Santander lucra R$ 3 bilhões no 2T26, mas provisões e margens derrubam rentabilidade
Lucro recorrente caiu 20,4% no trimestre, ROAE recuou para 12,5% e resultado antes dos impostos encolheu 44,6%, enquanto o banco ampliou a carteira de crédito e manteve controlados os indicadores antecedentes de inadimplência.

O Santander Brasil abriu a temporada de resultados dos grandes bancos com números abaixo das expectativas do mercado. O lucro líquido recorrente somou R$ 3,014 bilhões no segundo trimestre de 2026, queda de 20,4% em relação aos três primeiros meses do ano e de 17,6% na comparação com o mesmo período de 2025.
A deterioração não ficou restrita ao lucro final. O resultado antes dos impostos caiu 44,6% no trimestre, para R$ 2,537 bilhões, pressionado pela combinação entre margem financeira mais fraca, aumento das provisões para perdas de crédito e crescimento de outras despesas operacionais. O retorno sobre o patrimônio líquido médio, o ROAE, recuou para 12,5%, ante 15,9% no primeiro trimestre e 16,3% um ano antes.
O balanço também trouxe sinais positivos, principalmente no crescimento seletivo da carteira de crédito, na estabilidade da formação de novos créditos problemáticos e no controle sequencial das despesas. Esses avanços, entretanto, ainda não foram suficientes para compensar a perda de rentabilidade das operações.
O Santander continua melhorando a composição da carteira, mas o 2T26 mostrou que uma carteira mais defensiva ainda não se traduziu em margens estáveis, provisões menores ou retorno adequado ao acionista.
Principais números do Santander no 2T26
| Indicador | 2T26 | Versus 1T26 | Versus 2T25 |
|---|---|---|---|
| Lucro líquido recorrente | R$ 3,014 bilhões | -20,4% | -17,6% |
| Lucro líquido contábil | R$ 2,667 bilhões | -28,4% | -25,8% |
| ROAE recorrente | 12,5% | -3,4 p.p. | -3,8 p.p. |
| Receita total | R$ 20,675 bilhões | -2,7% | +0,4% |
| Margem financeira bruta | R$ 15,341 bilhões | -3,0% | -0,4% |
| Comissões | R$ 5,334 bilhões | -1,9% | +2,5% |
| Resultado de PDD | R$ 7,654 bilhões | +20,6% | +11,5% |
| Carteira de crédito ampliada | R$ 714,769 bilhões | +1,3% | +5,8% |
| Custo de crédito | 3,81% | +0,08 p.p. | -0,09 p.p. |
| Inadimplência acima de 90 dias | 3,3% | Estável | +0,7 p.p. |
| Índice de eficiência | 39,3% | +1,5 p.p. | +2,4 p.p. |
| Índice de Basileia | 15,3% | +0,2 p.p. | +0,3 p.p. |
Lucro caiu, mas o resultado antes dos impostos caiu ainda mais
O lucro recorrente de R$ 3,014 bilhões já representa uma queda relevante, mas o desempenho operacional foi mais fraco do que o número final sugere. O lucro antes dos impostos somou R$ 2,537 bilhões, recuo de 44,6% ante o primeiro trimestre e de 39,6% em relação ao 2T25.
A diferença entre a queda do lucro antes dos impostos e a retração do lucro líquido ocorreu porque a linha de impostos e participações minoritárias contribuiu positivamente em R$ 477 milhões. No primeiro trimestre, essa mesma linha havia representado uma despesa de R$ 1,134 bilhão e, no segundo trimestre de 2025, uma despesa de R$ 542 milhões.
Isso significa que o benefício tributário amortizou parte da deterioração operacional. Para analisar a qualidade do resultado, portanto, o investidor deve observar principalmente o lucro antes dos impostos, a margem financeira e as provisões, e não apenas o lucro líquido apresentado na última linha.
Essa composição ajuda a explicar a reação negativa do mercado. O resultado recorrente ficou abaixo das projeções divulgadas por diferentes consensos e casas de análise, mesmo com a contribuição favorável dos impostos.
ROAE de 12,5% mostra perda relevante de rentabilidade
O ROAE recorrente caiu para 12,5%, redução de 3,4 pontos percentuais em apenas um trimestre. Na comparação anual, a queda foi de 3,8 pontos percentuais. Trata-se do menor nível de rentabilidade do banco em quase três anos, segundo análises publicadas após o balanço.
O indicador também ficou abaixo da taxa Selic de 14,25% vigente durante o período. Como o custo de capital próprio de um banco brasileiro normalmente incorpora a taxa livre de risco e um prêmio adicional pelo risco do negócio, um ROAE de 12,5% indica que o Santander provavelmente não gerou retorno suficiente para remunerar adequadamente o capital dos acionistas no trimestre.
Essa é a principal fragilidade do balanço. Um banco pode atravessar períodos de crescimento mais lento sem comprometer sua tese de longo prazo, desde que preserve spreads, controle o risco e produza retorno acima do custo de capital. No 2T26, o Santander não conseguiu entregar essa combinação.
Margem financeira caiu mesmo com crescimento dos volumes
A margem financeira bruta totalizou R$ 15,341 bilhões, queda de 3,0% ante o trimestre anterior e de 0,4% em doze meses. A margem com clientes alcançou R$ 16,058 bilhões, recuando 3,2% na comparação trimestral e 0,4% na anual.
O dado mais importante está na relação entre volume e spread. O volume médio de crédito cresceu 4,6% em um ano, para R$ 627,032 bilhões, mas o spread anualizado caiu de 10,55% no 2T25 e de 10,41% no 1T26 para 10,03% no trimestre atual.
Em outras palavras, o Santander aumentou o volume médio de operações, mas passou a ganhar menos sobre cada unidade de crédito concedida. A compressão de 39 pontos-base no trimestre e de 52 pontos-base em um ano anulou o benefício do crescimento dos volumes.
Parte dessa queda está associada à estratégia de reduzir a exposição ao crédito massificado sem garantias, que oferece spreads maiores, mas também apresenta risco de inadimplência mais elevado. A decisão pode melhorar a qualidade da carteira no médio prazo, porém produz uma pressão imediata sobre a receita.
A margem com o mercado permaneceu negativa em R$ 718 milhões. O número foi menos negativo do que no primeiro trimestre, mas a melhora das operações de tesouraria não foi suficiente para compensar a perda de margem com clientes.
Provisões foram o principal peso do trimestre
O resultado líquido de provisões para devedores duvidosos, após recuperações de crédito, atingiu R$ 7,654 bilhões. O valor aumentou 20,6% em relação ao primeiro trimestre e 11,5% na comparação anual.
A despesa bruta de PDD chegou a R$ 8,260 bilhões. O banco recuperou R$ 607 milhões de créditos anteriormente baixados, resultando nos R$ 7,654 bilhões apresentados na demonstração de resultados.
Segundo o Santander, o aumento refletiu reforços pontuais de provisões envolvendo operações do atacado, a revisão dos critérios para baixa de créditos a prejuízo e um ambiente de crédito ainda desafiador em determinadas carteiras. O custo de crédito subiu de 3,73% para 3,81% no trimestre, embora tenha permanecido abaixo dos 3,90% registrados um ano antes.
O fato de parte da alta estar relacionada a eventos específicos e a mudanças metodológicas reduz a possibilidade de simplesmente anualizar a PDD do trimestre. Ainda assim, classificá-la integralmente como não recorrente seria imprudente. O aumento ocorreu em um ambiente no qual a inadimplência longa permanece superior à observada há um ano, especialmente na pessoa física.
Qualidade do crédito apresenta sinais mistos
A inadimplência total acima de 90 dias permaneceu em 3,3% na comparação trimestral, mas aumentou 0,7 ponto percentual em doze meses. Na pessoa física, o indicador avançou de 4,0% no 2T25 para 5,1% no 2T26. Na pessoa jurídica, passou de 1,2% para 1,6%.
O indicador de atraso entre 15 e 90 dias, considerado um termômetro para a inadimplência futura, encerrou o período em 3,3%. O número ficou ligeiramente abaixo dos 3,4% do primeiro trimestre e estável em relação ao mesmo período de 2025.
A formação de novos créditos problemáticos também permaneceu relativamente controlada. O NPL Formation representou 1,00% da carteira, ante 1,01% no trimestre anterior e 0,99% um ano antes.
A leitura, portanto, é dividida. Os indicadores antecedentes não mostraram uma nova deterioração relevante, o que pode sinalizar estabilização para os próximos trimestres. Por outro lado, o estoque de operações vencidas há mais de 90 dias continua significativamente acima do nível registrado há um ano.
Analistas também destacaram que a revisão da política de write-offs acelerou a baixa de determinados créditos problemáticos. Esse efeito dificulta a comparação direta da inadimplência com períodos anteriores, porque uma parcela dos contratos deteriorados deixa de aparecer no estoque após ser enviada a prejuízo.
Carteira cresceu com foco em produtos mais garantidos
A carteira ampliada de crédito atingiu R$ 714,769 bilhões, expansão de 1,3% no trimestre e de 5,8% em doze meses. Desconsiderando a variação cambial, o banco informou que o crescimento teria sido de 1,4% no trimestre e de 6,3% em um ano.
Na pessoa física, a carteira ficou praticamente estável em R$ 263,424 bilhões, com queda de 0,7% no trimestre e de 0,1% na comparação anual. Apesar da estabilidade do total, houve crescimento em linhas consideradas mais estratégicas.
A carteira de cartões avançou 13,0% em um ano, para R$ 65,198 bilhões. O crédito imobiliário cresceu 10,6%, para R$ 77,214 bilhões, enquanto o financiamento ao consumo aumentou 15,3%, alcançando R$ 100,766 bilhões.
Nas pequenas e médias empresas, a carteira subiu 11,5% em doze meses, para R$ 95,957 bilhões. Em grandes empresas, houve crescimento anual de 6,8%, para R$ 254,623 bilhões.
A composição confirma a estratégia de reduzir empréstimos pessoais massificados sem garantia e ampliar operações imobiliárias, financiamento de veículos, alta renda e crédito com maior nível de colateralização. Essa mudança tende a reduzir perdas futuras, mas também diminui o spread médio da carteira.
Comissões cresceram no ano, mas perderam força no trimestre
As receitas de comissões totalizaram R$ 5,334 bilhões, alta de 2,5% na comparação anual e queda de 1,9% ante o primeiro trimestre.
As receitas com cartões cresceram 10,5% em um ano, para R$ 1,638 bilhão. Administração de recursos avançou 26,4%, consórcios cresceram 23,8% e fundos e previdência apresentaram expansão de 30,5%.
Em sentido contrário, as receitas de conta corrente recuaram 12,2%, para R$ 825 milhões, enquanto operações de crédito caíram 2,3%. Corretagem e colocação de títulos cresceram 14,8% em um ano, mas recuaram 15,0% na comparação trimestral.
O avanço das linhas ligadas a investimentos, previdência, consórcios e cartões mostra que o banco continua diversificando suas fontes de receita. Ainda assim, esse crescimento não teve escala suficiente para neutralizar a queda da margem financeira e o aumento da PDD.
Despesas controladas, mas eficiência piorou
As despesas gerais somaram R$ 6,578 bilhões, queda de 0,8% no trimestre e alta de 2,6% em um ano. As despesas de pessoal recuaram 1,2% na comparação anual, enquanto as despesas administrativas cresceram 5,9% e as depreciações e amortizações avançaram 6,6%.
O controle sequencial das despesas é um ponto positivo, especialmente diante dos investimentos em tecnologia e inteligência artificial. Entretanto, o índice de eficiência subiu de 37,7% no primeiro trimestre para 39,3% no segundo trimestre. Em relação ao 2T25, houve aumento de 2,4 pontos percentuais.
Como um índice de eficiência mais baixo representa uma operação mais eficiente, o aumento indica deterioração. O problema não foi apenas o crescimento dos custos, mas principalmente a queda das receitas no trimestre. Quando a receita recua mais rapidamente do que as despesas, o índice de eficiência piora mesmo com contenção nominal dos gastos.
Capital permanece adequado, mas CET1 recuou
O Índice de Basileia encerrou junho em 15,3%, alta de 0,2 ponto percentual no trimestre e de 0,3 ponto percentual em doze meses. O nível oferece capacidade para sustentar as operações e absorver eventuais perdas adicionais.
O capital principal CET1, entretanto, caiu para 11,2%, redução de 0,1 ponto percentual no trimestre e de 0,4 ponto percentual na comparação anual. O movimento não representa, isoladamente, um problema imediato de solvência, mas merece acompanhamento em conjunto com o crescimento da carteira, as provisões e a geração de lucro.
A reação das ações SANB11
O mercado recebeu negativamente o balanço. Por volta das 10h10 desta quarta-feira, as units SANB11 recuavam 6,18%, negociadas a R$ 25,96.
A queda refletiu principalmente três pontos: o lucro abaixo das projeções, o aumento maior do que o esperado das provisões e a compressão da margem com clientes. A retração de 44,6% do lucro antes dos impostos também reforçou a percepção de que a deterioração foi operacional e não apenas provocada por ajustes contábeis.
As diferentes pesquisas de mercado apresentavam estimativas distintas para o lucro, com consensos publicados por Bloomberg e LSEG variando entre aproximadamente R$ 3,4 bilhões e R$ 3,9 bilhões. Apesar da diferença metodológica, o lucro de R$ 3,014 bilhões ficou abaixo de todas as principais referências divulgadas.
A análise da Case de Valor
O resultado do Santander foi fraco. A avaliação não decorre apenas da queda de 17,6% do lucro, mas da combinação entre menor margem, provisões maiores, piora do índice de eficiência e forte retração do resultado antes dos impostos.
A qualidade do lucro também foi inferior à sugerida pela última linha. O benefício na conta de impostos ajudou a limitar a queda do resultado líquido, enquanto o desempenho antes da tributação caiu quase 45% no trimestre. Para que a recuperação seja considerada consistente, o banco precisará voltar a crescer por meio da margem financeira e das comissões, e não depender de efeitos tributários.
A principal defesa do Santander é a mudança de composição da carteira. O banco está reduzindo a exposição ao crédito pessoal de maior risco e direcionando capital para clientes de alta renda, financiamento imobiliário, veículos e operações mais colateralizadas. Essa estratégia faz sentido e pode produzir menores perdas ao longo do ciclo.
O problema é que a transição cobra um preço. Ao trocar produtos com spreads elevados por operações mais seguras, o banco reduz a margem financeira no curto prazo. O balanço do 2T26 mostrou exatamente esse efeito: os volumes cresceram, mas o spread caiu e a receita não acompanhou a expansão da carteira.
Também é cedo para afirmar que o pior da qualidade de crédito passou. A inadimplência curta e a formação de NPL ficaram estáveis, o que é construtivo, mas a inadimplência acima de 90 dias permanece elevada na comparação anual. Além disso, as mudanças nos critérios de write-off reduzem a comparabilidade dos indicadores.
Com ROAE de 12,5%, o Santander ainda não oferece uma rentabilidade operacional compatível com o risco de uma instituição financeira brasileira. A recuperação da ação dependerá menos de promessas de longo prazo e mais da entrega concreta de três movimentos: estabilização dos spreads, normalização das provisões e retorno do ROAE para níveis superiores ao custo de capital.
A carteira está ficando mais segura, mas o acionista ainda está pagando pela transição por meio de margens menores e rentabilidade insuficiente.
O que monitorar nos próximos trimestres
O primeiro ponto será a margem com clientes. O mercado precisará observar se o spread de 10,03% representa um piso ou se a migração para linhas mais seguras continuará comprimindo a receita.
O segundo indicador será a PDD. Será importante separar os reforços considerados pontuais no atacado e os efeitos da nova política de write-offs da evolução recorrente das perdas nas carteiras de varejo e pequenas empresas.
A inadimplência entre 15 e 90 dias e a formação de NPL ajudarão a antecipar o comportamento da inadimplência longa. Uma melhora consistente desses indicadores confirmaria que a mudança de mix está reduzindo o risco. Uma nova deterioração colocaria em dúvida a velocidade de recuperação do banco.
Por fim, o ROAE precisará reagir. Sem uma recuperação da rentabilidade para patamares claramente superiores à Selic e ao custo de capital, o desconto das ações em relação aos concorrentes tende a permanecer justificado.
Conclusão
O Santander apresentou um resultado abaixo do esperado e com baixa qualidade operacional no segundo trimestre. A expansão da carteira e a estabilidade dos indicadores antecedentes de inadimplência foram insuficientes para neutralizar a queda dos spreads e o aumento das provisões.
A estratégia de reduzir risco e melhorar a composição do crédito é correta, mas ainda não produziu os benefícios esperados na demonstração de resultados. O banco precisa provar que consegue combinar uma carteira mais segura com crescimento de receitas, controle de perdas e rentabilidade adequada.
O 2T26 não invalida definitivamente a recuperação do Santander, mas aumenta o nível de exigência para os próximos balanços. Até que margem, PDD e ROAE apresentem melhora simultânea, a tese continuará dependendo mais de expectativa do que de evidência operacional.
Este conteúdo possui caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de compra ou venda de ativos financeiros. Os dados podem sofrer ajustes conforme novas divulgações e atualizações das fontes oficiais.
Fontes consultadas
- Santander Brasil — Apresentação oficial de resultados do 2T26
- Santander Relações com Investidores — Central de resultados e relatórios
- Reuters — Lucro, consenso de mercado, margem financeira e provisões
- InfoMoney — Reação das ações e avaliações de analistas sobre o balanço
- Money Times — Consenso, rentabilidade e principais pressões do resultado
- Seu Dinheiro — Qualidade de crédito, margem financeira e contexto do resultado
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