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A janela dos IPOs está reabrindo: a próxima geração de gigantes pode estar chegando à bolsa?

Depois do excesso de 2021 e do congelamento provocado pela alta dos juros, o mercado americano de IPOs começa a reagir. IA, cibersegurança, defesa e infraestrutura digital estão no centro da nova fila de

Equipe Case de Valor 08 de julho de 2026 12 min de leitura
A janela dos IPOs está reabrindo: a próxima geração de gigantes pode estar chegando à bolsa?

Durante alguns anos, parecia que abrir o capital nos Estados Unidos havia deixado de ser uma prioridade para as grandes empresas privadas. Depois da euforia de 2020 e 2021, o mercado de IPOs praticamente congelou. A alta agressiva dos juros mudou o preço do dinheiro, derrubou os múltiplos das empresas de crescimento e criou uma distância enorme entre quanto os investidores privados acreditavam que suas empresas valiam e quanto o mercado público estava disposto a pagar.

Agora, essa janela começa a dar sinais de reabertura. Um relatório recente de Global Equity Strategy do BTG Pactual argumenta que o mercado americano pode estar entrando nos estágios iniciais de um novo ciclo de IPOs. A combinação de juros mais estáveis, recuperação do mercado acionário, condições financeiras mais favoráveis e uma longa fila de empresas privadas maduras criou um ambiente muito diferente daquele observado no auge da especulação de 2021.

A pergunta deixou de ser apenas “quando os IPOs voltarão?”. A pergunta agora é: quais empresas dessa nova geração realmente merecem o capital dos investidores?

Primeiro veio a euforia

Para entender o novo ciclo, precisamos voltar alguns anos. Durante a pandemia, o Federal Reserve levou as taxas de juros para níveis próximos de zero e expandiu fortemente seu balanço. Dinheiro barato, enorme liquidez e investidores dispostos a pagar múltiplos elevados por crescimento criaram um dos ambientes mais favoráveis para IPOs da história americana.

Segundo os dados reunidos pelo relatório, 492 empresas abriram o capital nos Estados Unidos em 2020, levantando aproximadamente US$ 167,6 bilhões. Em 2021, o movimento alcançou outro nível: foram 1.078 IPOs e US$ 203,7 bilhões captados.

Aquele período produziu ofertas marcantes, mas também excessos. Empresas sem lucros consistentes foram precificadas com base em expectativas agressivas de crescimento futuro. As SPACs, veículos conhecidos como empresas de “cheque em branco”, se multiplicaram. Em alguns casos, parecia que a simples chegada à bolsa era suficiente para transformar qualquer narrativa em uma oportunidade de investimento.

O problema é que juros próximos de zero não durariam para sempre.

Quando o preço do dinheiro mudou, a janela fechou

O aperto monetário iniciado em 2022 mudou completamente o ambiente. Empresas de alto crescimento normalmente possuem uma parcela importante de seu valor ligada aos lucros que poderão gerar muitos anos no futuro. Quando as taxas de juros sobem, esses fluxos futuros passam a valer menos nos modelos de valuation.

Na prática, empresas que haviam sido avaliadas no mercado privado com múltiplos extremamente elevados começaram a olhar para concorrentes listadas na bolsa negociando por uma fração daqueles valores. Ficou difícil justificar uma abertura de capital sem aceitar um corte relevante no valuation.

O resultado foi um congelamento. A atividade caiu para 202 IPOs e US$ 21,6 bilhões captados em 2022. Em 2023, foram 169 operações e US$ 23,8 bilhões. Para muitas empresas privadas, a decisão mais confortável foi simples: esperar.

Quando o mercado privado quer vender por R$ 100 e o mercado público aceita pagar R$ 40, o IPO não acontece. A janela fecha.

Mas esperar também teve uma consequência interessante. Muitas empresas que planejavam abrir o capital continuaram crescendo. Algumas melhoraram margens, reduziram custos, amadureceram a governança e passaram a tratar a lucratividade com muito mais seriedade.

Foi criada uma fila.

A fila de IPOs amadureceu

O congelamento de 2022 e 2023 não eliminou as empresas candidatas à bolsa. Ele apenas adiou suas ofertas. Hoje, segundo a tese apresentada no relatório, existe uma das filas de emissões mais interessantes dos últimos anos, com empresas ligadas à inteligência artificial, pagamentos, tecnologia de defesa, infraestrutura de dados, segurança cibernética e tecnologia espacial.

Existe uma diferença importante em relação a 2021. O mercado atual parece muito menos disposto a aceitar crescimento a qualquer preço. Investidores institucionais passaram a exigir empresas lucrativas ou, pelo menos, negócios capazes de apresentar um caminho convincente para geração de caixa.

A governança também ganhou peso. Depois de uma safra de empresas com estruturas societárias questionáveis, conflitos de interesse e ações com poderes de voto extremamente diferentes, os investidores passaram a observar esses riscos com mais atenção.

O novo ciclo pode ter menos tolerância para empresas que possuem uma ótima história, mas uma economia ruim.

2024 e 2025 mostraram que o mercado começou a reagir

A recuperação não aconteceu de uma vez. A abertura de capital da Arm Holdings, em setembro de 2023, foi um dos testes importantes para o mercado. A empresa conseguiu levantar bilhões de dólares e teve uma estreia positiva, mostrando que a demanda institucional por ofertas de alta qualidade ainda existia.

Em 2024, o número de IPOs subiu para 246 e os recursos captados chegaram a aproximadamente US$ 39,2 bilhões. Em 2025, a recuperação ganhou força: 374 empresas concluíram ofertas e levantaram cerca de US$ 70,1 bilhões.

Ainda estamos longe do excesso de 2021. E talvez justamente por isso o cenário seja mais interessante. O mercado não parece estar aceitando qualquer empresa simplesmente porque ela adicionou “inteligência artificial” à apresentação.

A inteligência artificial está no centro do novo ciclo

Assim como a internet dominou o ciclo de IPOs do final dos anos 1990 e o software em nuvem marcou boa parte da década de 2010, a inteligência artificial aparece como o principal tema tecnológico da nova geração de empresas privadas.

O relatório destaca áreas como infraestrutura de IA, clusters de GPUs, plataformas de treinamento de modelos, otimização de inferência, ferramentas de programação assistidas por inteligência artificial e sistemas avançados de segurança cibernética.

Empresas como Anthropic e OpenAI aparecem no relatório como exemplos da nova geração de candidatos que os investidores acompanham. São negócios posicionados em um mercado que pode transformar setores inteiros da economia, mas que também exigem enormes volumes de capital e carregam valuations capazes de incorporar expectativas extremamente agressivas.

A IA pode criar algumas das empresas mais valiosas da próxima década. Isso não significa que toda empresa de IA será um bom investimento.

Essa distinção será fundamental. Em um mercado dominado por narrativas, o investidor precisa entender se a empresa realmente possui vantagens competitivas, clientes dispostos a pagar, custos de mudança elevados e capacidade de transformar crescimento em geração de caixa.

O perigo de repetir a bolha da internet

A comparação entre o atual ciclo de IA e a bolha das empresas ponto-com é inevitável. No final dos anos 1990, centenas de empresas de internet chegaram à bolsa com valuations desconectados de qualquer medida convencional de valor. Em 1999, o retorno médio no primeiro dia de negociação de muitos IPOs ultrapassou níveis extraordinários e criou a sensação de que participar das ofertas era uma espécie de dinheiro fácil.

Depois, o Nasdaq caiu aproximadamente 78% entre o pico de março de 2000 e o fundo de outubro de 2002. Centenas de empresas recém-listadas desapareceram.

Mas existe uma lição importante nessa história: a internet não era uma mentira. A transformação digital realmente mudou o mundo. O erro estava em acreditar que qualquer empresa ligada à internet justificava qualquer valuation.

Com a inteligência artificial, o risco pode ser parecido. A tecnologia pode ser revolucionária e, ao mesmo tempo, uma empresa específica pode estar cara demais.

Uma grande tendência não transforma automaticamente toda empresa exposta a ela em um grande investimento.

O primeiro dia do IPO importa menos do que parece

Grande parte da cobertura de IPOs se concentra em uma única pergunta: quanto a ação subiu no primeiro dia?

É uma pergunta interessante para manchetes, mas pouco útil para avaliar uma empresa que pretendemos carregar durante dez anos. O relatório reforça que os vencedores de longo prazo normalmente foram definidos pela qualidade do negócio, pela vantagem competitiva, pela capacidade da gestão e pelo crescimento acumulado dos lucros.

Empresas como Visa mostram essa diferença. Seu IPO, realizado em 2008, teve uma estreia positiva. Mas o verdadeiro resultado para o acionista de longo prazo não foi construído nas primeiras horas de negociação. Foi construído durante anos de crescimento da rede de pagamentos, aumento dos volumes processados e expansão do negócio.

O investidor não deveria perguntar apenas se uma ação pode subir 20% no primeiro dia. Deveria perguntar se aquela empresa pode multiplicar sua geração de caixa ao longo dos próximos dez anos.

Comprar todos os IPOs provavelmente é uma estratégia ruim

Talvez essa seja uma das conclusões mais importantes do relatório. Historicamente, o IPO médio não superou de forma consistente o mercado acionário americano no longo prazo. Uma estratégia de participação indiscriminada em ofertas tende a capturar empresas excelentes, empresas medianas e negócios que nunca deveriam ter chegado à bolsa pelo preço oferecido.

O problema é que uma parcela relativamente pequena de empresas excepcionais responde por uma parte enorme da criação de riqueza. O investidor que comprou uma futura líder de mercado pode ter um resultado completamente diferente daquele que simplesmente distribuiu dinheiro entre todas as novidades.

Em IPOs, seletividade é mais importante do que atividade.

A dificuldade está justamente em identificar essas empresas antes que a história esteja óbvia para todos.

O documento mais importante talvez seja o que quase ninguém lê

Antes de uma abertura de capital nos Estados Unidos, a empresa apresenta à SEC uma declaração de registro conhecida como S-1. É um documento longo, técnico e muito menos empolgante do que uma apresentação de roadshow.

Mas é ali que o investidor pode começar a separar narrativa de negócio.

O relatório destaca quatro pontos especialmente importantes: a trajetória da economia unitária, a qualidade da receita, as transações com partes relacionadas e a utilização dos recursos captados.

Em empresas de tecnologia, por exemplo, não basta olhar o crescimento da receita. Precisamos entender quanto custa adquirir um cliente, quanto esse cliente gera de valor, quantos abandonam o produto e se as margens melhoram conforme a empresa cresce.

Também precisamos entender se a receita é realmente recorrente ou se depende de contratos pontuais. Precisamos procurar conflitos escondidos em transações com fundadores e acionistas. E precisamos perguntar onde o dinheiro do IPO será utilizado.

Crescer queimando cada vez mais dinheiro não é necessariamente escala. Às vezes, é apenas um negócio ruim ficando maior.

Um boom de IPOs tira dinheiro das ações que já estão na bolsa?

Existe uma preocupação comum de que uma grande quantidade de novas empresas chegando ao mercado possa drenar liquidez das ações existentes. Afinal, cada IPO cria uma nova oferta de ações e exige que investidores direcionem capital para esses papéis.

O efeito existe, mas o relatório argumenta que olhar apenas a emissão bruta cria uma visão incompleta. O mercado também precisa considerar a oferta líquida de ações.

Empresas americanas realizam centenas de bilhões de dólares em recompras de ações. Essas recompras retiram papéis do mercado. Aquisições também podem reduzir a quantidade de ações disponíveis. Em muitos períodos, o volume de recompras superou por larga margem o dinheiro captado por IPOs.

Por isso, historicamente, fortes ciclos de emissões não significaram automaticamente falta de liquidez para o restante do mercado.

Os IPOs tendem a aparecer quando existe liquidez. Eles são mais um reflexo de um mercado saudável do que a causa de sua falta de dinheiro.

O mercado de IPOs funciona como um termômetro

A reabertura da janela de ofertas também diz algo sobre o mercado como um todo. Quando empresas e bancos coordenadores acreditam que existe demanda para novas ações, normalmente existem mercados acionários mais fortes, volatilidade controlada e investidores com maior disposição para assumir risco.

Quando a janela fecha, o sinal é diferente. Significa que vendedores e compradores não conseguem chegar a um acordo sobre preço. Os valuations privados permanecem altos demais ou os investidores públicos exigem uma margem de segurança que os acionistas atuais não aceitam.

Por isso, acompanhar IPOs não interessa apenas a quem pretende participar de uma oferta. O mercado primário é uma espécie de indicador da temperatura do mercado de capitais.

O que a Case de Valor observa nesse novo ciclo

O relatório do BTG apresenta uma tese otimista para a reabertura do mercado de IPOs americano, mas a mensagem mais importante para nós não é “compre IPOs”. É praticamente o contrário.

Uma nova janela de emissões significa que investidores provavelmente terão acesso a empresas e tecnologias que hoje ainda estão concentradas no mercado privado. Inteligência artificial, segurança cibernética, defesa, infraestrutura de dados e tecnologia espacial podem produzir empresas extremamente relevantes ao longo da próxima década.

Mas a história mostra que os melhores negócios chegam à bolsa ao lado de empresas medianas e narrativas supervalorizadas. Comprar toda novidade é uma forma eficiente de garantir exposição tanto aos vencedores quanto aos erros.

O próximo grande vencedor pode nascer em um IPO. O problema é que ele não virá com uma placa dizendo “eu sou o próximo vencedor”.

Por isso, a análise precisa começar pelo negócio. Existe uma vantagem competitiva real? O mercado potencial é grande? A receita possui qualidade? A economia unitária melhora com o crescimento? A empresa sabe alocar capital? O valuation exige um futuro plausível ou um cenário praticamente perfeito?

A inteligência artificial pode ser o grande tema da próxima década. Também pode produzir uma enorme quantidade de empresas avaliadas como futuras líderes antes de provarem que conseguem ganhar dinheiro.

O investidor não precisa fugir do novo ciclo de IPOs. Mas também não precisa correr atrás de toda empresa que tocar o sino da Nasdaq.

Talvez a melhor postura seja simples: acompanhar a fila, estudar os negócios e esperar que uma empresa excepcional encontre um preço que ainda permita ao acionista participar da criação de valor.

Este conteúdo foi elaborado a partir de uma leitura e interpretação do relatório “Abrindo o mercado: Decifrando o ciclo de IPOs nos EUA”, publicado pela equipe de Global Equity Strategy do BTG Pactual em junho de 2026. O texto da Case de Valor é um conteúdo educacional independente e não representa reprodução integral, recomendação ou endosso do relatório. Investir em IPOs envolve riscos, volatilidade, histórico operacional limitado e possibilidade de perda do capital. Avalie seus objetivos e perfil de risco antes de investir.

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