por ano pode parecer importante. Mas, dependendo da frequência de negociação, um spread pior na entrada ou na saída pode consumir rapidamente essa diferença.
A menor taxa nem sempre representa o menor custo real para o investidor.
CDIB11, AUPO11 ou LFTB11: qual é o melhor?
Essa talvez seja a pergunta errada. Os três produtos possuem uma filosofia semelhante: construir uma carteira predominantemente pós-fixada utilizando títulos públicos e adicionar NTN-Bs dentro da estratégia de prazo da carteira.
Isso não significa que sejam produtos idênticos. As metodologias e os índices de referência possuem diferenças, e é justamente nessas diferenças que o investidor deveria concentrar a análise.
1. Metodologia do índice
Entenda como os títulos são selecionados, quais são as regras de rebalanceamento e como o prazo da carteira é administrado.
2. Taxa total
Diferenças pequenas podem ganhar importância em horizontes longos, especialmente em uma classe de ativos na qual alguns centésimos de ponto percentual fazem parte da comparação.
3. Liquidez e spread
Observe o book de ofertas e a diferença entre os preços de compra e venda. Um ETF pode possuir formador de mercado e ainda apresentar spreads diferentes conforme o momento e a profundidade da negociação.
4. Histórico operacional
Produtos com mais tempo de mercado permitem observar melhor o comportamento do ETF e de sua metodologia em diferentes ambientes de juros e volatilidade.
O investidor que valoriza um histórico operacional maior pode enxergar vantagem no LFTB11. Quem deseja estudar uma estrutura diferente de índice e a presença de uma grande instituição pode olhar com atenção para o CDIB11. O AUPO11 aparece como outra alternativa dentro da mesma família, utilizando a metodologia do Índice Teva ITBR Liquidez.
A diferença entre esses três ETFs pode ser menor do que a diferença entre escolher a estratégia correta ou errada para o objetivo do dinheiro.
E o B5P211? Ele perdeu o sentido?
Não. Na realidade, colocar todos esses ETFs dentro da mesma disputa é outro erro comum.
Um ETF como LFTB11, CDIB11 ou AUPO11 não substitui automaticamente um ETF de Tesouro IPCA de prazo mais curto. O B5P211 acompanha uma estratégia ligada ao IMA-B5 P2 e oferece uma exposição mais direta a títulos indexados ao IPCA com vencimentos mais curtos.
O papel dentro da carteira é diferente. Nas estratégias próximas de 90% Selic e 10% IPCA+, a NTN-B representa uma parcela relativamente pequena da carteira. O principal motor do resultado continua sendo o bloco pós-fixado.
No B5P211, o investidor está fazendo uma alocação explícita em inflação e juros reais. São objetivos diferentes.
| Estratégia | Principal função |
|---|---|
| CDIB11, AUPO11 e LFTB11 | Predominância pós-fixada e gestão da carteira de renda fixa |
| B5P211 | Exposição mais direta à inflação e aos juros reais |
Um não necessariamente elimina o outro. Dependendo da construção da carteira, essas estratégias podem ser complementares.
Esses ETFs substituem a reserva de emergência?
Aqui é preciso cuidado. O fato de um ETF investir majoritariamente em Tesouro Selic não significa automaticamente que ele seja a melhor ferramenta para qualquer reserva de emergência.
ETFs são negociados em bolsa. Existe horário de negociação, existe prazo de liquidação financeira e as cotas podem oscilar.
Uma reserva destinada a uma emergência real precisa considerar principalmente a disponibilidade do dinheiro, e não apenas a rentabilidade ou a eficiência tributária do investimento.
Dinheiro para uma despesa inesperada que pode acontecer amanhã possui um objetivo. Dinheiro conservador, sem uma data específica de utilização, possui outro.
Misturar os dois objetivos pode levar o investidor a escolher um produto tecnicamente eficiente para a função errada.
Por que ainda se fala tão pouco em ETFs de renda fixa?
Existe também uma questão estrutural da indústria. ETFs costumam possuir taxas relativamente baixas e são comprados diretamente em bolsa, o que cria uma dinâmica comercial diferente de muitos fundos tradicionais e produtos distribuídos dentro de plataformas financeiras.
Isso não significa que exista uma conspiração para esconder ETFs. Significa apenas que o incentivo econômico para distribuir cada produto pode ser diferente.
O investidor precisa aprender a separar duas perguntas:
Qual produto está sendo oferecido para mim?
Qual produto realmente cumpre melhor a função que preciso na carteira?
Nem sempre as respostas serão iguais.
A visão da Case de Valor
CDIB11, AUPO11 e LFTB11 representam uma evolução interessante no mercado brasileiro de renda fixa. A combinação de uma posição majoritária em Tesouro Selic com uma pequena parcela de Tesouro IPCA+ mostra como regras tributárias e construção de índices podem alterar a eficiência de uma estratégia.
Mas não existe almoço grátis. A parcela de NTN-B adiciona marcação a mercado, as cotas são negociadas em bolsa, o spread precisa ser observado e a metodologia do índice importa.
Também não faz sentido escolher um vencedor simplesmente olhando qual ETF rendeu alguns décimos a mais nos últimos meses. Rentabilidade passada não garante rentabilidade futura e pequenas diferenças de desempenho podem ser resultado do próprio comportamento dos títulos que formam a carteira.
O mais importante é entender o papel do ativo dentro da carteira.
Para dinheiro conservador sem uma data definida, ETFs dessa categoria podem ser ferramentas interessantes. Para exposição mais direta à inflação e aos juros reais, existem estratégias específicas como o B5P211. Para reserva de emergência imediata, a disponibilidade do dinheiro precisa vir antes da otimização tributária.
No fim, investir melhor não é encontrar o ticker perfeito. É entender por que cada ativo existe dentro da sua carteira.
Este conteúdo possui caráter exclusivamente educacional e informativo. Não constitui recomendação de compra ou venda de ativos. Antes de investir, avalie seus objetivos, horizonte de investimento e perfil de risco.
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