Resultados e Balanços

Santander lucra R$ 3 bilhões no 2T26, mas provisões e margens derrubam rentabilidade

Lucro recorrente caiu 20,4% no trimestre, ROAE recuou para 12,5% e resultado antes dos impostos encolheu 44,6%, enquanto o banco ampliou a carteira de crédito e manteve controlados os indicadores antecedentes de inadimplência.

Equipe Case de Valor 29 de julho de 2026 13 min de leitura
Santander lucra R$ 3 bilhões no 2T26, mas provisões e margens derrubam rentabilidade

O Santander Brasil abriu a temporada de resultados dos grandes bancos com números abaixo das expectativas do mercado. O lucro líquido recorrente somou R$ 3,014 bilhões no segundo trimestre de 2026, queda de 20,4% em relação aos três primeiros meses do ano e de 17,6% na comparação com o mesmo período de 2025.

A deterioração não ficou restrita ao lucro final. O resultado antes dos impostos caiu 44,6% no trimestre, para R$ 2,537 bilhões, pressionado pela combinação entre margem financeira mais fraca, aumento das provisões para perdas de crédito e crescimento de outras despesas operacionais. O retorno sobre o patrimônio líquido médio, o ROAE, recuou para 12,5%, ante 15,9% no primeiro trimestre e 16,3% um ano antes.

O balanço também trouxe sinais positivos, principalmente no crescimento seletivo da carteira de crédito, na estabilidade da formação de novos créditos problemáticos e no controle sequencial das despesas. Esses avanços, entretanto, ainda não foram suficientes para compensar a perda de rentabilidade das operações.

O Santander continua melhorando a composição da carteira, mas o 2T26 mostrou que uma carteira mais defensiva ainda não se traduziu em margens estáveis, provisões menores ou retorno adequado ao acionista.

Principais números do Santander no 2T26

Indicador 2T26 Versus 1T26 Versus 2T25
Lucro líquido recorrente R$ 3,014 bilhões -20,4% -17,6%
Lucro líquido contábil R$ 2,667 bilhões -28,4% -25,8%
ROAE recorrente 12,5% -3,4 p.p. -3,8 p.p.
Receita total R$ 20,675 bilhões -2,7% +0,4%
Margem financeira bruta R$ 15,341 bilhões -3,0% -0,4%
Comissões R$ 5,334 bilhões -1,9% +2,5%
Resultado de PDD R$ 7,654 bilhões +20,6% +11,5%
Carteira de crédito ampliada R$ 714,769 bilhões +1,3% +5,8%
Custo de crédito 3,81% +0,08 p.p. -0,09 p.p.
Inadimplência acima de 90 dias 3,3% Estável +0,7 p.p.
Índice de eficiência 39,3% +1,5 p.p. +2,4 p.p.
Índice de Basileia 15,3% +0,2 p.p. +0,3 p.p.

Lucro caiu, mas o resultado antes dos impostos caiu ainda mais

O lucro recorrente de R$ 3,014 bilhões já representa uma queda relevante, mas o desempenho operacional foi mais fraco do que o número final sugere. O lucro antes dos impostos somou R$ 2,537 bilhões, recuo de 44,6% ante o primeiro trimestre e de 39,6% em relação ao 2T25.

A diferença entre a queda do lucro antes dos impostos e a retração do lucro líquido ocorreu porque a linha de impostos e participações minoritárias contribuiu positivamente em R$ 477 milhões. No primeiro trimestre, essa mesma linha havia representado uma despesa de R$ 1,134 bilhão e, no segundo trimestre de 2025, uma despesa de R$ 542 milhões.

Isso significa que o benefício tributário amortizou parte da deterioração operacional. Para analisar a qualidade do resultado, portanto, o investidor deve observar principalmente o lucro antes dos impostos, a margem financeira e as provisões, e não apenas o lucro líquido apresentado na última linha.

Essa composição ajuda a explicar a reação negativa do mercado. O resultado recorrente ficou abaixo das projeções divulgadas por diferentes consensos e casas de análise, mesmo com a contribuição favorável dos impostos.

ROAE de 12,5% mostra perda relevante de rentabilidade

O ROAE recorrente caiu para 12,5%, redução de 3,4 pontos percentuais em apenas um trimestre. Na comparação anual, a queda foi de 3,8 pontos percentuais. Trata-se do menor nível de rentabilidade do banco em quase três anos, segundo análises publicadas após o balanço.

O indicador também ficou abaixo da taxa Selic de 14,25% vigente durante o período. Como o custo de capital próprio de um banco brasileiro normalmente incorpora a taxa livre de risco e um prêmio adicional pelo risco do negócio, um ROAE de 12,5% indica que o Santander provavelmente não gerou retorno suficiente para remunerar adequadamente o capital dos acionistas no trimestre.

Essa é a principal fragilidade do balanço. Um banco pode atravessar períodos de crescimento mais lento sem comprometer sua tese de longo prazo, desde que preserve spreads, controle o risco e produza retorno acima do custo de capital. No 2T26, o Santander não conseguiu entregar essa combinação.

Margem financeira caiu mesmo com crescimento dos volumes

A margem financeira bruta totalizou R$ 15,341 bilhões, queda de 3,0% ante o trimestre anterior e de 0,4% em doze meses. A margem com clientes alcançou R$ 16,058 bilhões, recuando 3,2% na comparação trimestral e 0,4% na anual.

O dado mais importante está na relação entre volume e spread. O volume médio de crédito cresceu 4,6% em um ano, para R$ 627,032 bilhões, mas o spread anualizado caiu de 10,55% no 2T25 e de 10,41% no 1T26 para 10,03% no trimestre atual.

Em outras palavras, o Santander aumentou o volume médio de operações, mas passou a ganhar menos sobre cada unidade de crédito concedida. A compressão de 39 pontos-base no trimestre e de 52 pontos-base em um ano anulou o benefício do crescimento dos volumes.

Parte dessa queda está associada à estratégia de reduzir a exposição ao crédito massificado sem garantias, que oferece spreads maiores, mas também apresenta risco de inadimplência mais elevado. A decisão pode melhorar a qualidade da carteira no médio prazo, porém produz uma pressão imediata sobre a receita.

A margem com o mercado permaneceu negativa em R$ 718 milhões. O número foi menos negativo do que no primeiro trimestre, mas a melhora das operações de tesouraria não foi suficiente para compensar a perda de margem com clientes.

Provisões foram o principal peso do trimestre

O resultado líquido de provisões para devedores duvidosos, após recuperações de crédito, atingiu R$ 7,654 bilhões. O valor aumentou 20,6% em relação ao primeiro trimestre e 11,5% na comparação anual.

A despesa bruta de PDD chegou a R$ 8,260 bilhões. O banco recuperou R$ 607 milhões de créditos anteriormente baixados, resultando nos R$ 7,654 bilhões apresentados na demonstração de resultados.

Segundo o Santander, o aumento refletiu reforços pontuais de provisões envolvendo operações do atacado, a revisão dos critérios para baixa de créditos a prejuízo e um ambiente de crédito ainda desafiador em determinadas carteiras. O custo de crédito subiu de 3,73% para 3,81% no trimestre, embora tenha permanecido abaixo dos 3,90% registrados um ano antes.

O fato de parte da alta estar relacionada a eventos específicos e a mudanças metodológicas reduz a possibilidade de simplesmente anualizar a PDD do trimestre. Ainda assim, classificá-la integralmente como não recorrente seria imprudente. O aumento ocorreu em um ambiente no qual a inadimplência longa permanece superior à observada há um ano, especialmente na pessoa física.

Qualidade do crédito apresenta sinais mistos

A inadimplência total acima de 90 dias permaneceu em 3,3% na comparação trimestral, mas aumentou 0,7 ponto percentual em doze meses. Na pessoa física, o indicador avançou de 4,0% no 2T25 para 5,1% no 2T26. Na pessoa jurídica, passou de 1,2% para 1,6%.

O indicador de atraso entre 15 e 90 dias, considerado um termômetro para a inadimplência futura, encerrou o período em 3,3%. O número ficou ligeiramente abaixo dos 3,4% do primeiro trimestre e estável em relação ao mesmo período de 2025.

A formação de novos créditos problemáticos também permaneceu relativamente controlada. O NPL Formation representou 1,00% da carteira, ante 1,01% no trimestre anterior e 0,99% um ano antes.

A leitura, portanto, é dividida. Os indicadores antecedentes não mostraram uma nova deterioração relevante, o que pode sinalizar estabilização para os próximos trimestres. Por outro lado, o estoque de operações vencidas há mais de 90 dias continua significativamente acima do nível registrado há um ano.

Analistas também destacaram que a revisão da política de write-offs acelerou a baixa de determinados créditos problemáticos. Esse efeito dificulta a comparação direta da inadimplência com períodos anteriores, porque uma parcela dos contratos deteriorados deixa de aparecer no estoque após ser enviada a prejuízo.

Carteira cresceu com foco em produtos mais garantidos

A carteira ampliada de crédito atingiu R$ 714,769 bilhões, expansão de 1,3% no trimestre e de 5,8% em doze meses. Desconsiderando a variação cambial, o banco informou que o crescimento teria sido de 1,4% no trimestre e de 6,3% em um ano.

Na pessoa física, a carteira ficou praticamente estável em R$ 263,424 bilhões, com queda de 0,7% no trimestre e de 0,1% na comparação anual. Apesar da estabilidade do total, houve crescimento em linhas consideradas mais estratégicas.

A carteira de cartões avançou 13,0% em um ano, para R$ 65,198 bilhões. O crédito imobiliário cresceu 10,6%, para R$ 77,214 bilhões, enquanto o financiamento ao consumo aumentou 15,3%, alcançando R$ 100,766 bilhões.

Nas pequenas e médias empresas, a carteira subiu 11,5% em doze meses, para R$ 95,957 bilhões. Em grandes empresas, houve crescimento anual de 6,8%, para R$ 254,623 bilhões.

A composição confirma a estratégia de reduzir empréstimos pessoais massificados sem garantia e ampliar operações imobiliárias, financiamento de veículos, alta renda e crédito com maior nível de colateralização. Essa mudança tende a reduzir perdas futuras, mas também diminui o spread médio da carteira.

Comissões cresceram no ano, mas perderam força no trimestre

As receitas de comissões totalizaram R$ 5,334 bilhões, alta de 2,5% na comparação anual e queda de 1,9% ante o primeiro trimestre.

As receitas com cartões cresceram 10,5% em um ano, para R$ 1,638 bilhão. Administração de recursos avançou 26,4%, consórcios cresceram 23,8% e fundos e previdência apresentaram expansão de 30,5%.

Em sentido contrário, as receitas de conta corrente recuaram 12,2%, para R$ 825 milhões, enquanto operações de crédito caíram 2,3%. Corretagem e colocação de títulos cresceram 14,8% em um ano, mas recuaram 15,0% na comparação trimestral.

O avanço das linhas ligadas a investimentos, previdência, consórcios e cartões mostra que o banco continua diversificando suas fontes de receita. Ainda assim, esse crescimento não teve escala suficiente para neutralizar a queda da margem financeira e o aumento da PDD.

Despesas controladas, mas eficiência piorou

As despesas gerais somaram R$ 6,578 bilhões, queda de 0,8% no trimestre e alta de 2,6% em um ano. As despesas de pessoal recuaram 1,2% na comparação anual, enquanto as despesas administrativas cresceram 5,9% e as depreciações e amortizações avançaram 6,6%.

O controle sequencial das despesas é um ponto positivo, especialmente diante dos investimentos em tecnologia e inteligência artificial. Entretanto, o índice de eficiência subiu de 37,7% no primeiro trimestre para 39,3% no segundo trimestre. Em relação ao 2T25, houve aumento de 2,4 pontos percentuais.

Como um índice de eficiência mais baixo representa uma operação mais eficiente, o aumento indica deterioração. O problema não foi apenas o crescimento dos custos, mas principalmente a queda das receitas no trimestre. Quando a receita recua mais rapidamente do que as despesas, o índice de eficiência piora mesmo com contenção nominal dos gastos.

Capital permanece adequado, mas CET1 recuou

O Índice de Basileia encerrou junho em 15,3%, alta de 0,2 ponto percentual no trimestre e de 0,3 ponto percentual em doze meses. O nível oferece capacidade para sustentar as operações e absorver eventuais perdas adicionais.

O capital principal CET1, entretanto, caiu para 11,2%, redução de 0,1 ponto percentual no trimestre e de 0,4 ponto percentual na comparação anual. O movimento não representa, isoladamente, um problema imediato de solvência, mas merece acompanhamento em conjunto com o crescimento da carteira, as provisões e a geração de lucro.

A reação das ações SANB11

O mercado recebeu negativamente o balanço. Por volta das 10h10 desta quarta-feira, as units SANB11 recuavam 6,18%, negociadas a R$ 25,96.

A queda refletiu principalmente três pontos: o lucro abaixo das projeções, o aumento maior do que o esperado das provisões e a compressão da margem com clientes. A retração de 44,6% do lucro antes dos impostos também reforçou a percepção de que a deterioração foi operacional e não apenas provocada por ajustes contábeis.

As diferentes pesquisas de mercado apresentavam estimativas distintas para o lucro, com consensos publicados por Bloomberg e LSEG variando entre aproximadamente R$ 3,4 bilhões e R$ 3,9 bilhões. Apesar da diferença metodológica, o lucro de R$ 3,014 bilhões ficou abaixo de todas as principais referências divulgadas.

A análise da Case de Valor

O resultado do Santander foi fraco. A avaliação não decorre apenas da queda de 17,6% do lucro, mas da combinação entre menor margem, provisões maiores, piora do índice de eficiência e forte retração do resultado antes dos impostos.

A qualidade do lucro também foi inferior à sugerida pela última linha. O benefício na conta de impostos ajudou a limitar a queda do resultado líquido, enquanto o desempenho antes da tributação caiu quase 45% no trimestre. Para que a recuperação seja considerada consistente, o banco precisará voltar a crescer por meio da margem financeira e das comissões, e não depender de efeitos tributários.

A principal defesa do Santander é a mudança de composição da carteira. O banco está reduzindo a exposição ao crédito pessoal de maior risco e direcionando capital para clientes de alta renda, financiamento imobiliário, veículos e operações mais colateralizadas. Essa estratégia faz sentido e pode produzir menores perdas ao longo do ciclo.

O problema é que a transição cobra um preço. Ao trocar produtos com spreads elevados por operações mais seguras, o banco reduz a margem financeira no curto prazo. O balanço do 2T26 mostrou exatamente esse efeito: os volumes cresceram, mas o spread caiu e a receita não acompanhou a expansão da carteira.

Também é cedo para afirmar que o pior da qualidade de crédito passou. A inadimplência curta e a formação de NPL ficaram estáveis, o que é construtivo, mas a inadimplência acima de 90 dias permanece elevada na comparação anual. Além disso, as mudanças nos critérios de write-off reduzem a comparabilidade dos indicadores.

Com ROAE de 12,5%, o Santander ainda não oferece uma rentabilidade operacional compatível com o risco de uma instituição financeira brasileira. A recuperação da ação dependerá menos de promessas de longo prazo e mais da entrega concreta de três movimentos: estabilização dos spreads, normalização das provisões e retorno do ROAE para níveis superiores ao custo de capital.

A carteira está ficando mais segura, mas o acionista ainda está pagando pela transição por meio de margens menores e rentabilidade insuficiente.

O que monitorar nos próximos trimestres

O primeiro ponto será a margem com clientes. O mercado precisará observar se o spread de 10,03% representa um piso ou se a migração para linhas mais seguras continuará comprimindo a receita.

O segundo indicador será a PDD. Será importante separar os reforços considerados pontuais no atacado e os efeitos da nova política de write-offs da evolução recorrente das perdas nas carteiras de varejo e pequenas empresas.

A inadimplência entre 15 e 90 dias e a formação de NPL ajudarão a antecipar o comportamento da inadimplência longa. Uma melhora consistente desses indicadores confirmaria que a mudança de mix está reduzindo o risco. Uma nova deterioração colocaria em dúvida a velocidade de recuperação do banco.

Por fim, o ROAE precisará reagir. Sem uma recuperação da rentabilidade para patamares claramente superiores à Selic e ao custo de capital, o desconto das ações em relação aos concorrentes tende a permanecer justificado.

Conclusão

O Santander apresentou um resultado abaixo do esperado e com baixa qualidade operacional no segundo trimestre. A expansão da carteira e a estabilidade dos indicadores antecedentes de inadimplência foram insuficientes para neutralizar a queda dos spreads e o aumento das provisões.

A estratégia de reduzir risco e melhorar a composição do crédito é correta, mas ainda não produziu os benefícios esperados na demonstração de resultados. O banco precisa provar que consegue combinar uma carteira mais segura com crescimento de receitas, controle de perdas e rentabilidade adequada.

O 2T26 não invalida definitivamente a recuperação do Santander, mas aumenta o nível de exigência para os próximos balanços. Até que margem, PDD e ROAE apresentem melhora simultânea, a tese continuará dependendo mais de expectativa do que de evidência operacional.

Este conteúdo possui caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de compra ou venda de ativos financeiros. Os dados podem sofrer ajustes conforme novas divulgações e atualizações das fontes oficiais.

Fontes consultadas

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