Fechamento de Mercado: Ibovespa cai com balanços; Hapvida desaba 32%
PPI abaixo do esperado levou o S&P 500 a novo recorde, mas resultados de Hapvida, Sabesp e Banco do Brasil pressionaram a bolsa brasileira; dólar avançou a R$ 5,193.

O Ibovespa encerrou esta quinta-feira, 13 de agosto de 2026, em queda de 0,23%, aos 167.098,08 pontos. O índice oscilou entre 166.196,92 e 168.515,49 pontos em uma sessão marcada por forte dispersão entre as ações: a repercussão dos balanços derrubou Hapvida, Sabesp e Banco do Brasil, enquanto MRV e Rede D'Or avançaram com força.
O dólar comercial subiu 0,25%, a R$ 5,193 na venda, e completou a quarta alta consecutiva. A moeda oscilou entre R$ 5,176 e R$ 5,199, mesmo com o DXY próximo da estabilidade e em leve baixa no exterior. O comportamento reforçou a influência de fatores locais, especialmente a cautela eleitoral e a redução da exposição de investidores globais ao real.
No exterior, o índice de preços ao produtor dos Estados Unidos ficou estável em julho e acumulou alta de 4,7% em 12 meses, abaixo das expectativas. A desaceleração da inflação no atacado reduziu a pressão sobre os juros, derrubou os rendimentos dos Treasuries e ajudou o S&P 500 a renovar sua máxima histórica. A queda superior a 2% do petróleo também favoreceu o apetite por risco em Nova York.
Destaque do dia
O destaque do pregão foi a intensidade da reação aos resultados corporativos. Embora o Ibovespa tenha recuado apenas 0,23%, Hapvida caiu 32,25%, a R$ 6,49, após um trimestre marcado por margens pressionadas e uma judicialização significativamente pior que a esperada. O balanço aumentou a incerteza sobre o nível normalizado de rentabilidade da companhia e provocou uma revisão abrupta das expectativas.
Sabesp perdeu 6,81%, a R$ 24,34, após a divulgação do segundo trimestre, e Banco do Brasil recuou 4,05%, a R$ 18,23. O banco apresentou lucro ajustado de R$ 3,9 bilhões, acima das projeções, mas a inadimplência ainda elevada no agronegócio e em pessoas físicas, além da pressão sobre o capital, prevaleceu na leitura dos investidores.
Na direção oposta, MRV avançou 14,29%, a R$ 4,80. Mesmo com prejuízo de R$ 626 milhões, afetado por baixas contábeis relacionadas à venda de ativos da subsidiária americana, o mercado valorizou a evolução da operação brasileira, a melhora das margens e a geração de caixa. Rede D'Or também subiu 6,16%, a R$ 34,49, após uma leitura positiva de seus resultados.
Esse contraste mostra por que a variação do índice, isoladamente, não resume o dia. O pregão foi menos uma decisão ampla sobre o mercado brasileiro e mais uma reprecificação de empresas com base em lucro, qualidade do resultado, risco operacional e capacidade de geração de caixa.
O Ibovespa caiu pouco, mas os balanços produziram movimentos extremos e separaram com clareza execução operacional de expectativa.
Cenário macro e política
Panorama internacional
Em Nova York, o Dow Jones subiu 0,13%, aos 53.840,21 pontos, o S&P 500 avançou 0,66%, aos 7.799,19 pontos, e o Nasdaq ganhou 0,81%, aos 26.803,02 pontos. O S&P 500 superou a máxima histórica registrada na semana anterior, apoiado pela combinação de inflação menos pressionada, queda dos juros longos e valorização de empresas de tecnologia.
O PPI americano ficou estável em julho, abaixo da alta de 0,2% esperada, e desacelerou de 5,5% para 4,7% em 12 meses. O núcleo avançou 0,2% no mês, abaixo da projeção de 0,3%, e acumulou 4,2% em um ano. Os dados não significam que a inflação voltou à meta do Federal Reserve, mas reduziram o risco de uma nova alta dos juros já em setembro.
Os pedidos iniciais de seguro-desemprego somaram 209 mil, acima dos 202 mil esperados. A combinação de inflação no atacado mais moderada e mercado de trabalho menos apertado levou o rendimento do Treasury de dez anos a 4,64%, ante 4,68% na véspera. Juros longos menores reduzem a taxa de desconto aplicada aos lucros futuros e tendem a favorecer ações de crescimento.
O petróleo também contribuiu para o alívio. Brent e WTI caíram mais de 2% diante de sinais de demanda menor e do aumento dos estoques, apesar de o impasse no Estreito de Ormuz continuar impondo risco geopolítico. Energia mais barata ajuda a conter expectativas de inflação, mas o conflito mantém as cotações sujeitas a mudanças bruscas.
Cenário doméstico e política
No Brasil, as vendas do varejo restrito cresceram 0,45% em junho frente a maio e 2,9% na comparação anual, acima das expectativas. O dado mostrou alguma resiliência do consumo, mas não foi suficiente para neutralizar a pressão dos balanços e a cautela com juros, eleições e fluxo estrangeiro.
Os juros futuros recuaram ao longo da curva, acompanhando o alívio nos Treasuries e a leitura mais favorável do PPI. O movimento ajudou empresas sensíveis ao custo de capital, mas a reação foi seletiva: companhias com resultados considerados frágeis continuaram sofrendo, independentemente da melhora macroeconômica externa.
No campo político, o mercado acompanhou a aproximação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, além das discussões no Congresso sobre despesas fora do limite fiscal e benefícios tributários. A proximidade do ciclo eleitoral continuou elevando a sensibilidade dos ativos brasileiros a notícias sobre alianças, gastos e governabilidade.
O governo também regulamentou a abertura do mercado livre de energia para consumidores de baixa tensão. O cronograma prevê acesso para classes industrial e comercial até novembro de 2027 e para consumidores residenciais até novembro de 2028. A medida amplia a competição no setor, mas seus efeitos dependerão das regras de migração, dos custos fixos e da execução regulatória.
Mercados em números
| Ativo | Fechamento | Variação |
|---|---|---|
| Ibovespa | 167.098,08 pontos | -0,23% |
| S&P 500 | 7.799,19 pontos | +0,66% |
| Nasdaq | 26.803,02 pontos | +0,81% |
| Dólar comercial | R$ 5,193 | +0,25% |
| Euro | US$ 1,1528 | +0,05% |
| DXY | 99,97 pontos | -0,04% |
| Brent | US$ 87,07 | -2,15% |
| WTI | US$ 81,25 | -2,43% |
| Ouro | US$ 4.350,06 | -1,32% |
Os números evidenciam a divergência entre os mercados. Nos Estados Unidos, o PPI abaixo do esperado e a queda do petróleo impulsionaram ações e reduziram os juros longos. No Brasil, o efeito positivo foi limitado pela temporada de balanços e pela pressão localizada em empresas de grande peso ou alta sensibilidade ao risco.
O câmbio também destoou do exterior. Enquanto o DXY recuou levemente, o dólar subiu pelo quarto dia frente ao real. Essa diferença sugere que o prêmio doméstico e o fluxo tiveram influência maior que a direção global da moeda americana.
Commodities, câmbio e ouro
Petróleo
O Brent para outubro caiu 2,15%, a US$ 87,07 por barril, enquanto o WTI para setembro recuou 2,43%, a US$ 81,25. A Agência Internacional de Energia apontou uma perspectiva de demanda global mais fraca, e o aumento dos estoques americanos também pressionou as cotações.
A queda ocorreu apesar das tensões no Oriente Médio e das declarações conflitantes sobre o controle do Estreito de Ormuz. O risco de interrupção do fluxo continua relevante, mas, nesta sessão, os sinais de menor consumo e maior oferta disponível tiveram mais peso. Petrobras preferencial avançou 0,99%, mostrando que o desempenho da ação também refletiu fatores específicos e posicionamento, não apenas a cotação diária do barril.
Minério de ferro
O minério de ferro negociado em Dalian caiu 0,21%, a 705,00 yuans por tonelada. A redução das perdas das siderúrgicas e os custos de frete ofereceram algum suporte, mas a queda das exportações chinesas de aço e as dúvidas sobre a força da demanda limitaram o mercado.
A Vale recuou 2,06%, a R$ 71,67, e contribuiu para a pressão sobre o Ibovespa. A empresa anunciou a antecipação da expansão do projeto de cobre de Salobo para o primeiro semestre de 2028, com potencial de acrescentar até 30 mil toneladas anuais de cobre e cerca de 15 mil onças de ouro como subproduto, mas a fraqueza do minério prevaleceu no pregão.
Dólar e ouro
O dólar comercial fechou a R$ 5,193, em alta de 0,25%, depois de oscilar entre R$ 5,176 e R$ 5,199. A PTAX encerrou a R$ 5,1859 na venda. Como o DXY recuou para 99,97 pontos, a valorização da moeda frente ao real refletiu principalmente a cautela com o cenário doméstico e o reposicionamento de investidores.
O ouro à vista recuou 1,32%, para aproximadamente US$ 4.350,06 por onça-troy. A queda aconteceu mesmo com Treasuries mais baixos, pois o avanço das bolsas e a redução do estresse inflacionário diminuíram a demanda imediata por proteção. O risco geopolítico, porém, continua sendo um suporte potencial para o metal.
Renda variável e destaques corporativos
Maiores altas do Ibovespa
MRVE3 — +14,29%
Fechamento: R$ 4,80
A MRV liderou os ganhos após o mercado separar o prejuízo contábil de R$ 626 milhões da evolução operacional do negócio brasileiro. Baixas ligadas à venda de ativos da subsidiária americana afetaram o resultado consolidado, enquanto melhora de margens e geração de caixa no Brasil sustentaram uma leitura mais construtiva.
RDOR3 — +6,16%
Fechamento: R$ 34,49
A Rede D'Or avançou após a repercussão positiva do balanço. A companhia apresentou desempenho que reforçou a percepção de disciplina operacional e indicou que poderá descontinuar contratos com hospitais menos atrativos, priorizando rentabilidade e qualidade de receita.
GMAT3 — +5,00%
Fechamento: R$ 3,78
O Grupo Mateus acompanhou a valorização das empresas supermercadistas em um dia de rotação setorial. Não foi identificado, até o fechamento, um fato corporativo isolado capaz de explicar sozinho a alta; o movimento ocorreu junto com ganhos de Assaí e Pão de Açúcar.
Maiores baixas do Ibovespa
HAPV3 — -32,25%
Fechamento: R$ 6,49
A Hapvida desabou após o segundo trimestre revelar margens pressionadas e judicialização muito pior que a esperada. A dificuldade de estimar uma rentabilidade normalizada elevou a percepção de risco e forçou uma revisão rápida das premissas usadas para avaliar a companhia.
BEEF3 — -7,29%
Fechamento: R$ 3,05
A Minerva caiu após apresentar Ebitda em linha com as estimativas, mas geração de caixa pressionada pelo consumo de capital de giro. Incertezas sobre a demanda chinesa também pesaram, mostrando que um resultado operacional dentro do esperado não compensa, necessariamente, a preocupação com caixa e alavancagem.
SBSP3 — -6,81%
Fechamento: R$ 24,34
A Sabesp recuou com a avaliação do balanço do segundo trimestre. A ação foi a mais negociada do dia em parte da sessão, sinalizando uma reprecificação relevante das expectativas sobre resultado, investimentos e retorno após a divulgação.
Corporativo e balanços
O Banco do Brasil terminou em queda de 4,05%, a R$ 18,23. O lucro ajustado de R$ 3,9 bilhões superou as estimativas, mas a inadimplência acima de 90 dias alcançou 6,27% no agronegócio e 8,41% na pessoa física. A administração espera melhora das provisões do agro com o programa de renegociação de dívidas e relatou recuperação de R$ 2 bilhões em créditos em julho, mas o mercado manteve uma postura cautelosa.
A queda da Hapvida contrastou com os ganhos de Rede D'Or e Qualicorp, reforçando a necessidade de analisar o setor de saúde empresa por empresa. Judicialização, sinistralidade, mix de contratos, integração de ativos e disciplina de custos podem produzir resultados muito diferentes mesmo sob condições macroeconômicas semelhantes.
Após o fechamento, o mercado recebeu novos balanços, incluindo MBRF, Braskem, Cemig, CPFL Energia, Cyrela, IRB, Raízen, Yduqs e Vamos. A leitura desses números deve ampliar a volatilidade na abertura de sexta-feira, especialmente em alimentos, petroquímica, energia, construção, seguros e educação.
O que monitorar amanhã
Nos Estados Unidos, o principal indicador será a leitura de vendas no varejo de julho, às 9h30 de Brasília. Depois do alívio no CPI e no PPI, o dado mostrará se o consumo permanece forte e ajudará a calibrar a combinação entre crescimento e inflação considerada pelo Fed.
Também serão divulgados os estoques empresariais de junho e a prévia de agosto do índice de confiança do consumidor da Universidade de Michigan. Além do nível de confiança, investidores acompanharão as expectativas de inflação das famílias, sensíveis à volatilidade recente do petróleo e da gasolina.
Na China, vendas no varejo, produção industrial, investimento em ativos fixos e desemprego entram no radar. Os dados serão especialmente relevantes para minério de ferro, siderúrgicas e empresas brasileiras expostas à demanda chinesa, depois de um início de semestre marcado por consumo fraco e desaceleração industrial.
No Brasil, a reação aos balanços divulgados nesta quinta-feira deve dominar o noticiário corporativo. O mercado também continuará monitorando dólar, juros futuros, fluxo estrangeiro e articulações políticas, com atenção ao impacto das expectativas eleitorais sobre o prêmio de risco.
A visão da Case de Valor
O fechamento desta quinta-feira oferece uma lição importante: um índice quase estável pode esconder mudanças profundas na avaliação das empresas. A queda de 0,23% do Ibovespa parece pequena, mas a amplitude entre MRV e Hapvida superou 46 pontos percentuais.
A temporada de balanços torna mais visível a diferença entre lucro contábil e qualidade econômica. A MRV registrou prejuízo, mas avançou porque o mercado enxergou melhora operacional no Brasil e efeitos não recorrentes. O Banco do Brasil entregou lucro acima do esperado, mas caiu porque inadimplência e capital continuaram preocupando. O número principal raramente conta toda a história.
O ambiente externo foi favorável, com inflação ao produtor mais moderada, juros longos em queda e novo recorde do S&P 500. Ainda assim, o dólar subiu frente ao real e a bolsa brasileira não acompanhou Wall Street. Isso mostra que fatores domésticos continuam dominando a formação de preço local.
Para o investidor, volatilidade extrema não deve substituir análise. Margens, geração de caixa, endividamento, recorrência do lucro e capacidade de execução ajudam a distinguir uma oportunidade de uma deterioração estrutural. Preço em queda não é sinônimo de desconto, assim como preço em alta não elimina risco.
Em dias de balanços, o índice mostra a direção; os fundamentos explicam quem realmente criou ou destruiu valor.
Este conteúdo possui caráter exclusivamente informativo e educacional. Não constitui recomendação de compra ou venda de ativos financeiros. Dados de mercado podem sofrer ajustes conforme novas divulgações e atualizações das fontes oficiais.
Fontes consultadas
- InfoMoney — fechamento do Ibovespa, dólar, commodities, indicadores e cobertura corporativa
- Associated Press — fechamento de Wall Street, Treasuries, petróleo e reação ao PPI
- Bureau of Labor Statistics — índice de preços ao produtor dos Estados Unidos
- IBGE — Pesquisa Mensal de Comércio de junho de 2026
- Banco do Brasil RI — informações e apresentação dos resultados do segundo trimestre de 2026
- MRV RI — resultado do segundo trimestre de 2026
- Universidade de Michigan — calendário da pesquisa de confiança do consumidor
- National Bureau of Statistics of China — calendário de indicadores econômicos
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